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2020: o ano em que o esporte foi além do Campo de Jogo

Ninguém passou ileso às dificuldades de 2020. No esporte não faltaram exemplos de como clubes, atletas e federações das mais diversas modalidades precisaram se reinventar para atravessar o desafio desconhecido de uma pandemia.

As notícias sobre um vírus desconhecido que causava um surto numa metrópole chinesa já não eram novidade em março. No terceiro mês do ano, o mundo ocidental percebeu que a epidemia havia rompido as fronteiras de Wuhan, quando a OMS classificou a onde de contágio do novo coronavírus como pandemia. 

Neste contexto, as competições esportivas no Brasil e no mundo seguiam seus calendários habituais. Até que em março, a bola parou. Campeonatos estaduais, regionais, a Copa do Brasil, Libertadores, Champions League e todas as disputas esportivas do planeta foram interrompidas sem qualquer previsão de retomada. 

Neste primeiro dia de 2021 vamos relembrar fatos marcantes no esporte durante o ano difícil de 2020 que exigiu muita força para superar seus desafios inéditos.

futebol durante a pandemia
Futebol na pandemia. Fonte: Pixabay

Brasil

No Brasil, as diversas confederações existentes decretaram a paralisação dos esportes em março e, desde então, nota-se o impacto da pandemia dentro daquele meio. O caos se alastrou rapidamente e o Brasil suspendeu as disputas na semana do dia 17 de março.

Clubes se viram mergulhados em crises financeiras, e até mesmo as equipes da elite sofreram no aspecto econômico. Em junho, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) lançou uma cartilha com orientações para que o esporte voltasse à ativa no país, desde então, a bola rola nos gramados brasileiros, ainda sem torcida.

No dia 18 de junho, quando o país contabilizava 45 mil mortos em razão da pandemia e uma onda ascendente de contágio, Flamengo e Bangu foram a campo pelo Campeonato Carioca. O resultado esportivo pouco importou, o que ficou daquela noite foi a absurda cena de uma partida de futebol acontecendo ao lado de um hospital de campanha.

Rio de Janeiro RJ 15 04 2020-Hospital de campanha para atendimento de pacientes com Covid-19. Foto: Goverj.

Logo os estaduais de todo o país foram retomados. No dia 7 de setembro, ABC e América decidiram o Campeonato Potiguar 2020 e jogaram uma final sem público pela primeira vez em mais de 100 anos de confrontos.

De modo geral, as principais consequências da pandemia no futebol brasileiro foram: adiamento de eventos esportivos; suspensão de treinos e atividades nos clubes; atletas parados; crise financeira; partidas sem torcida; demissões de atletas e membros da comissão técnica.

Outra consequência da paralisação foi o calendário esticado. No mundo todo competições foram remarcadas, no Brasil, o campeonato nacional que normalmente termina em novembro, vai ser disputado até fevereiro de 2021.

Mundo

Na Europa, a data limite da normalidade foi o início de março, quando as principais ligas de futebol, em países como Alemanha, França, Espanha, Itália e o Reino Unido, suspenderam as disputas sem previsão de retorno. Na França e na Bélgica, respectivamente, PSG e Club Brugge foram declarados campeões nacionais mesmo sem o fim do campeonato.

Após dois meses sem nenhuma competição esportiva, os primeiros passos para a retomada foram dados na Alemanha. Em 19 de maio, o Campeonato Alemão de futebol foi reiniciado. O novo normal, a expressão que se popularizou para definir esse período tal anormal, passou a ser de jogos e competições com estádios e ginásios vazios.

Os primeiros campeões do “novo normal” na Europa, forma conhecidos na última sexta-feira de maio, que marcou o retorno do futebol na Sérvia e na Áustria. Depois de quase três meses de paralisação em razão da pandemia do novo coronavírus, a retomada aconteceu com presente para os torcedores de Estrela Vermelha e Red Bull Salzburg, respectivamente campeões do Campeonato Sérvio e da Copa da Áustria.

Adiamentos 

Para selar o momento mais sombrio da pandemia, o Comitê Olímpico Internacional anunciou em 24 de março a suspensão dos Jogos Olímpicos de Tóquio. O impasse para o adiamento foi mantido até o último momento pelo COI, que considerou a realização dos jogos na data prevista incialmente, isto é, 24 de julho desse ano, ainda que a pandemia persistisse. 

O primeiro ministro japonês Shinzo Abe fez questão de prometer a realização dos jogos no verão de 2021, mas essa data ainda é incerta. Ainda assim, o nome da competição carregará o ‘2020’, independentemente do ano.

A Eurocopa foi adiada para o próximo ano e também manterá o ‘2020’ no nome. A competição tinha como slogan a frase “Construindo pontes”, que em meio à pandemia se tornou algo como um alento, já que diante do isolamento social, mais do que nunca, as pessoas precisaram se unir umas às outras. No verão de 2021, 24 equipes se reunirão para dar início à Euro, que tem data para 11 de junho.

Outros esportes

A Federação Internacional de Automobilismo (FIA) paralisou a Fórmula 1 em março. De lá até a retomada das atividades, em julho, mais de 95% da receita da competição foi afetada. A competição precisou adaptar seu calendário e, a fim de que pudesse ser finalizada antes do reveillon, realizou mais de uma prova na mesma pista e retirou outras da temporada. Para 2021, a FIA determinou que, devido à pandemia, as equipes usarão os mesmos carros, mas com poucas alterações.

Na Liga de Basquete Norte-Americana, o mundo viu uma espécie de “bolha”, quando os jogos voltaram a acontecer. Paralisada também desde março, a NBA organizou um isolamento especial para os jogadores, que ficaram confinados no completo da Disney, em Orlando, e foram constantemente testados. O retorno da competição foi feito com várias partidas seguidas e o Los Angeles Lakers sagrou-se campeão.

A questão racial em evidência

2020 também foi o ano em que o esporte se voltou contra o racismo. As agressões raciais aconteceram aos montes, mas nunca foram tão denunciadas e repudiadas. Não houve silêncio. Com os joelhos no chão e erguendo os punhos cerrados, atletas de todas as modalidades protestaram contra o preconceito.

O boicote a NBA, em razão da morte de Jacob Blake, jovem negro assassinado pela polícia do estado de Wisconsin, nos Estados Unidos; o abandono de campo dos atletas de PSG e Istambul Başakşehir FK, depois da ofensa do quarto árbitro ao assistente técnico do time turco, e o engajamento antirracista de Lewis Hamilton durante toda a temporada em que sagrou-se heptacampeão de Fórmula 1, são os melhores exemplos de como o esporte foi além de seus limites esportivos em 2020.

As despedidas 

O mundo do esporte também perdeu ídolos em 2020. Em 26 de janeiro, Kobe Bryant, lendário jogador de basquete, morreu em um trágico acidente de helicóptero que também vitimou sua filha Gianna, de apenas 13 anos que estava iniciando sua carreira. 

Entre julho e agosto, o futebol inglês perdeu duas figuras emblemáticas. Jack Charlton, ídolo do Leeds United e irmão mais velho de Bobby Charlton, morreu aos 85 anos, em 11 de julho. No início de agosto, Ray Clemence, goleiro do Liverpool entre os anos 1970 e 1980 e da seleção da Inglaterra, morreu vítima de câncer.

Já em 25 de novembro, o mundo se despediu de Diego Maradona, que morreu aos 60 anos após complicações de uma cirurgia cerebral. A morte de Maradona foi um abalo, pois apesar de públicos os muitos problemas de saúde do craque, a notícia pegou o mundo de surpresa e, principalmente na Argentina, onde Don Diego representa um fenômeno cultural, sua despedida foi amplificada.

O que fica de 2020?

A normalidade ainda não retornou ao esporte. Além dos estádios vazios, o cancelamento de algumas competições dá a dimensão de que ainda há um longo caminho até o antigo normal. A corrida de São Silvestre, tradicionalmente disputada no último dia do ano e que reúne milhares de competidores, não acontecerá pela primeira vez em 95 anos.

Sem dúvidas, 2020 foi um ano difícil para o esporte, mas também de reinvenção. Sem a aglomeração da torcida, os estádios e as arquibancadas ficaram tristes. Foi e ainda está sendo difícil para todos, é evidente. Que em 2021, o grito de gol seja pelas vacinas e volte a ser sinônimo de comemoração.

No ano em que competições foram interrompidas no mundo inteiro e estádios vazios passaram a ser materialização do “novo normal”, mais do que nunca, o esporte apresentou suas dimensões sociais para além do Campo de Jogo.


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Lúcia Oliveira

Amante da comunicação, da escrita, da fotografia, do futebol, da literatura, do jornalismo, entre outras coisas. Escrevo para eternizar e vivo para escrever.

Pedro Henrique Brandão

Comentarista e repórter do Universidade do Esporte. Desde sempre apaixonado por esportes. Gosto da forma como o futebol se conecta com a sociedade de diversas maneiras e como ele é uma expressão popular, uma metáfora da vida. Não sou especialista em nada, mas escrevo daquilo que é especial pra mim.

Como citar

OLIVEIRA, Lúcia; BRANDãO, Pedro Henrique. 2020: o ano em que o esporte foi além do Campo de Jogo. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 2, 2021.
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