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1974: nas janelas e varandas, são raras as bandeiras

Miguel Enrique Stédile 1 de dezembro de 2021

Se na Copa do Mundo de 1970, os interesses políticos, o milagre econômico e o desempenho em campo convergiram para a conquista do tricampeonato e o ufanismo; o cenário para a Copa seguinte era muito distinto. Recém empossado como quarto presidente da Ditadura Militar, o general Ernesto Geisel, não nutria o mesmo interesse pelo futebol que seu antecessor, o general Médici, e preferiu afastar-se da propaganda estatal em torno do futebol.

Apesar disto, a Ditadura precisava desesperadamente de um bom resultado na Copa disputada na Alemanha Ocidental. A crise do petróleo atingira em cheio a economia brasileira, dependente da importação de combustíveis, e o custo de vida acompanhou o preços dos barris de petróleo, a gasolina e a carne de segunda haviam dobrado de preço e o leite subira 33%.

Já a seleção brasileira aprofundava as características da militarização iniciada na Copa anterior. Mário Jorge Lobo Zagallo seguia à frente da Seleção Brasileira e, assim como ele, parte da Comissão Técnica de 1970 permaneceu no cargo: Antônio dos Passos como coordenador da comissão, o médico Lídio Pompeu de Toledo, os preparadores físicos Admildo de Abreu Chirol, Carlos Alberto Parreira e o subtenente Raul Alberto Carlesso; o capitão Cláudio Pêcego Coutinho, agora como assistente técnico. O diretor financeiro da CBD Tarso Herédia de Sá era o secretário da Comissão Técnica.

A presença militar também estava preservada: o chefe da Delegação era o coronel Eric Tinoco Marques, comandante da Escola de Educação Física do Exército, medalhista de ouro no Pentatlo nos jogos Pan-Americanos de 1951. O ex-goleiro olímpico e militar da aeronáutica Carlos Alberto Cavalheiro era o supervisor da comissão.
A composição da Comissão Técnica, tal como em 1970, parecia reproduzir o ideal tecnocrático do governo militar. Mais do que militares, os preparadores físicos correspondiam ao ideal supostamente neutro, científico e eficiente da tecnocracia, exatamente como se afirmava que deveria ser a gestão do Estado – operada por técnicos em oposição aos políticos.

A militarização incluía a permanência do esquema de segurança rígido, afastando jogadores da imprensa e dos torcedores, a adoção de um toque de alvorada como nos quartéis (Placar n.º558, 23/01/1981, p.57) e a prática da censura, adotada no “Manifesto de Glasgow”, redigido por Cláudio Coutinho, em que os jogadores anunciaram que não falariam mais com a imprensa.

Sem os grandes jogadores que conquistaram o tricampeonato – em especial Pelé – e dos quais restavam apenas Jairzinho, Rivelino, Piazza e Marco Antônio, a Seleção Brasileira apoiava-se mais na soberba e no ufanismo do que nos resultados para almejar o tetracampeonato. O clima no vestiário também não era dos melhores e a imprensa registrava um ambiente “conturbado, tenso e inseguro” (Placar, n.212, 12/04/1974) sem lideranças, instável emocionalmente e sem titulares incontestáveis.

Jairzinho Zagallo
Jairzinho e Zagallo na Alemanha Ocidental (1974). Foto: Wikipédia

O discurso de “país potência” parecia não se adequar nem aos campos econômicos, nem aos campos futebolísticos. Como resultado, a Copa e a seleção eram recebidas com apatia pela população, como registra a Veja (n.301,p.100) que “largas camadas da população teriam chegado à conclusão de que não tem importância o Brasil ganhar ou não o tetra”,

A menos de uma semana de mais uma Copa há uma certa passividade ou indiferença diante do evento que se aproxima. Nas ruas, nota-se a ausência quase completa do fenômeno do verde-amarelismo que desceu sobre o país em 1970. Na época, era arriscado um automóvel circular sem pelo menos uma tarja indicando que seus ocupantes estavam integrados na “corrente pra frente” do futebol (Veja n.º301, p.102).

E a desconfiança se justificou. O Brasil abriu a 10ª Copa do Mundo com um tedioso empate sem gols contra a Iugoslávia. Mesmo placar no jogo seguinte contra a Escócia. Com a vitória previsível sobre a fraca seleção do Zaire por 3 a 0, a seleção garantiu a classificação caminhando numa tênue linha entre a tragédia e a glória: não fosse o terceiro gol, marcado por Valdomiro, suficiente para superar a Escócia pela segunda vaga, o Brasil teria encerrado sua participação na Copa nesta partida. Mas não convenceu o torcedor, como registra a Placar:

As cabeças estão baixas, nos botequins e nas ruas do Brasil, as fisionomias estão carregadas. Nas janelas e varandas, são raras as bandeiras. Parece um paradoxo esse clima de triste alegria, logo no momento em que a Seleção consegue a classificação e sua primeira vitória — por 3 a 0 — na Copa. Mas não há nada de absurdo no comportamento do povo. Esse time que só conseguiu bater no Zaire não é a Seleção com que sonha este povo que ama o futebol e já comemorou três títulos mundiais. Está muito longe disso; não é nem a sombra do futebol brasileiro. (Placar, n.º223, 28/06/1974,p.3)

Esta apatia só seria superada na fase semifinal, nas vitórias sobre a Alemanha Oriental (1 a 0) e Argentina (2 x 1), quando são finalmente vistas comemorações nas ruas após as partidas. Porém, bastou o confronto com a Holanda, cujo futebol Zagallo admitira que não conhecia antes da Copa, para reconduzir o futebol brasileiro à sua crise existencial. O resultado levou o Brasil para a disputa do terceiro lugar, sendo novamente derrotado, agora para a Polônia.

Para a imprensa, o mau desempenho era resultado do estrelismo dos jogadores, pouco comprometidos com a missão nacional de ganhar o tetracampeonato e uma nova superioridade técnica dos times europeus. Políticos propuseram a instalação de uma CPI para investigar a CBD, atribuindo o fracasso à má gestão. A própria Confederação acusava uma conspiração internacional europeia para impedir a vitória brasileira, enquanto a imprensa e torcedores o que havia se quebrado era a identidade da seleção, a tecnocracia da Comissão teria aniquilado a alma do escrete nacional e só é possível recuperá-la comportando-se como “brasileiros”, afirmando sua criatividade.

Nesta narrativa, apenas o brasileiro é capaz de jogar o futebol verdadeiramente: o futebol de habilidade individual, de movimentos e gestos artísticos e, ao mesmo tempo, ofensivo. Nesta construção imaginária, como detentores do segredo deste fogo, é natural – natural! – que a única seleção que possa ser sagrada campeã justamente seja a brasileira. Quando um time europeu, como a Holanda, demonstra as características de velocidade e habilidade é porque “evoluiu”. É, portanto, a exceção que comprova a regra.

Entretanto, há uma operação distinta do que ocorreu nas derrotas anteriores à conquista do tricampeonato mundial, em especial 1950 e 1954. Se o futebol-arte é uma característica “nata” ao povo brasileiro e é ela que destaca o país entre as outras nações, o fracasso nas Copas do Mundo não pode mais ser computado ao povo. Afinal, é do povo que emerge esta virtude. Se esta qualidade nata não foi (justa e) internacionalmente reconhecida com o título da Copa do Mundo, a responsabilidade não é do povo. Se foi a miscigenação ou a “malandragem” que produziram o estilo mágico de jogar do brasileiro, o seu fracasso só pode ser computado a quem não soube utilizar este dom: o técnico. Ou ainda, a má gestão dos recursos pela CBD.

O que importa destacar é que, ao contrário das Copas disputadas até 1954, o que antes era um “defeito”, torna-se agora virtude. Somente jogando como brasileiros é que a seleção pode vencer. E há outra mudança significativa de operadores: os parâmetros que definem o que é um brasileiro – neste caso, o jogador de futebol – não são estabelecidos pelo Estado ou pela intelectualidade. Mas pela população. Se a Seleção não joga de acordo com estes parâmetros, ela não representa a Nação, ela não corresponde a imagem autoconstruída. O espelho entre a Seleção e seu país é quebrado.

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Miguel Enrique Stédile

Doutor e Mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Autor de "Da Fábrica à várzea: clubes de futebol operário em Porto Alegre" (Prismas, 2015) e co-autor de "À sombra das chuteiras meridionais: uma História Social do futebol (e outras coisas...)" (Fi,2020).

Como citar

STéDILE, Miguel Enrique. 1974: nas janelas e varandas, são raras as bandeiras. Ludopédio, São Paulo, v. 150, n. 1, 2021.
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