XXVIII Simpósio Nacional de História

Data início: 31/12/1969Data de encerramento: 31/12/1969Local: Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)

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065. História do Esporte e das Práticas Corporais

Coordenadores: CORIOLANO PEREIRA DA ROCHA JUNIOR (Doutor(a) – UFBA), LUIZ CARLOS RIBEIRO (Pós-doutor(a) – Universidade federal do Paraná)
Local: Centro Tecnológico – CTC – Sala 201 – Primeiro Andar B

Resumo: O avanço da produção acadêmica nacional e internacional estimulou o aumento dos debates, estudos, fontes e metodologias que tratam da articulação entre os esportes e as práticas corporais, com as peculiaridades e especificidades do local, bem como a sua relação com o global. Tais transformações, ocorridas em diferentes áreas do conhecimento, adentraram no campo historiográfico e abriram as suas fronteiras para a análise de novos objetos históricos, tornando possível o primeiro Simpósio de Esportes da ANPUH, no ano de 2003, em João Pessoa, iniciando uma sequência de eventos que tem possibilitado a troca de ideias e experiências de pesquisa entre historiadores, que têm o esporte como objeto de investigação. O esporte é entendido aqui como uma manifestação cultural com sentido amplo: prática institucionalizada nas escolas, atividade de lazer, ou ainda como técnica complexa de movimentos que visam o rendimento, apreciada por um público consumidor considerável. No Brasil, ainda que existam estudos desde o século XIX, a pesquisa em história do esporte é um campo recente de investigação. Mesmo que o fenômeno esportivo não tenha escapado ao olhar atento de teóricos brasileiros no decorrer do século XX, somente nas duas últimas décadas começaram a crescer quantitativa e qualitativamente tais pesquisas, bem como a adquirir maior organicidade e reconhecimento científico. A complexidade do campo esportivo e a aderência da população global despertaram o interesse de pesquisadores, que vislumbram em tais práticas, a possibilidade de ampliar a compreensão de contextos sociais complexos. Hoje, o tema encontra-se disseminado em programas de pós-graduação de áreas como: Sociologia, Antropologia, Psicologia, Educação Física e História. Destaca-se, sobretudo na última década, a criação de laboratórios em universidades de São Paulo, Bahia, Paraná e Rio de Janeiro, o que potencializou a publicação de livros, capítulos e artigos em periódicos. Nesse sentido, apontamos a pertinência de inserção de um simpósio que trabalhe com a perspectiva de utilizar o esporte como uma chave para compreender, interpretar e/ou explicar cenários culturais, políticos, econômicos e sociais, inclusive no Brasil, que acabou de sediar uma Copa do Mundo e se prepara para receber os Jogos Olímpicos (2016).

Justificativa: O esporte é uma das manifestações culturais mais importantes dos últimos séculos. Tendo sua configuração articulada com outras dimensões sociais, econômicas e políticas, torna-se importante ferramenta na construção de representações de processos identitários regionais, de classe, de gênero, de etnia e de nação. Desde meados do século XIX, o esporte tem sido um elemento na construção de culturas políticas vinculadas à ideia de identidade nacional. Muitos dos indivíduos que atuaram na construção e legitimação da cultura e identidade(s) nacional(is) usaram as práticas esportivas como referência simbólica. Fosse no campo político partidário, no meio empresarial, no aparelho do Estado ou na imprensa (com destaque para a crônica), a discussão sobre o significado social do esporte foi, ao mesmo tempo, fundamental e profundamente tensionada, na medida em que nunca existiu um projeto único de unidade nacional. No Brasil, isso fica acentuado pela costumeira presença do futebol em nossa formação cultural. Com raras exceções, os próprios intelectuais que debateram a respeito da significância do futebol na cultura brasileira, oscilaram entre um discurso racionalizado e outro apaixonado, na tentativa de compreender a prática competitiva enquanto fenômeno já abrasileirado. Também vale ressaltar que a realização recente dos Jogos Pan-Americanos de 2007, da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e a organização dos Jogos Olímpicos de 2016, aumentam a visibilidade da temática para o público em geral, tanto no Brasil quanto no exterior, reforçando consequentemente a necessidade e a importância de iniciativas que permitam discutir, compreender, interpretar, explicar tais fenômenos por caminhos e perspectivas distintas daquelas presentes no senso comum e/ou na cobertura realizada pelos meios de comunicação. O aumento do interesse e da produção avança na medida em que o esporte amplia sua representatividade, tornando-se significativo, para estudos mais amplos do contexto das sociedades, articulados com dimensões que buscam dar significado à compreensão das dinâmicas sociais. Por tais motivos e pelos excelentes resultados obtidos nos encontros nacionais anteriores, bem como em diversos encontros regionais da ANPUH, crê-se ser importante à manutenção desse espaço para os pesquisadores interessados na temática. Ligada a um campo de investigação interdisciplinar, os Estudos do Esporte, a “História do Esporte” busca na interface disciplinar a consolidação de seu objeto, uma ampliação do já desenvolvido e também de diálogo com outras frentes de pesquisa, com a pretensão de afirmar o campo de produção científica da história do esporte e das práticas corporais, ampliando espaços de construções teóricas para pesquisadores, numa perspectiva multidisciplinar, além de estimular a convivência e o intercâmbio entre intelectuais.

Bibliografia: BOOTH, Douglas. The Field: Truth and fiction in sport history. London: Routledge, 2005.
BOURDIEU, Pierre. Como é possível ser esportivo? In: ______. Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983, p. 136-163.
ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992.
FREITAS JUNIOR, Miguel Archanjo de; CAPRARO, André Mendes (org.). Passe de letra: crônica esportiva e sociedade brasileira. Ponta Grossa, PR: Ed. Vila Velha, 2012. (Coleção Futebol e Sociedade)
GIULIANOTTI, Richard. Sociologia do Futebol – dimensões históricas e socioculturais do esporte das multidões. São Paulo: Nova Alexandria, 2002.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 10ª. Ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
HOBSBAWM, Eric. RANGER, Terence. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
HOLT, Richard. Sport and the British: A modern History. Oxford: Oxford University Press, 1989.
LUCENA, Ricardo. O esporte na cidade. Campinas: Autores Associados, 2001.
MELO, Victor Andrade de; FORTES, Rafael. História do esporte: panorama e perspectivas. Fronteiras, v. 12, n. 22, p. 11-35, jul.-dez. 2010.
MELO, Victor Andrade de (org). Os sports e as cidades brasileiras: transição dos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Apicuri, 2010.
MELO, Victor Andrade de. História comparada do esporte. Rio de Janeiro: Shape, 2007.
PHILLIPS, Murray (org.). Desconstructing sport history. Nova Iorque: State University of New York Press, 2006.
PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro (1902-1938). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.
PRIORE, Mary del; MELO, Victor Andrade de (Org.). História do esporte no Brasil: do Império aos dias atuais. São Paulo: Unesp, 2009.
VIGARELLO, Georges. O tempo do desporto. In: CORBIN, Alain (org.). História dos tempos livres. Lisboa: Teorema, 2001, p. 229-262.

 

Programação

28/07 – Terça-feira (Tarde – 14h as 18h)
  • Fabio de Faria Peres, Victor Andrade de Melo
    Ginásticas por todos os lados: usos e abusos no Rio de Janeiro do século XIX
    Os primeiros estudos sobre a presença da ginástica no Rio de Janeiro do século XIX sugerem que era fraca sua manifestação no cotidiano da cidade (MORENO, 2001), bem como enfatizam uma suposta matriz médica e pedagógica na sua conformação (PAIVA, 2003; GONDRA, 2004). Investigações recentes, todavia, demonstram que a prática ocupava espaço significativo no dia-a-dia da capital, articulada com uma série de dimensões que extravasavam os espaços de saúde e ensino (MELO, PERES, 2014). Uma das chaves do seu sucesso parece ter sido mesmo sua inserção na dinâmica de uma sociedade que progressivamente passou a valorizar a vida pública, especialmente as atividades de entretenimento, potencializadas pela configuração de um mercado ao seu redor. Com o intuito de entender melhor os diversos sentidos e significados que cercaram os primórdios da ginástica no Município Neutro da Corte, este estudo objetiva discutir os diversos usos do termo expressos nos periódicos fluminenses publicados entre 1831 e 1888, bem como nos dicionários de português editados nos séculos XVIII e XIX. Trabalhamos com uma base de aproximadamente 15.000 ocorrências da palavra nas revistas e jornais consultados, cotejadas com as definições apresentadas pelos lexicógrafos. Para alcance do objetivo, tomamos o cuidado de considerar a imprensa não como uma expressão da verdade, mas sim como uma representação que dialogava complexamente com o cenário sociocultural de seu tempo. Ainda que não se trate stricto sensu de uma história do conceito ginástica, este estudo, na esteira do que propõe Koselleck (1992), pretende contribuir para que se considere a dimensão linguística como um dado importante na melhor compreensão dos nossos objetos de pesquisa. Foi possível perceber que o termo foi muito utilizado no que tange às atividades apresentadas em circos e teatros (possivelmente a ocasião em que mais circulava), aos possíveis benefícios da prática para a saúde (posições expressas nos jornais em geral e em periódicos médicos), ao trato da disciplina em escolas civis e militares (não só do Brasil, como também de outros países), bem como à sua presença em agremiações diversas. Seu uso, todavia, extrapolou essas ocorrências, sendo constantemente mobilizado para expressar ações e comportamentos que não necessariamente se relacionavam aos exercícios em si. De toda forma, se a polissemia era a marca da utilização do termo ginástica (e seus derivados) no século XIX, os sentidos mobilizados tinham algum grau de conexão com certas dimensões da prática de atividades físicas, expressão não só do delineamento multidimensional dessa nova possibilidade de uso do corpo, como mesmo de uma nova relação em geral com o corpo, o que acabava por requisitar novos regimes de disciplina e controle.
  • Janice Zarpellon Mazo, Vanessa Bellani Lyra
    “Gymnastica”e “Educação Physica”, faces da saúde e da modernidade para o Rio Grande do Sul republicano
    O objetivo proposto nesta investigação foi o de percorrer a inserção das práticas corporais de “Gymnastica” e “Educação Physica” no contexto escolar sul-rio-grandense, na medida em que esta providência foi aqui avistada como parte de um processo educacional mais amplo, fomentado pelas demandas da emergente sociedade republicana. De uma maneira mais ampla, essa compreensão política afirmava, em seu bojo, que o nascimento de um novo Brasil estava na dependência da gestação de um novo brasileiro: educado, saudável e instrumentalizado para a (re)construção do país. Assim, ao nascimento biológico de nossas crianças e jovens se sobrepunha um novo, agora trazido pela escola, caracterizado pela gestação de hábitos ativos e higiênicos, em contraposição à ideia de imobilidade corporal. Nesse caminho, para que fosse possível compreender o lugar da “Gymnastica” e da “Educação Physica” na educação escolar do Rio Grande do Sul do momento em questão, foi necessário perceber a atmosfera de transformações que perpassou a prática educativa como um todo, ressignificando o que se apresentava conceitualmente sobre a própria noção de escola e suas finalidades. Para o alcance do objetivo proposto, foram analisados alguns documentos legais de orientação educacional expedidos no período, buscando interpretá-los em suas intencionalidades. Percorreu-se, nesse caminho, uma vasta documentação composta por leis, decretos, currículos oficiais de formação docente, bem como os relatórios expedidos pelos governantes estaduais. A investigação está assentada na análise de documentos escritos, sobretudo as leis, os quais foram concebidos enquanto materiais e textos históricos, portadores de mensagens, sentidos e finalidades particulares ao seu contexto. Nesse viés investigativo, cabe ressaltar que a análise dos referidos documentos foi realizada tendo por base as leituras acerca das técnicas da análise documental (Pimentel, 2001; Corsetti, 2006), as quais nos proporcionaram uma íntima relação de aproximação, questionamentos e interpretações junto às fontes históricas. De outro modo, a investigação da realidade histórica eleita, inspirou-se no conceito teórico “campo”, descrito por Bourdieu (1983; 1996), a partir do qual nos fez tensionar a inserção da Gymnastica e da Educação Physica, no cenário educacional sul-rio-grandense. Assim, a partir das fontes históricas analisadas percebeu-se a adoção, em ritmo crescente, de um conceito de educação mais dinâmico, cadenciado e fluido, que parecia solicitar o movimento corporal como parte do processo de ensino-aprendizagem. Interpretadas, as fontes históricas nos permitiram reunir as informações coletadas em dois sub-ítens: A Escola em direção ao corpo e seus movimentos; Gymnastica e Higiene, conteúdos que se ensinam a ter saúde.
  • Edivaldo Góis Junior
    Higiene e educação física escolar na imprensa do Rio de Janeiro (1930-1939)
    Na década de 1930, na então capital federal, Rio de Janeiro, o debate intelectual que colaborou para constituição de uma mentalidade higienista teve novos contornos. O cenário político favoreceu uma centralização do Estado. Sendo o Rio de Janeiro, o centro administrativo da República, haveria a necessidade de articulação entre as políticas governamentais no âmbito da educação e saúde, sobretudo naquela cidade. Nesse sentido uma presença maior dos intelectuais em cargos governamentais poderia garantir a efetivação de uma série de estratégias que visava à construção de uma reforma mais ampla da sociedade pautada pela modernidade que residia também nas reformas de hábitos, como, a higiene e a educação do corpo. O que objetivamos neste estudo foi considerar uma dessas estratégias, em específico, a educação física e sua relação com o cotidiano escolar. O estudo teve como fontes, principalmente, os jornais “O Paiz”, e o “Jornal do Brasil”, no período de 1930 a 1939. A análise dos dados empíricos foi realizada na perspectiva de que qualquer discurso é datado, por isso, sua interpretação descontextualizada, apenas pode produzir anacronismos. Ignorar o contexto e os valores específicos daquela época comprometeria esta narrativa, pois esta interpretação deveria partir dos discursos próprios da década de 1930 que envolviam um contexto de valorização da saúde e educação públicas. Na aplicação desta análise em um tempo e espaço específicos, observamos que nossa hipótese que considerava a influência limitada da produção intelectual higienista brasileira nos anos de 1930 no cotidiano das escolas na cidade do Rio de Janeiro no mesmo período, não se sustentou. Pois, ao contrário, evidenciou-se a partir dos jornais que o debate intelectual influenciou as políticas públicas, e em alguns contextos específicos, atingiu um universo considerável de escolas no Rio de Janeiro. Atentamos para o fato de que, em particular, na década de 1930, na capital federal, intelectuais ocuparam cargos públicos estratégicos no campo da educação, sobretudo, no início da década, como por exemplo, Fernando de Azevedo e Anísio Teixeira, o que possibilitou avanços consideráveis na intervenção higienista, e consequentemente, um investimento mais consolidado na institucionalização da educação física escolar como uma das estratégias de educação do corpo.
  • Paula Carolina Teixeira Marroni
    A EDUCAÇÃO DO CORPO E A EDUCAÇÃO PARA A VIDA: O OLHAR SOBRE A EDUCAÇÃO DO CAVALEIRO MEDIEVAL POR RAIMUNDO LÚLIO
    As práticas corporais, quando observadas pela perspectiva da História da Educação, nos fornecem uma gama de elementos que nos convidam à reflexão. No que tange uma educação que envolva tanto práticas corporais quanto a transmissão de valores, a história nos revela muitos exemplos. No século IV a.C., atenienses buscavam a educação do corpo em complemento à uma vida com mente sã e corpo são, bem como espartanos educavam-se para a guerra e, por meio de suas práticas, buscavam valores como bravura e justiça. Já no século XVIII, com o desenvolvimento dos movimentos ginásticos europeus, educava-se por meio das práticas corporais para o civismo, a disciplina e o desempenho das funções sociais com saúde e energia. Nossa proposta é analisar uma fonte do século XIII, O Livro da Ordem de Cavalaria (1272 – 1283), no qual Lúlio enfatiza a importância da educação do cavaleiro medieval em questões tanto corporais quanto espirituais, enfatizando a importância de possuir um corpo perfeito para a guerra, mas carregado de valores como nobreza e honra. Dessa forma, Este trabalho tem por objetivo apresentar a educação do cavaleiro medieval, segundo Raimundo Lúlio (1232 – 1315), como uma perspectiva do século XIII para além das questões corporais: uma educação para a vida. Entendemos que as práticas corporais, ao longo da história, desenvolveram-se em contextos em que, formalizadas, sugeriam a importância da educação corporal para a educação da mente, para a moralização do sujeito, uma educação que perpasse o corpo mas, que por meio deste, eduque-se também seus valores morais. Seguindo a perspectiva da História Social, a obra, enquanto fonte literária, nos permite observar como um homem do século XIII observava sua história e considerava como ideais, determinadas ações para os sujeitos de sua época desenvolverem na sociedade. O texto apresenta brevemente vida e obra de Raimundo Lúlio, apresentando a fonte de pesquisa e desenrola-se na análise de como Lúlio sugeria a educação do cavaleiro medieval tendo como referência o equilíbrio entre questões corporais e valores morais.
  • Dhenis Rosina
    Feminilidade prescrita: Os papéis normativos de gênero no esporte olímpico brasileiro
    O cenário esportivo olímpico a partir do século XX, passou a ser composto também por mulheres, essa possibilidade se deve em muitos casos a insistência de mulheres que desafiaram seus limites físicos e comprovaram sua capacidade de praticar modalidades esportivas exaustivas, contrariando o discurso médico fundado em diferenças biológicas que determinavam o papel social da mulher. Sendo assim, esse trabalho tem o objetivo de analisar as intersecções de gênero na formação das identidades de atletas olímpicas brasileiras a partir da narrativa biográfica. Para coleta de dados realizamos duas entrevistas com atletas olímpicas da década de 1960: Aída dos Santos, atleta do atletismo nos Jogos Olímpicos de 1964 e 1968; e Lúcia de Faria Alegria Simões atleta do hipismo nos Jogos Olímpicos de 1968. A interpretação das narrativas demonstrou que as atletas marcam a desconstrução do padrão feminino ao atribuírem novos adjetivos para a mulher contemporânea, por outro lado, os papéis normativos de gênero, como o casamento e a dosmeticidade, estão no discurso das atletas que, mesmo em ambientes sociais distintos, associam sua identidade a concepções normatizadas e hegemônicas da feminilidade.
  • NEI JORGE DOS SANTOS JUNIOR
    Diversão à moda suburbana: representações, identidades e práticas corporais (1906)
    Em diversas áreas das ciências sociais, abordaram-se questões sobre o tema “cultura popular”. Neste trabalho, faremos o esforço de pensar alguns “usos do povo” ou alguns significados atribuídos a vida divertida nos subúrbios da cidade do Rio de Janeiro. Para tanto, a base de nossa argumentação se estabelece na tentativa de compreender as representações criadas pela grande imprensa carioca, notadamente pela crônica de Olavo Bilac, desqualificando e estereotipando as práticas de lazer da região suburbana. No texto, o autor descreve uma cidade fragmentada, na qual passava a ser lida através dos corpos e do comprometimento entre seus frequentadores. Foi por meio desses corpos dançantes que o cronista criou uma cartografia moral da cidade, tomando-os como indicadores de culturas e pertencimentos sociais. Quanto ao recorte temporal adotado (1906), levou-se em conta o ano em que a crônica de Olavo Bilac, “A dança no Rio de Janeiro”, foi publicada na Revista Kosmos, reflexo de um desejo de redefinir usos e costumes considerados inadequados aos padrões daquilo que se julgaria civilizado. É nesse momento que se registra na consciência intelectual a ideia do desmembramento da comunidade carioca em duas sociedades antagônicas e dessintonizadas, devendo uma, claramente, prevalecer sobre a outra.
  • NAILZE PEREIRA DE AZEVEDO PAZIN
    Esporte para Todos (EPT): a reinvenção da alegria brasileira (1971-1985)
    Esporte para Todos (EPT): a reinvenção da alegria brasileira (1971-1985)Nailze Pereira de Azevedo PazinNos anos de 1970 e 1980 as práticas esportivas ganhavam outra profundidade, os exercícios, outros objetivos. Os velhos modelos de investimento “muscular” no início do século XX são transpostos para modelos de “autorrealização integral” e “autocontrole”. O manual técnico da campanha Esporte para Todos (EPT), realizada no Brasil entre 1977-1985, assinalava: “cada atividade que você participa, ocorre um enriquecimento seu e dos outros, você ganha mais experiência, desenvolve a sua sensibilidade, fica cada vez mais gente EPT”. A Campanha Nacional de Esclarecimento Desportivo da qual o EPT fazia parte empregou também, como meio principal, a produção da Revista Comunidade Esportiva e o uso de quantidade considerável de imagens fotográficas de atos, do instante da cena esportiva. Qual a natureza desses registros? Como fica a narrativa dos acontecimentos elaborada pela linguagem fotográfica nos manuais técnicos do Esporte para Todos? Nesse sentido, o objetivo deste artigo é discutir, o EPT, como um esforço conjugado por uma miríade de interesses específicos do período – governo civil-militar, maquinaria e industrialização, emulação das classes trabalhadoras, um meio desencadear a prática do esporte de modo massivo, o que implica ao mesmo tempo a tentativa de produzir um novo “homem”, “alegre”, “competitivo”, “grupal”, e do uso útil do tempo livre.

    Palavras-chave: História. Ditadura civil- militar. Esporte para Todos.

  • Roberto Gondim Pires
    O Curso de Educação Física da Universidade Federal da Bahia-UFBA: uma conquista histórica.
    Esse texto objetiva fazer um balanço da influência sofrida e exercida pelo Curso de Educação Física da UFBA no processo de consolidação da formação profissional baiana. Com a criação de novos cursos em instituições públicas ou privadas, a EF ampliou seus espaços de formação acadêmica. Por isso, analisar a trajetória de constituição, instalação e funcionamento de diferentes cursos, nos permite compreender a conformação da área no país (Vilela S, Rocha Junior CPda, 2006). O Estado da Bahia é um dos principais Estados do Brasil em vários segmentos, inclusive no pioneirismo na Educação Superior Nacional. Entretanto, no que se refere à consolidação de cursos de formação em Educação Física, teve um histórico muito confuso e pouco inteligível. Como metodologia, trabalhamos com os aspectos teórico-metodológicos da História cultural, com foco na história oral, entrevistando pessoas envolvidas com a fundação do Curso. Os dados das fontes orais foram compreendidos como “versões do passado”, socialmente situadas, articuladas com o obtido em documentos e na literatura especializada. Assim, o presente estudo buscou perceber as rupturas e continuidades nos discursos e na prática no tocante a Formação Profissional em Educação Física na Bahia, bem como procurou analisar os acontecimentos que marcaram uma época e/ou contribuíram para que outros acontecimentos representativos ocorrecem posteriormente.Em suma, o que se pretendeu foi analisar, à luz das fontes documentais disponíveis e de depoimentos de professores, dirigentes de Cursos e dirigentes institucionais: os avanços e os ranços no processo de formação em Educação Física na Bahia, tendo como foco prinicipal o Curso da UFBA e o seu palpel como protagonista nesse processo de mudanças. Como resultados, identificamos: preconceitos institucionais; mudança de mentalidade na lógica de formação profissional em Educação Física na Bahia; e a participação estudantil proativa em implementações acadêmicas. Este percurso, objetivou ampliar o espectro de compreensão acerca dos interesses, motivos, e âmbitos determinantes das mudanças de eixo na Formação profissional em Educação Física na Bahia. Dito de outra maneira, colocamo-nos o desafio de reconstruir uma das possíveis histórias da Educação Física baiana, pois entendemos que para a melhor compreensão de nosso momento atual se faz mister o estudo e a compreensão da sua gênese, a busca de nossas raízes. Assim, investigar o percurso entre a motivação para a criação, até sua instalação e funcionamento é em si algo que faz valer este estudo, permitindo a identificação em seu desenvolvimento de “evidências que permitissem (re)discutir alguns momentos da trajetória da educação física brasileira” (MELO, 1996).
29/07 – Quarta-feira (Tarde – 14h as 18h)
  • ANDRÉ MENDES CAPRARO
    A LUTA ROMANA NOS JORNAIS DO RIO DE JANEIRO (1909-1929): ENTRE O SUCESSO DE PÚBLICO E AS TRANSGRESSÕES
    A luta romana fez parte do programa da primeira Olimpíada moderna realizada em Atenas, na Grécia em 1896. Ao longo da primeira década do século XX esta modalidade de esporte de combate já detinha uma relativa popularidade em alguns países europeus e nos Estados Unidos. No Brasil tais disputas ganharam certa visibilidade nos periódicos cariocas a partir do final da primeira década do século XX quando algumas trupes europeias de luta romana, contratadas pela Companhia Paschoal Segreto, apresentaram-se em teatros na cidade do Rio de Janeiro. Tendo em vista tais aspectos, a presente pesquisa intenta por meio de fontes jornalísticas, analisar e problematizar tais disputas. Assim sendo, o objetivo delineado é o de compreender como a referida modalidade de esporte de combate foi retratada nos periódicos da cidade do Rio de Janeiro entre os anos de 1909 e 1919 enfatizando as questões relacionadas com a violência. Conceitualmente esta pesquisa foi pautada no referencial teórico proposto por Norbert Elias e Eric Dunning, em especial na obra “A Busca da Excitação”, na qual os mesmos trataram da violência latente ou não nos esportes. E ainda Jay Coakley no livro Sports and society: issues and controversies (2007), no qual este se refere ao conceito de transgressões e desvios. Embora tenha sido considerada pela maioria dos periódicos como uma modalidade de esporte de combate civilizada e pouco violenta, a prática sofreu severas críticas referentes à conduta desviante de alguns atletas das referidas trupes. Colaborou também para a popularização e disseminação da luta romana a participação do brasileiro José Floriano Peixoto, o qual disputou e venceu diversos combates contra lutadores estrangeiros.
  • Jônatas Marques Caratti
    “Quando o boxe era caso de polícia”: o surgimento do pugilismo em Porto Alegre (1910-1930)
    Esta apresentação tem como objetivo mostrar alguns resultados de nossa tese de doutorado em andamento. Especificamente, para este Simpósio Nacional de História, iremos mostrar os primeiros vestígios do pugilismo em Porto Alegre (RS). O primeiro contato da cidade com esta prática esportiva foi por meio da cinematografia. Logo no início alguns filmes acabaram por ser proibidos, porque a violência dos matchs se mostrava contra a ordem, o progresso e os bons costumes da cidade. No entanto, não demorou muito para que teatros e circos incluíssem o boxe como parte de seu programa artístico. A ACM (Associação Cristã de Moços) também participou da divulgação do boxe, organizando lutas e treinando a “petizada” da época. Nossas fontes de pesquisa são o jornal “A Federação (RS)”, a Revista do Globo (1928-1967) e os Códigos de Posturas de Porto Alegre (1910-1916). A questão central de nossa investigação é perceber como se deu a repressão policial e estatal a este esporte marginal, e como os lutadores, treinadores e empresários souberam dar a volta por cima e tornar o boxe um fenômeno esportivo das décadas posteriores.
  • Carlos José Martins, Fabio Augusto Pucineli
    Jigoro Kano e a Educação no Japão Pós Restauração Meiji
    Através de pesquisa bibliográfica e documental, este trabalho visa discutir a perspectiva de educação nos trabalhos de Jigorō Kano, cujo feito mais reconhecido, sem dúvida alguma, é a elaboração do judô. Nascido em 1860, pouco antes da Restauração Meiji (1868 – 1912) – o grande marco da modernização do Japão, Kano fora educado neste contexto de intensa e rápida transição ocorrida no país. Transição esta na qual não só novos costumes foram agregados ao cotidiano japonês, mas também tradições tiveram de ser reinventadas. O judô é a prática corporal combativa que foi ao encontro dessa nova sociedade, com suas sensibilidades e valores reformulados. A formação acadêmica de Kano aconteceu em escolas e universidades de Tokyo, numa combinação de Clássicos Chineses e Japoneses, caligrafia, filosofia, língua inglesa, ciência política etc. Estudou basicamente dois estilos de jujutsu, dos quais extraiu e ressignificou as técnicas. Para Kano, o princípio ju yoku go wo seisu (a suavidade controla a força) deveria ser complementado. O tripé no qual Kano baseou sua prática foi: a educação do corpo, do intelecto e da moral, possivelmente baseado nos estudos de Herbert Spencer. Como já existia uma escola de jujutsu chamada judo, a nova prática fora batizada de Judo Kodokan (ko = estudo; do = caminho e kan = lugar, instituição). Segundo o método educativo do Judô Kodokan, a pessoa deveria primeiramente fortalecer e manter seu corpo saudável para que seja um bom veículo à alma e ao intelecto. Da mesma forma, era necessário saber defendê-lo. O Judo Kodokan seria a pedagogização e reformulação das antigas práticas combativas sob pressupostos científicos. “Máxima eficiência com o mínimo de energia” e “progresso mútuo” consolidaram-se como as principais lemas para aqueles que se propunham a trilhar o caminho do judo proposto por Kano. Mas o criador do judô não restringiu sua atuação somente em reformular o jujutsu. Tinha pretensões de alterar todo o sistema educacional japonês. Defendia uma educação “global”, o que compreendia um plano comum de ensino para todo o país e também uma maneira de educar o sujeito nos seus aspectos físico, moral e intelectual. Lançou mão de tecnologias disciplinares de educação sobre o corpo, sempre buscando adaptar, ou conformar, o novo cidadão para a moderna sociedade japonesa que emergia.
  • Leomar Tesche
    A ORGANIZAÇÃO DAS LIGAS E DOS CLUBES ALEMÃES, A FORMAÇÃO DE ATLETAS NO RIO GRANDE DO SUL: O TURNEN EM QUESTÃO.
    Os estudos sobre o desenvolvimento e a organização dos esportes, das Ligas e dos Clubes no RS não foram estudados na sua totalidade. Há inúmeros estudos que demonstram o interesse dos imigrantes e teuto-brasileiros sobre a pratica, mas nenhum, até o momento, conseguiu demonstrar como foi esse desenvolvimento e a organização das práticas corporais e dos esportes no estado do Rio Grande do Sul. Alguns estudos preliminares realizamos e publicamos com outro enfoque e não nos detivemos sobre este propósito, sem no entanto desmerecer este tema. Portanto, a pergunta norteadora do estudo é como foi a organização das Ligas e dos Clubes alemães e o incentivo para que praticassem e representassem as suas regiões em eventos estaduais como meio de incentivo a formação de atletas no RS até o Estado Novo? Temos como objetivo entender essa organização na formação de atletas através das Ligas e dos Clubes alemães no Rio Grande do Sul.
  • Renato Lanna Fernandez
    A CONCEPÇÃO DE ESPORTE EM ANTONIO PRADO JUNIOR: O amadorismo como princípio civilizatório e regenerador
    Esse texto pretende analisar a trajetória biográfica do Deputado federal e Prefeito do Distrito Federal Antônio Prado Junior como dirigente esportivo do C. A. Paulistano, Associação Paulista de Sport Atlhetico (APEA) e Liga Amadora de Futebol (LAF). Pertencente a uma das famílias mais ricas do Brasil, foi o maior símbolo da defesa intransigente do esporte amador, liderando uma tentativa de manter o futebol paulista dentro do regime amadorista entre 1926 e 1929, tal defesa levou ao encerramento do departamento de futebol do CA Paulistano, um dos clubes mais importantes do país naquele momento. Partindo do principio que o esporte é um elemento integrante do contexto social mais amplo, capaz de apresentar, refletir ou representar uma série de fenômenos do universo social do qual faz parte. Pretendo mostrar os conflitos dentro do futebol paulista em um momento de transição do regime amador para o profissional através da análise do pensamento desse dirigente, indo além da visão tradicional que o vê como um representante do elitismo reinante nos primórdios do futebol, mas como possuidor de um pensamento que enxerga o esporte com um caráter civilizador e regenerador.
    PALAVRAS CHAVES: Futebol, amadorismo, São Paulo, esporte, representações.
  • Cleber Eduardo Karls
    Os “centauros da campanha” e seus crioulos: o turf à gaúcha da Porto Alegre do século XIX
    O turf foi um esporte muito popular na capital do Rio Grande do Sul no século XIX. Em Porto Alegre, eram quatro os hipódromos que recebiam disputas ao final do período oitocentista. Esta prática procedente da Europa conquistava, cada vez mais, simpatizantes entre os gaúchos brasileiros que aproveitavam a sua intimidade, ou pelo menos a sua proximidade com a lida campeira para praticarem, apostarem, torcerem pelos seus jockeys (ou ginetes como também são chamados no Rio Grande do Sul) e cavalos preferidos. A tradição e a modernidade se relacionavam intimamente em uma Porto Alegre que buscava crescer, se civilizar, entrar em contato com hábitos considerados evoluídos, mas que tinha na associação de grande parte dos seus habitantes com o campo e com o trato com os animais uma característica marcante. A própria imprensa da época denotava muitos elogios, incentivava e associava o povo do Rio Grande do Sul ao cavalo, naturalizando esta relação entre o sulista e o eqüino. Em mais de uma oportunidade os cavaleiros sul-riograndenses foram comparados a “centauros da campanha” ou mesmo a heróis. Por outro lado, a prática do turf e a sua expansão era uma demonstração da modernização que passava por Porto Alegre. O hipódromo seria o local de desenvolvimento de hábitos civilizados, modernos, um aperfeiçoamento da rudimentar, quase selvagem carreira, tratada como “sistema muito primitivo, isto é, corredores em manga de camisa, com o lenço amarrado na cabeça e em cavalos não encilhados”. Era necessária a “evolução”, a adequação da prática tão comum entre os sul-riograndenses ao modo europeu. Acontece que a modernidade “à gaúcha” tinha as suas peculiaridades. Aliava muitas vezes novas práticas importadas da Europa a antigas tradições locais. Turf com carreira, ginete com jockey, cancha reta com hipódromo. Porto Alegre demonstrava como o esporte se relacionava e se adaptava às condições e tradições locais. O turf “à gaúcha” não deixou de agregar características do moderno esporte britânico, suas regras, seus termos estrangeiros. No entanto, encontrou no sul do Brasil um povo com hábitos tão híbridos quanto se tornou o esporte que no Rio Grande do Sul foi praticado. Para esta apresentação, propomos algumas considerações baseadas na investigação da imprensa de Porto Alegre do século XIX, onde buscamos destacar o surgimento do turf enquanto prática esportiva moderna, seu desenvolvimento, assim como a assimilação e aplicação dos discursos de modernidade oriundos do velho continente na sua relação com o esporte e as tradições sulinas. Enfim, buscamos analisar as especificidades de Porto Alegre em um contexto de esportivização e modernização.
  • Rafael Fortes Soares
    O surfe na história do esporte no Brasil
    O artigo tem o objetivo de discutir o lugar do surfe no universo da produção historiográfica brasileira sobre esporte. Para tanto, desenvolve-se em duas seções. A primeira analisa o processo histórico através do qual esta prática foi assimilada em diferentes regiões, ao mesmo tempo em que discute o modo como certas narrativas a respeito dessa história vão se consolidando. Nesse sentido, as questões do pioneirismo e da centralidade do Rio de Janeiro são analisadas criticamente no contexto da produção historiográfica recente. O modo como estas questões são tratadas no universo do surfe não é propriamente original ou único, mas repercute um imaginário e um modo típico e usual de representação histórica sobre o esporte no Brasil, de maneira mais geral. Isto é, a historiografia brasileira dos esportes tem enfatizado que o desenvolvimento de modalidades esportivas em todo o país teria sido um reflexo de episódios acontecido nas maiores cidades, o que deve ser apreendido com algumas reservas, segundo considerações que apresentamos. A segunda seção do artigo aborda as teses e dissertações defendidas sobre o assunto nos últimos dez anos, propondo uma espécie de agenda de investigação para a história do surfe no Brasil, tendo em vista o diálogo estabelecido com a história do esporte e a escassez de pesquisas sobre a modalidade.
  • Leonardo Brandão
    HISTÓRIA DA PROIBIÇÃO DO SKATE EM BLUMENAU (1999-2008)
    Este trabalho se insere num domínio historiográfico conhecido como “História do Esporte”. Fruto da abertura aos novos temas, problemas e fontes, catalisada pela renovação dos estudos históricos durante o século XX, a “História do Esporte” visa contextualizar, discutir e problematizar as práticas esportivas a partir de elementos culturais, políticos, sociais e econômicos. Neste trabalho em específico, tomamos como estudo de caso a prática do skate, atividade usualmente inserida no âmbito dos “Esportes Radicais” e que, nas últimas décadas, vem sendo praticada por um conjunto significativo de jovens no Brasil. O recorte geográfico da pesquisa é o município de Blumenau, localizado no Estado de Santa Catarina e geralmente lembrado por ser palco da Oktoberfest. Nesta cidade, a prática do skate foi proibida pela Lei Ordinária nº 5211, que entrou em vigor no dia 17 de maio de 1999, sendo revogada somente em 2008, durante a gestão do prefeito João Paulo Kleinübing. Assim, a proibição da prática do skate em Blumenau durou aproximadamente 10 anos, uma extensão de tempo bem maior do que aquela que perdurou na cidade de São Paulo, onde essa prática também ficou proibida de 1988 a 1990. Para compreender os motivos que levaram o skate a ser proibido na cidade de Blumenau, foi realizada uma pesquisa com base em fontes impressas, jornais e revistas, e também através de entrevistas com os principais atores sociais envolvidos com a prática do skate nessa cidade. O objetivo foi analisar tanto os motivos que levaram a proibição dessa atividade em Blumenau quanto seu retorno à legalidade, mapeando a ação dos principais agentes desse processo e também narrando os episódios que envolveram os atos de restrição e coibição à atividade, geralmente efetuados pela guarda municipal. Concluiu-se que, embora a proibição da prática do skate tenha sido decretada por lei municipal no ano de 1999, uma coibição bastante rígida a essa prática já existia desde o final da década de 1980 em Blumenau. Além disso, o retorno a legalidade da prática, ocorrido com a revogação da lei no ano de 2008, foi conquistada através da pressão organizada dos skatistas, liderada por George Gonçalves, Presidente da União Blumenauense de Esportes Radicais (UBER), e com o apoio da revista 100% Skate, uma publicação nacional especializada nessa atividade.
    Palavras-chave: História; Skate; Proibição; Blumenau.
31/07 – Sexta-feira (Manhã – 08h as 12h)
  • Vivian Luiz Fonseca
    Capoeira-Esporte (e/)ou patrimônio? Considerações sobre o contexto de produção do primeiro pedido de Registro da Capoeira arquivado no IPHAN.
    O presente trabalho busca analisar o contexto no qual o(s) pedido(s) de reconhecimento da Capoeira como Patrimônio Cultural do Brasil foram gestados. Ainda, quais os significados associados à Capoeira em suas solicitações de titulação, procurando analisar como as percepções da prática como esporte e patrimônio cultural são articuladas nesses pedidos. A partir do estudo de caso da Capoeira, busca-se perceber a diversidade de atores sociais e questões às quais estão associadas essas ações preservacionais no Brasil, assim como, em que medida essas demandas passam a compor suas estratégias de luta por direitos. Patrimonializada em julho de 2008, a Capoeira foi reconhecida como patrimônio cultural imaterial brasileiro em reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), instituição federal vinculada ao Ministério da Cultura. O patrimônio ao qual a Capoeira está relacionada – intangível ou imaterial – é recente e, no caso brasileiro, até o ano 2000, a política de preservação do país estava restrita ao tombamento. Os primeiros Registros de patrimônio imaterial aconteceram dois anos depois, em 2002, e titularam o “Ofício das Paneleiras de Goiabeiras” e a “Arte Kusiwa – pintura corporal e arte gráfica Wajãpi”. Quatro anos após os primeiros Registros, em 2006, o processo de Inventário da Capoeira é aberto no âmbito do IPHAN atendendo à solicitação do Presidente da instituição à época, Luiz Fernando de Almeida. A despeito da solicitação que culminou na abertura do processo datar de fevereiro de 2006, o primeiro pedido de reconhecimento patrimonial da Capoeira nos remete ao ano de 2004, e é assinado pela Deputada Federal Alice Portugal do Partido Comunista do Brasil/ Bahia (PCdoB). A solicitação de 2004 traz à tona articulações políticas promovidas por setores de capoeiristas baianos que, via fomento da Capoeira-patrimônio, buscavam um contraponto ao entendimento da Capoeira-esporte e às tentativas de controle e regulamentação dos Conselhos Federal e Regionais de Educação Física. Mesmo sendo fruto de uma política de preservação patrimonial relativamente nova, o Registro de bens imateriais passou a compor não apenas o cardápio de possibilidades do MinC e seu órgão de salvaguarda do patrimônio, como também de grupos e comunidades produtoras dos bens culturais em busca de direitos e reconhecimento.
  • Diana Mendes Machado da Silva
    Usos e representações do corpo no futebol popular de São Paulo nas primeiras décadas do século XX: o caso da Associação Atlética Anhanguera
    Ao figurar como um ícone de modernidade, o futebol engajou variados grupos da cidade de São Paulo tornando-se ao mesmo tempo um canal de comunicação e um objeto de disputa entre eles. Ao acompanhar momentos da trajetória da Associação Atlética Anhanguera, fundada por ítalo-brasileiros, foi possível notar um núcleo de práticas corporais e de representações associados ao futebol e à cultura imigrante durante as primeiras décadas do século XX. Primeiramente, um tom bastante pejorativo adjetivou a prática dos populares nas várzeas e nos subúrbios em oposição à valorização do chamado futebol de elite. Aos poucos, a valorização dos imigrantes moradores dessas regiões e de seu modo de vida por periódicos como “A Gazeta Esportiva” modificou essa visão. O futebol praticado no subúrbio passou então a ser visto como um espaço da produção de talentos por ser vivido de maneira livre e criativa, imagem que perdura em expressões como “amor à camisa”, “celeiro de craques”, entre outras.
  • André Alexandre Guimarães Couto
    OS DONOS DAS LETRAS NO JORNAL DOS SPORTS – BREVES APONTAMENTOS NA FRONTEIRA ENTRE HISTÓRIA E BIOGRAFIA
    Neste trabalho procuramos apresentar de forma breve as perspectivas de trabalho acerca de nossas fontes, as crônicas esportivas publicadas no Jornal dos Sports, no período de 1950 a 1958. Nosso eixo cronológico se justifica por continuarmos nossas pesquisas que se iniciaram no Projeto de Pesquisa “A hora e a vez dos esportes: a criação do Jornal dos Sports e a consolidação da imprensa esportiva no Rio de Janeiro (1931-1950)” e que resultou em uma Dissertação de Mestrado no Programa de Pós-Graduação em História Social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ/FFP).
    Se naquela ocasião pretendíamos escrutinar as origens e a consolidação de um periódico esportivo e suas relações com a política interna brasileira, dentre outras questões importantes, nosso projeto atual visa pesquisar as crônicas esportivas deste mesmo jornal ao longo de um período significativo – a década de 1950 – para pensarmos este gênero híbrido na formação de opiniões e na constituição de um processo de fidelização do leitor.
    Chegamos até aqui pensando não somente nas características e nuances do nosso objeto e fonte de pesquisa, as crônicas esportivas, mas também em que conjuntura histórica e editorial elas eram publicadas, ou seja, como era o jornal em que os textos eram parte integrante e importante do mesmo, assim como foi relevante conhecer um breve panorama deste tipo de produção literária e jornalística na cidade do Rio de Janeiro.
    A partir de agora, poderemos refletir, finalmente, sobre a produção dos nossos cronistas do JS e, desta forma, traçar um quadro comparativo das principais formas de estilos textuais das crônicas no referido jornal. Apesar da orientação editorial do JS voltada para uma defesa irrestrita do esporte organizado e dos interesses dos clubes do Rio de Janeiro, dentre outras campanhas do jornal, podemos perceber a forma autônoma dos cronistas de contar boas histórias e, portanto, de criação de representações culturais e sociais em torno do universo esportivo.
    Nossa hipótese, a central de nosso trabalho, é de que apesar da importância de Mário Filho para a construção de um novo jornalismo esportivo por meio de um diferente modo de noticiar os jogos e os esportes como um todo, na redação de editoriais e na direção do jornal, não devemos acreditar na mitológica interpretação da imprensa (que persiste até os dias atuais) no esquecimento de outros importantes autores/cronistas.
  • Jhonatan Uewerton Souza
    De chuteiras e gravatas: apontamentos sobre a relação entre futebol e poder público na Curitiba das primeiras décadas do século XX
    Nos últimos anos, a realização da fase final da Copa do Mundo de Futebol Masculino de 2014 e dos Jogos Olímpicos de Verão de 2016 no Brasil, reascendeu um debate – que já vinha se encaminhando desde, pelo menos, a realização dos Jogos Pan-Americanos de 2007 – sobre as relações, nem sempre lícitas e transparentes, entre o universo dos esportes e o poder público. Ao que parece, entretanto, esse interesse repentino no tema não foi acompanhado de um esforço mais profundo de compreensão e historicização desse fenômeno. Não obstante as marcantes diferenças contextuais, é possível afirmar que aproximações, esporádicas ou estruturais, entre o meio futebolístico e o campo político institucional é uma realidade desde a chegada dessa prática esportiva no país.
    Partindo da hipótese que as relações entre futebol e política são mais antigas do que se costuma supor, nesse artigo analisaremos as relações entre os principais clubes e ligas de futebol de Curitiba e o poder público municipal e estadual, nas décadas de 1910 e 1920, com o objetivo de compreender a natureza e dimensão dessas relações, bem como os interesses de ambos os atores sociais – ligas de futebol e Estado – na edificação dessas relações.
    Embora boa parte da literatura e da memória produzida sobre o futebol indique a “Era Vargas”, em especial o Estado Novo, como o período de maior aproximação entre as instituições dirigentes do futebol e o Estado, ao menos em Curitiba, essa realidade antecede a década de 1930. Com efeito, desde a formação dos primeiros clubes e ligas, passando pela inserção de equipamentos esportivos na reforma urbana da cidade, pela proibição do futebol de rua, nos eventos cívicos por ocasião da primeira guerra mundial e nos pedidos de auxílio para a construção de praças esportivas, em todos essas ocasiões, aproximações entre instituições esportivas e poder público foram verificadas. Como desdobramento dessa relação, em agosto de 1921, os clubes filiados à Associação Sportiva Paranaense se engajaram na campanha para deputado estadual do presidente da ASP, Antonio Jorge Machado Lima, campanha que ficaria conhecida pelo epíteto “candidatura esportiva” e que tinha como uma de suas principais bandeiras o estímulo à disseminação da prática esportiva, reconhecendo as entidades desportivas como e a imunidade tributária às associações promotoras de atividades físicas e/ou esportivas.
  • André Luiz Rodrigues Carreira
    FUTEBOL, CLASSE TRABALHADORA E AS TRANSFORMAÇÕES URBANAS DA CIDADE DE SANTOS NO INÍCIO DO SÉCULO XX
    O presente estudo, desenvolvido como parte de tese de doutorado no Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade de São Paulo, tem como objetivo central analisar as relações existentes entre o surgimento das primeiras agremiações esportivas dedicadas à prática de futebol na cidade de Santos e a classe trabalhadora local, identificando o espaço ocupado por essas iniciativas no processo de transformações urbanas e sociais ocorrido na cidade de Santos nas primeiras décadas do século XX. A pesquisa pretende recuperar a ação dos diferentes grupos existentes na sociedade santista do período abordado, procurando problematizar os interesses em jogo e compreender como o futebol – visto aqui como elemento fundamental para a compreensão da cultura e das experiências dos sujeitos em questão – participou desse processo. Entre os objetivos específicos dessa pesquisa, pretendo estabelecer uma espécie de “cartografia” do futebol na cidade de Santos no período citado, identificando os clubes criados e os setores sociais representados por eles. Por fim, pretendo cotejar os materiais produzidos por essas agremiações esportivas com os periódicos da cidade, produzidos pela classe trabalhadora ou de caráter comercial, procurando compreender de que forma o então nascente futebol era retratado nessas publicações. A análise desses materiais parte do pressuposto de que o passado não nos lega testemunhos neutros e objetivos e que todo documento é suporte de prática social, e por isso, fala de um lugar social e de um determinado tempo, sendo articulado pela/na intencionalidade histórica que o constitui. Procuro, nessa direção, entender o esporte – o futebol, especificamente – como linguagem constitutiva do social, detendo uma historicidade e peculiaridade próprias, requerendo ser trabalhado e compreendido como tal. Assim, pretendo discutir a cultura – representada aqui pela prática esportiva do futebol – não como um campo de construção de harmonias e consensos, mas como um meio de efetivação de disputas e embates entre diferentes práticas e tradições, procurando, no caminhar da investigação, indagar na experiência de sujeitos diversos as múltiplas possibilidades de significado que se engendravam no processo de construção da sociedade santista do início do século passado. A linha metodológica adotada encontra apoio em autores como Hilário Franco Júnior (2007), Richard Giulianotti (2010), Leonardo A. de Miranda Pereira (2000), Luiz Henrique Toledo (2000) e Fátima Martín Rodrigues Ferreira Antunes (1992).
  • Alvaro Vicente Graça Truppel Pereira do Cabo
    O mundial da Argentina: Nacionalismo e defesa da pátria em “la fiesta de todos”
    O presente artigo tem como foco o nacionalismo e a mobilização social em torno da Copa do Mundo realizada em 1978, apresentando uma contextualização histórica da organização do torneio na Argentina e representações coletivas geradas por veículos tradicionais da imprensa do país até a cerimônia de abertura do mundial.
    Este trabalho analisa principalmente os esforços do regime ditatorial comandado pela Junta militar presidida por Rafael Videla em utilizar o torneio como uma metáfora de integração nacional e uma resposta a uma suposta “campanha anti-Argentina” além do conteúdo retórico de articulistas do jornal Clarín e da revista esportiva El Gráfico as vésperas do torneio.
    Os militares retornaram ao poder com o golpe de 24 de março de 1976 que derrubou Isabel Perón e deu início a uma nova ditadura militar no país. A repressão se intensificou durante os anos iniciais do período conhecido como o “Processo” que vai se caracterizar por um período de autoritarismo, censura, , tortura, mortes, mas também celebrará uma espécie de consenso tácito em torno de alguns acontecimentos históricos entre veículos da imprensa e grande parte da população, como por exemplo o Mundial de 1978.
    Os articuladores do “Processo” receberam a organização do mundial de 1978 como um provável “presente de grego”. Os questionamentos da opinião pública internacional, sobretudo com a criação do COBA (Comité d’Organisation pour le boycote a la Coupe du Monde en Argentine), as possíveis retaliações de órgãos internacionais à realização do evento e as esperanças dos adversários do regime preocupavam a junta militar com o que eles denominaram “campanha anti-Argentina”.
    Todavia, os esforços do Estado para a realização de um evento modelar com intenso apelo nacional foram enormes com altos investimentos em infraestrutura e remodelação dos estádios. A organização do campeonato mundial de futebol passou a ser planejada como um assunto de grande interesse nacional visto que a própria imagem do país para os dirigentes do regime estava em “jogo”.
    A partir de uma metodologia da Nova Histórica Política foram utilizadas obras da História Contemporânea da Argentina e de História do Esporte para descrever a conjuntura do país nos anos setenta, além de fontes primárias do jornal Clarín e da Revista esportiva El Gráfico nos meses que antecederam a organização do evento.
    A ideia de coesão nacional a partir da valorização do sentimento de pertencimento é um elemento fundamental dentro da argumentação dos articuladores nos veículos analisados reforçando o discurso nacionalista e estabelecendo representações coletivas a partir da organização do evento e da identificação com o selecionado que se tornaria campeão do mundo.
  • Ernesto Sobocinski Marczal
    Por que (não) devemos fazer o Mundial 78? Amostras do embate público sobre a realização da Copa do Mundo na Argentina.
    Ao longo do século XX, as Copas do Mundo de futebol verificaram o aumento exponencial de seu apelo como um produto da cultura de massas. Para além da disputa esportiva, os Mundiais da FIFA adquiriram a conotação de grandes eventos midiáticos, capazes de atrair a atenção de milhares de pessoas. Em reiteradas ocasiões a preparação e andamento do evento deixaram de ser uma preocupação apenas dos aficionados pelo esporte, de federações e dirigentes para também se tornar objeto de interesse institucional de empresas privadas, órgãos públicos e do Estado em diferentes níveis, seja em suas ramificações nacionais, regionais ou locais.
    O crescimento do envolvimento estatal na organização e promoção dos campeonatos contribuiu para um aprofundamento das dimensões políticas da competição, que não se restringiam mais a viabilizar as partidas e o debate em torno dos resultados, mas envolviam a divulgação da imagem dos países envolvidos, a capitalização política da atenção midiática destinada a competição, interna e externamente, além da possibilidade de efetivar uma série de negócios, inclusive com o investimento do dinheiro público. Embora esses elementos estejam presentes em praticamente todas as competições desse tipo até o momento, alguns eventos em especial experimentaram tanto o acirramento quanto a exposição de suas dimensões políticas, sobretudo pelas circunstâncias particulares nas quais se desenvolveram. Um dos exemplos mais célebres e sobre o qual dirigimos nosso olhar, é a Copa do Mundo da Argentina, em 1978, que ocorreu sob o signo da ditadura militar de Videla, Agosti e Massera. Contudo, essa comunicação não se volta para o momento da competição em si, tomada por polêmicas quanto a sua instrumentalização política, com suspeitas de interferência externa nos jogos, mas para o final de 1975, instante em que o governo de Isabel Perón agonizava e a crise socioeconômica colocava em xeque as possibilidades de a Argentina sediar o Mundial de 1978.
    Com base nas considerações de Gabriel Tarde sobre a conformação de uma opinião pública e o papel dos veículos de imprensa nesse processo, buscou-se analisar como se configurava o debate em torno do Mundial de 1978 a partir das posições de dois locutores públicos: o radialista José María Muñoz, favorável a realização do evento no país, e o jornalista Dante Panzeri, um de seus mais ferozes detratores. As posturas desses autores foram sintetizadas em dois artigos publicados na revista Chaupinela, de novembro de 1975, de maneira a apresentar, sob pontos de vistas opostos, as dimensões políticas atribuídas a Copa do Mundo e os embates que permeavam a sua realização. Apreciações político-públicas que precederam a concretização do evento sob a tutela da ditadura militar.
  • Bruno Duarte Rei
    “Taça Independência” (1972): futebol, propaganda e consenso em tempos de milagre
    A relação entre a mobilização da prática esportiva e a construção de identidades nacionais é tema que tem recentemente recebido maior atenção por parte de historiadores. O presente trabalho, alinhado com esses esforços, analisa o uso do futebol como estratégia de propaganda política no âmbito da “Taça Independência” – torneio internacional realizado entre 11 de junho a 9 de julho de 1972, como parte da programação oficial das comemorações do Sesquicentenário da Independência brasileira. Intenta-se discutir como, no contexto das festividades em questão, a presença de um campeonato futebolístico se relacionou com um processo de legitimação simbólica da ditadura militar, notadamente por meio da exaltação de alguns elementos identitários, tendo em conta reforçar um imaginário otimista sobre o país. Ademais, trata-se o futebol como um objeto privilegiado para compreensão das relações estabelecidas entre regime militar e sociedade civil em sua complexidade. Dentro dessa perspectiva, de um modo articulado com o estudo do fenômeno da propaganda política, também pretende-se debater como a “Taça Independência” constituiu-se em um mecanismo de reafirmação de um consenso social estabelecido sob a ditadura militar.
31/07 – Sexta-feira (Tarde – 14h as 18h)
  • Marlene de Fáveri
    Copa do Mundo: mídias e turismo sexual em Florianópolis (SC).
    No mês de fevereiro de 2014, durante os preparativos para a realização da Copa do Mundo de Futebol no Brasil, Florianópolis recebeu a delegação de técnicos das seleções classificadas, bem como jornalistas de todo o mundo, sendo aproximadamente 300 pessoas. Setores ligados ao turismo e à imprensa deram destaques especiais ao evento, na expectativa de revigorar o turismo internacional e mostrar o potencial acolhedor do estado de Santa Catarina, em especial de Florianópolis. No primeiro dia do evento, o jornal Diário Catarinense distribuiu um Suplemento Especial, uma espécie de guia turístico da cidade, com o título Welcome to Floripa; estampava na capa a publicidade de uma casa noturna, o Bocarra Club, com imagens de mulheres em poses eróticas, numa evidente apologia ao turismo sexual. Analiso os impactos midiáticos dessas imagens, oferecidas como objeto de desejo; cartas trocadas entre um órgão público e esta mídia; as ressonâncias desta publicação em leitores/as a respeito do turismo sexual; e os usos de imagens femininas na mídia, na perspectiva das relações de gênero.
  • Luciana Ferreira Angelo
    Gestão da carreira esportiva: o futebol olímpico em destaque
    São poucos os estudos sobre gestão de carreira esportiva abordando os processos de transição, seus ciclos e a pós-carreira atlética nas Ciências do Esporte. É também incomum o uso de métodos de pesquisa que utilizam entrevistas abertas com atletas e pós-atletas que abordam de forma abrangente a vida do atleta onde esse tópico está inserido. No caso específico do futebol o jornalismo de uma forma geral costuma explorar esse tema, principalmente com a intenção de denunciar situações de contradizem o glamour e a visibilidade que o atleta vive durante a fase produtiva da carreira. A modalidade foi escolhida pelo poder de influência nas políticas públicas nacionais, e por apresentar um grupo expressivo de atletas que vivenciou tanto a fase amadora quanto a profissional. O objetivo desta pesquisa foi identificar e analisar como se dá o processo de gestão da carreira esportiva entre atletas olímpicos do futebol que também viveram uma carreira longeva no futebol profissional a partir da perspectiva da transformação da identidade nos diferentes ciclos que compõem a carreira do atleta. Busca discutir os processos de formação de identidade atlética, bem como as formas de gestão profissional da carreira esportiva apontando significados e sentidos no decorrer do seu desenvolvimento, em sua finalização e na construção de uma nova carreira. Para tanto foram intencionalmente selecionados 12 atletas, 10 deles já afastados da atividade profissional e 02 atletas ainda em atividade, todos eles acima de 33 anos de idade, originários de várias regiões do Brasil. Para tanto foi utilizado o método das narrativas biográficas de atletas brasileiros que fizeram parte de pelo menos uma seleção brasileira que participou de uma edição dos Jogos Olímpicos entre as décadas de 1960 e 2000. A tese defende que a gestão da carreira esportiva é feita na relação que o indivíduo tem com sua carreira subjetiva e com a carreira construída socialmente, viabilizando o conceito de carreira como projeto de vida seguindo as ideias propostas pelo paradigma Life Design. Os resultados apontam para a necessidade do atleta existir como unidade dentro de um espaço social, esportivo, pessoal e profissional transformando e renovando seu entendimento sobre si mesmo, sobre o mundo exterior, cuidando da sua própria existência.
  • Karina Barbosa Cancella
    A participação das Forças Armadas brasileiras na organização dos Jogos Latino-Americanos de 1922
    Em 1922, o Brasil comemoraria o centenário de sua independência política de Portugal. Dentre as inúmeras festividades planejadas para as comemorações, foram realizados os “Jogos Olympicos Latino-Americanos” ou “Jogos Athleticos Sul Americanos” ou “Jogos do Centenário” (as três nomenclaturas foram utilizadas para designar o mesmo evento). Para a realização das competições, foram conjugadas ações de grupos e entidades esportivas civis e militares. Este artigo visa discutir como se configurou a participação de integrantes das Forças Armadas brasileiras no processo de organização desses eventos esportivos e os desdobramentos dessas atuações para o campo da atividade física sistematizada no interior das Forças Armadas em atividade naquele momento (Marinha do Brasil e Exército Brasileiro). Para tal, empreendeu-se uma pesquisa histórica no campo da História do Esporte a partir de um corpus documental composto por fontes documentais e de imprensa (PINSKY, 2006), analisados a partir do método de “análise crítica de documentos”. (CALADO; FERREIRA, 2005). As análises e discussões apontaram que a experiência adquirida na participação das Ligas Esportivas Militares e de atletas das Forças Armadas nos Jogos Latino-Americanos e nas competições militares realizadas em paralelo ao evento principal ocasionaram uma intensificação nas ações de promoção da educação física e dos esportes entre os militares brasileiros a partir da década de 1920. Os principais exemplos desse processo foram a efetiva fundação das Escolas de Educação Física nas duas forças para formação de monitores com responsabilidade de divulgar a prática de atividades físicas e esportivas e o estabelecimento da obrigatoriedade da educação física entre os militares.
  • EUCLIDES DE FREITAS COUTO, Marcus Vinícius Costa Lage
    O conservadorismo mineiro e a Copa do Mundo: análise histórica da cobertura jornalística do Estado de Minas em tempos de preparativos para o Mundial de 1950 em Belo Horizonte
    A preparação para a Copa do Mundo de futebol no Brasil em 1950 pode ser problematizada a partir das diretrizes formuladas pelos EUA para o novo concerto mundial pós-Guerra, pautadas, sobretudo, na liberdade do capital estrangeiro, que encontravam ressonância nas exigências e ingerências da FIFA. Desejoso de despontar como nação preeminente no cenário internacional, o Brasil estreitou laços diplomáticos com os EUA e abriu portas para o capital. No sentido de compreender a realização desse evento no contexto da reordenação política, o presente artigo, ao tomar a cidade de Belo Horizonte/MG como estudo de caso, se propõe a analisar historicamente a cobertura do jornal Estado de Minas problematizando suas posições ideológicas no bojo do novo modelo político adotado pelo país.
  • Eduardo José Silva Lima
    Futebol à moda da casa: a construção do Regionalismo e as disputas culturais.
    A cidade do Recife na década de 1920 é o cenário que reside à pesquisa histórica de que resulta tal texto. Numa perspectiva nacional, enquanto estado brasileiro, há um debate em torno de, ao menos dois, projetos político-econômicos são eles: Centralismo e Federalismo. É possível realizar uma discussão análoga entre o Nacionalismo e Regionalismo no campo cultural. Pois, é nesse momento histórico (anos de 1920) que percebemos, de forma mais efetiva, a construção de uma identidade nacional e, como contraponto, a consolidação de uma identidade regional na capital pernambucana. Nesse ponto fazemos a interlocução entre projetos políticos nacionais e projetos culturais regionais. Entendemos que os campos político e cultural estão imbricados, não é possível analisa-los de forma separada. Este trabalho tem como objetivo entender o futebol, enquanto uma pratica cultural polissêmica, como um meio, uma forma para o estudo do sentimento regionalista presente no Recife da década de 1920. Sentimento este, expresso de várias formas, encontrou no futebol uma maneira de alcançar um grande número de pessoas, já que, o esporte estava dentro do que podemos chamar de “cultura de massas”. A construção de uma identidade regional através do futebol é um ponto relevante do trabalho, pois demonstra como a cultura é um campo de disputas e conflitos com base teórica no historiador inglês Edward Palmer Thompson. Discutiremos nas linhas que seguem a difusão das ideias regionalistas expressas nos jornais e revistas recifenses da década de 1920, a participação do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre nesse processo e como o futebol se tronou um campo de disputas entre projetos sociais. A pergunta a ser respondida é: de que forma o futebol foi aos poucos tomando tons regionais ao ponto de ser representante da força do estado de Pernambuco? Justamente no contexto no qual Pernambuco diminui sua relevância no cenário nacional em questões políticas e econômicas, práticas culturais vão sendo resignificadas e se tornando representantes de um movimento reacionário a esse processo, um movimento de tons regionalistas, mas que não era estatutário, tampouco organizado de forma hierarquizada.
  • ELCIO LOUREIRO CORNELSEN
    Imagens do negro no futebol brasileiro
    Nossa contribuição visa à construção de um breve panorama de imagens do negro no futebol brasileiro. Enquanto construtos discursivos, tais imagens registram não apenas modos de representação do negro, como também momentos da história do futebol e da conformação social no país. Tomaremos por base diversas fontes, desde imagens fotográficas, relatos de jogadores, crônicas, ensaios, poemas e letras de canções, seguindo um método analítico que nos permita refletir sobre as imagens em seu caráter discursivo. Para tanto, trataremos de temas como memória, identidade nacional e racismo.
    A história do futebol e a questão racial no Brasil apresentam diversas facetas, várias delas já cristalizadas em forma de mito desde a chegada do “esporte bretão” ao país, na última década do século XIX. Não faltaram arautos para cantar as façanhas e feitos futebolísticos nos mais diversos âmbitos e meios.
    Sem dúvida, a relevância do futebol para a sociedade brasileira e para o imaginário nacional vai muito além dos aspectos esportivos propriamente ditos, ou mesmo dos aspectos culturais. Tendo passado por diversas e significativas transformações, o futebol ainda permanece como um dos vértices para se pensar conceitos cada vez mais fluidos em franca era de globalização, como “nação”, “identidade” e “raça”. Este último, aliás, pouco ou nada traduz a diversidade étnica de uma sociedade como a brasileira, e ainda traz consigo um ranço de épocas em que vigoravam teorias eugênicas e racialistas pseudo-científicas das primeiras décadas do século XX.
    Nesse sentido, pretendemos construir um breve panorama de imagens do negro no futebol brasileiro, tomando por base, para isso, diversas fontes, desde imagens fotográficas, relatos de jogadores, crônicas, ensaios, poemas e letras de canções, enquanto registros autênticos de momentos da história do futebol e da conformação social no país. Adotaremos um método analítico que nos permita refletir sobre as imagens em seu caráter discursivo. Diversos temas tangenciarão nosso percurso, dentre eles, a identidade nacional, a discriminação social e o racismo.
  • Luciano Jahnecka
    CARREIRAS DE FUTEBOLISTAS FAMOSOS E NÃO-TÃO-FAMOSOS: DOS “POUCO-BADALADOS” AOS “OPERÁRIOS”
    Neste artigo pretendo abordar a constituição de alguns futebolistas no momento atual, priorizando aqueles que fizeram parte de um acompanhamento etnográfico com os quais pude realizar entrevistas, frequentar suas casas e ao mesmo tempo acompanhar através de fontes imagéticas. Conceber o “jogador de futebol” como um símbolo que não detém um significado apriori, mas que adquire significados e que portanto é produzido a partir deles. Através da ambiguidade da profissão enquanto o reconhecimento de uma categoria, utilizo-me das referências legais da leis Bosman e Pelé que reconfiguraram a relação entre “jogadores” e clubes. Tal ambiguidade evidenciada também pela categoria auto-referenciada pelos interlocutores, os quais não consideram como um trabalho, pois, em sua perspectiva, o trabalho não pode ser “jogar” futebol. Assim pretendo discutir o surgimento das categorias de “Direito de imagem”, as “aparições”, “revelações” e a considerada “formação” nas disputas entre clubes. Destaco a importância dos entrecruzamentos entre classe social e diferenças de gênero para uma espécie de “aposta familiar” no que se refere ao prosseguimento de uma carreira no futebol.
  • Luiz Carlos Ribeiro de Sant’ana
    Política desportiva e o caso do futebol no Brasil e na Espanha (1964 a 1975)
    O presente trabalho consiste em versão adaptada de um capítulo da tese intitulada O Futebol nas telas: um estudo sobre as relações entre filmes que tematizaram o futebol, duas ditaduras e promessas de modernidade, no Brasil e na Espanha – 1964/1975 (PPGHC/IFCS/UFRJ – 2013). Posto isso, o que veremos neste texto é o seguinte: uma breve síntese do tema do futebol como objeto de estudo, destacando-se a relevância sócio-cultural dessa prática nos dois países sob análise; o delineamento igualmente breve de um histórico das políticas estatais para o esporte bretão, levadas a cabo pelas ditaduras brasileira e espanhola, no período mencionado; uma súmula comparativa entre as duas experiências históricas.
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      Chamada da Revista Amerika n.º 25: O mundo do esporte nas Américas

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        1º Concurso de Crônicas do Museu do Futebol

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          História, Conceitos e Futebol – Racismo e modernidade no futebol fora do eixo