As tardes de julho podem ser frias e escuras no Sul do Brasil, e eram assim as da minha infância, nas férias de meio de ano, quando não íamos à praia, tampouco tínhamos o alívio de que o ano letivo, com sua disciplina rígida, houvesse terminado. Acordava-se um pouco mais tarde, uniforme não se vestia, e quando o vento dava trégua e o sol comparecia, jogava-se bola. No mais, a leitura dividia a atenção com a televisão em seus dois canais de transmissão aberta. Filmes de western se combinavam com desenhos animados, cruéis programas de humor e seriados pop:  Batman, Perdidos no Espaço, Túnel do Tempo.

Mas, houve uma novidade naquele julho de 1977, e ela foi descoberta por acaso, quando, meu irmão e eu, ligamos o aparelho de TV em uma tarde qualquer: jogava-se futebol e era uma seleção brasileira em campo, mas não a principal (que se preparava para a Copa do Mundo que seria disputada no ano seguinte, na Argentina), tampouco a olímpica (que tínhamos acompanhado no ano anterior, em Montreal, e que voltara sem medalha, ficando em quarto lugar). Era uma equipe juvenil – hoje chamada de júnior ou sub-20 – e logo nos acostumamos com os novos nomes de jogadores, então pouco conhecidos, que a compunham.

A competição se realizava na Tunísia. O primeiro grande evento futebolístico mundial realizado na África foi resultado dos acordos de João Havelange com presidentes de federações africanas, garantindo sua reeleição para a presidência da FIFA, três anos antes. Como se sabe, o brasileiro foi hábil em manter-se na liderança da entidade durante muitos anos. Como igualmente se sabe, essa não foi a única habilidade pela qual o ex-atleta olímpico de polo aquático se notabilizou.

Os campeonatos mundiais sub-20 passaram, desde então, a ser realizados a cada dois anos. O de 1979 foi disputado no Japão, levando para a Ásia a primeira competição da FIFA, e o time vencedor foi o da Argentina. No ataque dos campeões despontavam um jovem promissor que se tornaria ídolo do River Plate, Ramón Diaz, e um gênio que fora preterido na equipe que disputara a Copa do Mundo jogada em seu país, Diego Maradona. A ausência na lista final para o Mundial só foi parcialmente esquecida porque os anfitriões saíram vencedores, mas são muitos os que até hoje lamentam que Diego não tenha vencido seu primeiro mundial aos dezesseis anos, algo que nem os brasileiros Pelé (como protagonista) e Ronaldo (como suplente que não entrou em campo) lograram. El Pibe ainda atuava pelo Argentinos Juniors, mas se tornaria anos depois o ídolo da antípoda do River, o Boca Juniors.

Sempre me chamou a atenção o peso enorme que as conquistas juvenis têm no país vizinho. A no Japão ocupou toda a capa do Diario Clarín no dia seguinte à partida final, e os jogadores, ecoando a euforia coletiva que o país vivera no ano anterior, motivada pela Copa de 1978, foram recebidos na Casa Rosada pelo ditador Jorge Rafael Videla. Não é incomum que os futebolistas argentinos se orgulhem de seus feitos nas competições de juniores, assim como é muito valorizado os trabalhos de treinadores que os orientaram, sendo o caso de José Pékerman o mais destacado.  Nem uma coisa nem outra recebem entre nós um valor significativo, ao contrário. Dificilmente um jogador brasileiro de sucesso menciona ter sido campeão mundial sub-20, salvo se perguntado – e não foram poucos os títulos brasileiros, cinco, um a menos que a performance dos Hermanos. Ao mesmo tempo, ser treinador da seleção sub-20 do Brasil jamais foi um cargo fortemente disputado ou mesmo reconhecido em seus méritos. Só mesmo um grande aficionado por futebol para talvez lembrar dos que dirigiram seleções brasileiras em mundiais da categoria.

Em 1977 nós esperávamos, obviamente, que o time brasileiro chegasse ao título, socializados que fomos sob a ideia de que tínhamos o melhor futebol do mundo e só por erro pontual seríamos derrotados nos torneios internacionais. Mas, na partida semifinal contra a seleção mexicana, depois do empate em 1 x 1 (os norte-americanos saíram na frente, o que nos causara apreensão, logo superada pelo gol de empate), os jovens verde-amarelos perderam de 5 x 3. Uma das cobranças foi no travessão e a última se fez desnecessária, já que México convertera todas as suas. Ainda fiquei incomodado porque ao menos poderíamos (sim, eu me sentia parte daquilo) ter perdido por 5 x 4.

O Brasil golearia os uruguaios e chegaria ao terceiro lugar, enquanto os mexicanos empatariam com os soviéticos, perdendo o título numa dramática disputa de pênaltis, terminada em 8 x 9. Sobrou-nos as recordações de jovens que nos levavam alguns anos à frente e se tornariam jogadores importantes, alguns deles, anos depois. O meia Nardela foi o maior ídolo da história do Joinville, onde atuou por mais de dez anos; Baltazar ficou conhecido como o “artilheiro de Deus” do Grêmio (campeão brasileiro de 1981) e do Atlético Madrid, pelo qual foi o máximo goleador da Liga Espanhola de 1988/1989; Juninho Fonseca liderou a defesa do Corinthians na conquista do Paulista de 1983, compondo, ademais, o elenco brasileiro na Copa de 1982. Vários outros desenvolveram suas carreiras da forma como lhes foi possível, mais ou menos exitosas, como Guina, um dos destaques do time, que depois de despontar no Vasco, atuou por várias equipes médias ou pequenas da Espanha. Não tinham empresários, tampouco a legião de bajuladores que hoje cerca alguns dos melhores jovens jogadores do país. Mas tinham, assim como meu irmão e eu, os próprios sonhos.

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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. 1977 – Primeiro mundial junior. Ludopédio, São Paulo, v. 153, n. 14, 2022.
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