Chamada Para além dos 90 minutos: tempos e temporalidades do futebol no mundo lusófono

Data início: 22/04/2021Data de encerramento: 20/12/2021Local: Revista FuLiAData limite inscrição: 20/12/2021

CHAMADA v. 7, n. 1 (2022): submissão até 15 de novembro de 2021

FuLiA

O tema da(s) temporalidade(s) gera uma associação imediata com o tempo clássico do futebol. A duração básica de uma partida de futebol é de 90 minutos, tempo no qual Gunter Gebauer, em seu livro Das Leben in 90 Minuten (A vida em 90 minutos; 2016), se orienta para formular uma “Filosofia do Futebol”, por um lado, para descrever a “imediaticidade” completamente encerrada em si dos frequentadores de estádio e a “pura presença” (Hans-Ulrich Gumbrecht) vivenciada pelos jogadores durante uma partida, e, por outro, lançar luz sobre o efeito e o significado do futebol para além dessa imediaticidade.

Essa forma de temporalidade é, por exemplo, reconhecível fora do estádio, quando se observa as formas da cobertura jornalística, que vão da imediaticidade da transmissão ao vivo na televisão, na Internet e no rádio, passando pelas reportagens posteriores em meios de comunicação audiovisuais e impressos, até representações que se desvinculam do próprio jogo, e como a evolução dessas formas causou transformações no jogo e no seu significado sociocultural. Pode-se pensar também em temporalidades ligadas a representações de corpos, gêneros e sexualidades, como, por exemplo, em relação ao futebol de mulheres no mundo lusófono. 

Culturas do torcer também não se manifestam apenas durante o jogo, mas, sim, se desdobram antes e depois do jogo, nos tempos entre os jogos (que nos faz lembrar da famosa frase atribuída ao lendário treinador alemão Sepp Herberger: “Depois do jogo é antes do jogo”), suas atividades e efeitos. Jogos passados são analisados, jogos que estão por vir são discutidos, coreografias e ações são preparadas, a vida social e o engajamento político são postos em prática.

O ritmo temporal de um ou quatro anos determina não apenas o calendário das competições nacionais e internacionais, mas também estrutura com isso a memória (e o trabalho de memória) dos espectadores, dos torcedores, dos profissionais da mídia e dos pesquisadores. E do olhar para os ”tempos e temporalidade(s)“ do futebol deriva o foco sobre o conflito decisivo em torno do “futebol moderno” no sentido de um modelo social perfeitamente racionalizado e de uma representação idealista de um futebol original e “autêntico”. Os torcedores de “clubes tradicionais” costumam imputar aos chamados “clubes de empresas” a falta de uma história própria e substancial. Sem dúvida, a fascinação do futebol vive muito fortemente da memória e da narrativa dos triunfos, das derrotas e dos acontecimentos especiais do passado. E também no presente, aparentemente, não se situam mundos entre o futebol internacional de ponta e suas dimensões regionais ou locais, mas também tais mundos se sucedem em tempos distintos – e o mundo da língua portuguesa contém essas diversas temporalidades, que manifestam o legado do colonialismo e, ao mesmo tempo, refletem os efeitos da globalização.

A imagem dos “90 minutos” implica, naturalmente, também o olhar para o campo de jogo. Durante uma partida as equipes podem “pressionar o tempo” ou “jogar contra o relógio”, de modo que a dimensão temporal pode mudar fundamentalmente através do transcurso do jogo, podem, de acordo com a perspectiva, reduzir ou ampliar infinitamente os míticos “90 minutos”, e isso até mesmo simultaneamente. Dentro dos 90 minutos do tempo de jogo, o futebol também pode combinar várias camadas temporais, a do puro transcurso do jogo, a da memória de jogos passados, a da experiência individual e coletiva dos espectadores, a da realidade fora do campo e do estádio, o tempo condensado da história que se concretiza na própria partida (por exemplo, em clássicos e duelos tradicionais), ou também na futura memória dessa experiência.

Esses são alguns exemplos de manifestações de temporalidade(s) específica(s) e multifacetada(s) do futebol, cuja análise e interpretação possibilitam um olhar para a dimensão social e cultural do “ludopédio”. Portanto, sem essa(s) temporalidade(s) multifacetada(s) do futebol, não seriam possíveis as diversas narrativas do futebol, que tecem sua(s) história(s) a partir de percepções, projeções e memórias do jogo, e às quais desejamos nos dedicar nesta seção.

Para este dossiê da FuLiA/UFMG serão bem-vindas contribuições de diversas áreas – Estudos Literários, Estudos da Linguagem, Artes, Comunicação, História, Educação Física, Antropologia e Sociologia, entre outras – sobre as mais diversas formas de representação de tempos e temporalidade(s) no futebol do mundo lusófono, desde modalidades do torcer, relatos memorialísticos, formas diversas de produção de discursos midiáticos, até transformações do jogo e modos de apreensão temporal de corpos, gêneros e sexualidades. 

Coorganizadores: Dr. Elcio Loureiro Cornelsen (Universidade Federal de Minas Gerais/Brasil); Dr. Marcel Vejmelka (Universidade de Mainz/Alemanha).

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