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2020 – um ano para repensar o jornalismo esportivo no Brasil

Ficar em casa em decorrência da pandemia relacionada ao novo coronavírus (COVID-19) é um desafio também para repensarmos a massificação do esporte como um dos carros-chefes nos meios de comunicação.

A preocupação com os megaeventos, especialmente em torno da gestão esportiva, parece que perdeu o sentido em 2020. Falar sobre investimentos (envolvendo atletas, treinadores ou clubes) para divulgar as competições tornou-se uma pauta secundária. Afinal, precisamos refletir sobre a sobrevivência de milhares de pessoas que estão expostas à doença, ao desemprego e, consequentemente, à fome.

Por isso, o jornalismo passou a contar com a iniciativa de colaboradores e profissionais que colocaram o espaço destinado ao “esporte” no seu devido lugar. Em vez do excesso de torneios e das infinitas mesas-redondas, agora ocupamos nosso tempo com notícias e especiais sobre atividades físicas e práticas esportivas, com ênfase na saúde e na educação. Vários vídeos estão sendo postados por comunicadores, atletas e professores de educação física, com o objetivo de auxiliar a população a melhorar sua condição física e mental.

Além disso, duelos históricos, recheados de jogadas inesquecíveis, como das seleções brasileiras de futebol masculino de 1958, 1962, 1970 e 1982, bem como do Santos de Pelé, do São Paulo de Telê Santana, do escrete feminino comandado por Marta, entre outros episódios de gala dos diversos esportes, como as conquistas mundiais e olímpicas, ganharam as manchetes na mídia brasileira.

Chamada da TV Globo para as reprises de jogos históricos de futebol durante a pandemia do COVID-19 e a interrupção dos campeonatos. Foto: Reprodução/Infoesporte TV Globo.

A filosofia do futebol-arte (que sempre defendemos) revela, neste momento, a ideia de que a beleza do esporte, independentemente da modalidade, está ligada ao ser humano por meio da criatividade e do bem-estar. Assim, o conceito de olimpismo ganha espaço, ainda que timidamente, na agenda da cobertura esportiva quando as pautas equilibram esforço, bons exemplos, responsabilidade social e respeito aos princípios éticos fundamentais.

O jornalismo esportivo demorou a perceber a mudança de comportamento não só do público, mas também das fontes, especialmente os atletas e preparadores físicos. No início da pandemia, o vazio deixado pela suspensão e cancelamento de eventos esportivos em todo mundo fez os profissionais ficarem perdidos sobre o que abordar. Acostumados com a rotina incessante de treinos e jogos durante a semana, aliada à crescente espetacularização em torno dos principais personagens, os jornalistas ainda tentavam repercutir os efeitos dessa parada no dia a dia de clubes e atletas, mesmo sem um consenso sobre como a doença avançava e o seu verdadeiro impacto no mundo esportivo.

Dois fatos foram fundamentais para promover essa inflexão na cobertura. O primeiro deles ocorreu em 24 de março, quando o Comitê Olímpico Internacional (COI) e o governo japonês anunciaram o adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio de 2020 para 2021. Tal medida provocou uma reação em cadeia na prática jornalística. Era preciso entender não só as causas que levaram a uma atitude extrema e histórica (apenas a Primeira e a Segunda Guerra Mundial impediram a realização dos Jogos Olímpicos em suas datas normais), mas também ampliar o debate. Questionamentos importantes começaram a ser feitos nos meios de comunicação: como fica o calendário esportivo nos próximos anos? Qual o impacto desta mudança na saúde e na preparação dos atletas? Quais medidas um evento esportivo precisa adotar para não propagar uma doença altamente contagiosa?

Novas datas anunciadas para os Jogos Olímpicos Tóquio 2020. Foto: Divulgação/COI.

O segundo foi operacional. Com a baixa demanda na editoria de Esportes, muitos jornalistas foram deslocados a outras áreas para auxiliar na cobertura da pandemia. Com os pés nas ruas, puderam ampliar suas visões e descobrir um novo mundo de pautas que também impactam a rotina esportiva. Discussões como vida saudável, equilíbrio entre corpo e mente e até mesmo mobilidade urbana estão diretamente relacionadas à forma como o esporte é estruturado e compreendido pelos meios de comunicação. Uma experiência que, no fim, foi benéfica para todos.

Pautas e formatos que antes eram ignorados entraram na agenda dos periódicos esportivos. Com apoio de atletas e das redes sociais digitais, emissoras de televisão compartilhavam dicas de treinamentos para aliviar o estresse provocado pelo isolamento social. Perfis, entrevistas e longas reportagens voltaram a figurar nos principais portais jornalísticos do país, retratando histórias que provavelmente seriam ignoradas em uma rotina comum e modalidades que, anteriormente, não encontravam espaço no dia a dia.

O retorno das competições esportivas (mesmo com o crescente aumento no número de infectados e de mortos pela COVID-19) é um desafio e tanto a esta nova realidade do jornalismo esportivo nacional. É possível voltar à “vida normal” de treinos e jogos, com as mesmas pautas surradas em torno do resultado e da vida privada dos atletas? Esse período não foi suficiente para compreender que o esporte ultrapassa as dimensões do campo de jogo e possui valores universais, passando pelo pedagógico, o social, o cultural, o ambiental, entre tantos outros fundamentos que norteiam e orientam os cidadãos?

Resta, agora, saber qual é o caminho que o jornalismo esportivo pretende seguir daqui para frente: o retorno à cobertura treino-jogo-resultado ou a ampliação da pauta, envolvendo todos os aspectos inerentes a este fenômeno? Pela primeira vez em muito tempo, os profissionais de comunicação têm, obrigatoriamente, a oportunidade de repensarem o papel que exercem na estrutura esportiva. Com uma pandemia que modificou o nosso cotidiano, está evidente que a visão do esporte não pode mais ficar restrita aos eventos transmitidos. Da sensação de vitória quando um objetivo pessoal ou profissional é alcançado à torcida por dias melhores no futuro, o conceito de esporte está presente na maioria dos acontecimentos diários e, por isso, os periódicos especializados necessitam de outras linhas editoriais.


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Gustavo de Araujo Longo

Jornalista formado pela UNESP/Bauru em 2010, atualmente é mestrando no Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação na ECA/USP. Sua pesquisa aborda o jornalismo esportivo e os Jogos Abertos do Interior, evento realizado anualmente no estado de São Paulo. Possui dez anos de experiência no jornalismo esportivo, incluindo passagem como repórter no Jornal Bom Dia, em Bauru, e assessor de comunicação da Confederação Brasileira de Desportos no Gelo (CBDG). Foi comentarista dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014 pela Rede Record News e cobriu in loco os Jogos Olímpicos de Inverno de 2018 em PyeongChang, na Coreia do Sul, como repórter freelancer da Folha de S. Paulo.

Luciano Victor Barros Maluly

Graduado em Comunicaçao social - Habilitação em Jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina (1995), Mestrado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (1998), Doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (2002), Pós-doutorado na Universidade do Minho em Portugal (2011) e Livre Docente pela ECA-USP (2016). Atua como professor e pesquisador na Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em radiojornalismo e jornalismo esportivo. È autor do livro JORNALISMO ESPORTIVO - PRINCÍPIOS E TÉCNICAS (Editora do Autor, 2017)

Como citar

LONGO, Gustavo de Araujo; MALULY, Luciano Victor Barros. 2020 – um ano para repensar o jornalismo esportivo no Brasil. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 62, 2020.
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