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19 de setembro de 93: Brasil 2×0 Uruguai

Fabio Perina 19 de setembro de 2020

Logo após a decepção na Copa América do Equador, de 93, eliminada nos pênaltis pela Argentina, a seleção brasileira teve que disputar as Eliminatórias da Copa de 94. Apontada na teoria como favorita à classificação junto do Uruguai, o grupo que se completava com Bolívia, Equador e Venezuela na prática foi mais complicado. O início da campanha com o empate em Quito e principalmente a derrota em La Paz, inédita para a seleção em Eliminatórias, acenderam um alerta pelas semanas seguintes.

A cobrança da torcida brasileira por resultado e desempenho a levaram a um clamor popular que se intensificava pela presença de Romário à seleção. Um capricho da comissão técnica de Parreira e Zagallo ao deixar o melhor atacante do mundo de fora, alegando mais uma vez essa maldita disciplina que tanto tolhe o talento e a liberdade do futebol tupiniquim. No início de setembro a lesão de Muller na penúltima partida forçou Parreira a finalmente ceder e convocar Romário para a partida derradeira contra o Uruguai.

Havia tanta tensão no ar que até mesmo o antigo goleiro de 50, Barbosa, chegou a ser expulso da concentração da seleção na Granja Comary sob alegação de que traria má sorte. O reencontro em 93 de um Brasil x Uruguai em pleno Maracanã em disputa direta por uma vaga na copa assumiu contornos ainda mais dramáticos que o de 89, na disputa do título da Copa América. Pelo lado do Brasil, como semelhança uma maior repetição dos personagens de 89 em 93: Taffarel, Ricardo Gomes, Branco, Dunga, Bebeto e Romário. Se em 89 o treinador Lazaroni era o espírito da ‘modernidade’ naquele momento, sobretudo com o esquema tático 3-5-2, em 93 a dupla Parreira e Zagallo encarnavam uma tentativa de conciliação entre o moderno e o tradicional. Do lado uruguaio, novamente na meia Enzo Francescoli como enganche e a esperança de jogar por uma bola salvadora.

Foto: Reprodução / CBF

Porém, ao longo da partida, essa uma bola não apareceu e o Uruguai foi sendo triturado pela pressão brasileira mas resistia. Era evidente que o retorno de Romário contagiou os companheiros a se imporem em campo em busca da vaga. Mas somente na metade do segundo tempo veio o gol para desafogar: como em 89, boa trama de Bebeto com o lateral direito (antes Mazinho e agora Jorginho) para cruzar na medida para o baixinho Romário cabecear sozinho. Dez minutos depois a tensão desapareceu de vez: ótimo desarme de Mauro Silva (“passando o trator” como se ouve na narração) e um lançamento de uma intermediária a outra para encontrar Romário mais livre do que nunca na até então tão cerrada defesa uruguaia. O mano a mano com o goleiro Siboldi exigiu do baixinho rápida decisão e qualidade para um grande drible e depois empurrar a bola para o gol vazio e correr para a galera. Mais do que o alívio, era a arrancada rumo ao tetra.

Esse foi o partidazo que fez Romário transcender de craque a ídolo. Muitas vezes já se falou que seu diferencial em campo era ‘se fingir de morto’ dentro da área para esperar o bote. De certa forma assim também foi nos tumultuados bastidores da seleção nas Eliminatórias, pois ele segurou as declarações mais bombásticas conforme a partida derradeira contra o Uruguai se aproximava para depois finalmente explodir. Em meio à comemoração evidente que deixou de lado a humildade e o politicamente correto e disse que veio para ser o salvador da pátria sim! (Curiosamente no outro grupo das Eliminatórias também surgia outro salvador sendo convocado no desafio derradeiro: o retorno de Maradona na seleção argentina para a repescagem contra a Austrália).

Uma oportunidade também de se pensar no legado da geração do tetra. Ganhando ou não, sem Romário seria difícil haver um contraponto ao discurso comum de que a “Era Dunga” fosse feita apenas de tanta eficiência e modernidade que gerou tantos críticos a ela até hoje. Sem Romário talvez não houvesse mais do que uma “ótima geração brasileira” na virada dos anos 80/90 que, tal qual os memes atuais, teve ótimo desempenho tático mas faltou “apenas” o resultado! Com Romário ficou uma lição ao tão desagradável discurso da ‘modernidade’ que em alguma dose de malandragem, personalidade e até indisciplina não se pode renunciar para um time vencedor. Como já dizia o mestre João Saldanha com suas ‘feras’, convocar jogador não é como escolher quem vai casar com a filha…

19/09/1993 – Brasil 2 x 0 Uruguai – Maracanã (Rio de Janeiro)
Motivo: Eliminatórias da Copa do Mundo de 1994.
Público: 101.670 pagantes.
Árbitro: Alberto Tejada Noriega (Peru).
Brasil: Taffarel; Jorginho, Ricardo Rocha, Ricardo Gomes e Branco; Mauro Silva, Dunga, Raí e Zinho; Bebeto e Romário. Técnico: Carlos Alberto Parreira.
Uruguai: Siboldi; Canals (Adrián Paz), Herrera, Kanapkis e Méndez; Dorta, Batista, Gutiérrez e Francescoli (Zalazar); Fonseca e Rubén Sosa. Técnico: Ildo Maneiro.
Gols: Romário, aos 26′ e aos 38′ do segundo tempo.

 

Referências

https://trivela.com.br/brasil/25-anos-de-um-dia-magico-no-maracana-a-consagracao-de-romario-destruindo-o-uruguai/


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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. 19 de setembro de 93: Brasil 2×0 Uruguai. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 44, 2020.
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