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30 anos depois: os relatos das pioneiras no primeiro mundial da FIFA

Juliana Cabral, Silvana Vilodre Goellner 15 de novembro de 2021

30 anos da nossa seleção na I Copa do Mundo de Futebol Feminino

O dia 16 de novembro de 1991 é muito importante para a história do futebol. Iniciou, na China, a I Copa do Mundo de Futebol Feminino da FIFA, evento que para os homens acontecia desde 1930. O futebol de mulheres, apesar de já existir em diferentes países sob diferentes formas de regulamentação, ainda não era reconhecido pela entidade máxima do futebol. Foi apenas em 1988 que a FIFA organizou seu primeiro campeonato, o Torneio Experimental da China, uma espécie de teste para perspectivar o futuro do futebol de mulheres.

Foto cedida pelo Grupo de Estudos Mulheres do Futebol
Foto cedida pelo Grupo de Estudos Mulheres do Futebol

 

 

 

 

 

 

 

 

A escolha da China como país sede da competição se deu por dois motivos: a experiência da Confederação Asiática de Futebol Feminino que em 1975 já havia organizado um campeonato e a atuação de um magnata, Dr. Henry Fok, membro do Comitê Executivo da FIFA que convenceu a Confederação Asiática de Futebol e a Associação Chinesa de Futebol a apoiar a sua realização. Muita coisa estava em jogo neste momento: se esse Torneio fosse um desastre o futebol de mulheres permaneceria na condição que estava, ou seja, nas zonas de sombra.

Foto cedida pelo Grupo de Estudos Mulheres do Futebol

Se desse certo, a FIFA, então presidida por João Havelange, voltaria os olhos para essa demanda criando algumas condições para que se estruturasse. É nesse contexto que surge a I Copa do Mundo, competição na qual nossa seleção esteve presente conquistando uma honrosa terceira colocação. O Brasil partilhou o pódio juntamente com a campeã Noruega e com a Suécia, a segunda colocada.

Decorridos 30 anos da realização da I Copa do Mundo, o Grupo de Estudos Mulheres do Futebol (GEMF), juntamente com o Ludopédio, presta uma homenagem à seleção canarinho com o objetivo de visibilizar aquelas que protagonizaram esse espetáculo: as pioneiras. Para tanto, ao longo do mês exibiremos pequenos vídeos nos quais elas rememoram o evento, narram histórias, curiosidades, fatos que ficaram marcados em suas lembranças.

Você sabe quem são essas jogadoras?

Pois é, por muitos anos suas vozes e histórias foram silenciadas, viveram no anonimato apesar de serem fundamentais no desenvolvimento da modalidade em nosso país. Essas pioneiras e outras da sua geração e das gerações que as antecederam abriram as portas para que muitas mulheres pudessem sonhar e viver o futebol dentro e fora dos campos.

Foto cedida pelo Grupo de Estudos Mulheres do Futebol

É com elas que queremos celebrar a efeméride “30 Anos da nossa seleção na I Copa do Mundo de Futebol Feminino”. Ao divulgarmos algumas de suas memórias estamos possibilitando que você as conheça e, assim como nós, reconheça suas histórias, conquistas e lutas. Nesse Mundial dezoito jogadoras vestiram a amarelinha: Adriana Alvim Viola Burke (Adriana Viola), Cenira Prado, Delma Gonçalves (Pretinha), Doralice Santos (Dai), Elane dos Santos Rego, Lunalva Torres de Almeida (Nalvinha), Marcia Honório da Silva, Márcia Tafarel, Maria Lucia Lima (Fia Carioca), Margarete Maria Pioresan (Meg), Marilza Silva (Pelezinha), Marisa Nogueira (Capitã), Mirian Soares, Rosa Lima, Rosilane Camargo Motta (Fanta), SolangeBastos (Soró), Rosângela dos Santos Rocha (Danda) e Roseli de Belo.

Além do Brasil, onze países participaram dessa edição inaugural da Copa do Mundo: Alemanha, China, Dinamarca, EUA, Japão, Itália, Nigéria, Noruega, Nova Zelândia, Suécia e Taipé Chinês. A final aconteceu no dia 30 de novembro entre os EUA e a Noruega com as americanas se tornando as primeiras campeãs mundiais. A Suécia foi a terceira colocada tendo como a capitã da equipe, Pia Sundhage, a atual técnica da seleção brasileira. Pia marcou 4 gols na competição, sendo um deles contra o Brasil.

Como foi a atuação das pioneiras brasileiras?

Sob o comando do técnico Fernando Pires, nossa seleção não passou da fase de grupos. Disputou três jogos, o primeiro deles no dia 17 contra o Japão, onde conquistou sua primeira e única vitória. Com o placar de 1 x 0, Elane tornou-se a primeira brasileira a marcar gols em um campeonato oficial da FIFA, aliás, o único que nossa equipe fez neste Mundial. No dia 19 enfrentamos a forte seleção americana que venceu o jogo por 5 x 0; dois dias depois perdemos para a Suécia pelo placar de 2 x 0 e assim nos despedimos da competição.

O pioneirismo que aqui queremos reverenciar não se restringe apenas às jogadoras. Neste Mundial, Cláudia de Vasconcelos Guedes fez história ao se tornar a primeira mulher a arbitrar uma partida de Copa do Mundo, mais especificamente, a disputa da terceira colocação que se deu entre as seleções da Suécia e da Alemanha.

Cláudia também atuou como assistente em três partidas: no jogo de estreia disputado pela China e Noruega e ainda na fase de grupos na partida entre China e Dinamarca. Nas quartas de final, bandeirou o jogo entre Suécia e Alemanha.

Enfim, a I Copa do Mundo de Futebol Feminino da FIFA aconteceu entre 16 e 30 de novembro. Ao longo deste período foram realizados 26 jogos, somando 99 gols marcados, aproximadamente 3,8 por partida. Foram aplicados 32 cartões amarelos e somente 1 vermelho. O público que presenciou o evento foi extremamente satisfatório. Segundo os dados da FIFA, totalizou 510.000 pessoas, o que representa uma média de 19.615 por jogo. O número de pessoas que compareceu aos estádios revela o interesse pelo futebol de mulheres conforme podemos observar nos dados oficiais dos cinco jogos com maior adesão de público.

Os 5 melhores públicos no Mundial:

China 4 x 0 Noruega – 65.000 pessoas. Estréia da China (Tianhe Stadium, Guangzhou)

Noruega 1 x 2 EUA – 63.000 pessoas. Jogo Final (Tianhe Stadium, Guangzhou)

China 0 x 1 Suécia – 55.000 pessoas. Quartas de final (Tianhe Stadium, Guangzhou)

China 2 x 2 Dinamarca – 27.000 pessoas. Fase de grupos (Guangdong Provincial People’s Stadium, Guangzhou)

Suécia 3 x 0 Alemanha – 20.000 pessoas. Disputa de 3˚ e 4˚ lugar (Guangdong Provincial People’s Stadium, Guangzhou)

Muitos outros dados poderíamos trazer sobre essa competição. Mas nosso foco recai sobre elas, as pioneiras. Ao longo desse mês acompanhe as suas narrativas nas redes sociais do GEMF e do Ludopédio. Publicaremos nos perfis do Ludo e do GEMF no Instagram depoimentos das personagens dessa história que acaba de completar três décadas.

 
 
 
 
 
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Pra fechar essa série de regaste de registros históricos, memórias silenciadas e justas homenagens, o programa Por Outro Futebol de Mulheres terá a participação de jogadoras que estiveram na China e representaram nosso país na edição inaugural da Copa do Mundo de Futebol Feminino. A live acontecerá no dia 29 de novembro às 20 horas no Canal do Ludopédio no Youtube – com transmissão simultânea no novo canal do Ludo na Twitch!

Pensa que acabou? Nada disso. Esse post será atualizado diariamente com os depoimentos das pioneiras do mundial de 1991. Conheça histórias do primeiro mundial de futebol feminino contadas pelas próprias jogadoras!

Elane Rego dos Santos

Rio de Janeiro (RJ), 04/06/1968 – Começou a jogar futebol na rua com os vizinhos e familiares. Com 15 anos, foi para o Bonsucesso, dali seguiu para a Portuguesa e por volta de 1986 foi para o E.C. Radar compondo a base da seleção de 1988. Jogou no Santos, Corinthians e São Paulo, encerrando sua carreira em 2001 pelo Barra de Teresópolis (RJ). Foi a brasileira que fez o primeiro gol em um mundial, no jogo de estreia do Brasil, contra o Japão, na I Copa do Mundo de Futebol Feminino da FIFA (China, 1991). A última convocação de Elane foi para o período preparatório para os Jogos Olímpicos de Sidney, em 2000, do qual não participou. Pela seleção disputou ainda o Campeonato Mundial da Suécia (1995) e dos Estados Unidos (1999), no qual foi capitã. Elane foi tricampeã sul-americana em Maringá (1991), Uberlândia (1995) e Mar Del Plata (1998). Após encerrar sua carreira em 2001, Elane tornou-se motorista de ônibus na cidade do Rio de Janeiro.

 
 
 
 
 
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Márcia Taffarel

Bento Gonçalves (RS), 5/03/1968 – Incentivada pela mãe iniciou aos 13 anos no Bento Atlético Futebol que se transformou no Clube Esportivo Bento Gonçalves. Em 1987 deixou o Rio Grande do Sul para atuar em clubes como SAAD, Euroexport, Unasa do Maranhão, Corinthians, São Paulo, Palmeiras e no futsal pelo Maxion, Marvel, Associação Sabesp e Euroexport. Participou do Campeonato Sulamericano em Maringá (1991) e Uberlândia (1995), da Copa do Mundo da China (1991) e da Suécia (1995) e dos Jogos Olímpicos de Atlanta (1996), sua última convocação com a camisa da seleção brasileira. Desde de 2004 reside na Califórnia (Estados Unidos) e parou de jogar em 2008, quando atuou pelo Califórnia Storm. Atualmente trabalha como treinadora das categorias sub-15 e sub-16 do Walnut Creek Surf Soccer Club. Destaques seleção: 4˚ Lugar Jogos Olímpicos de Atlanta 1996, Bi Campeã Sulamericana em 1991 e 1995.

 

 
 
 
 
 
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Solange Bastos

Feira de Santana, 28/03/1969 – Iniciou na rua com os meninos e aos 12 anos integrou a equipe do Flamengo de Feira de Santana. Ao longo da carreira atuou entre outros clubes pelo Santos, Corinthians, Palmeiras, Internacional, Francana onde encerrou a carreira em 2012. Disputou o Campeonato Sulamericano de Maringá (1991), a Copa do Mundo da China (1991) e da Suécia (1996) , ambos em 1991.

 
 
 
 
 
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Juliana Cabral

Ex capitã da seleção brasileira de futebol, medalhista olímpica em Atenas 2004, graduada em Ed. Física e pós graduada em Treinamento Esportivo. Comentarista de futebol com passagem por: ESPN, Rádio Globo e Redetv. Professora no Colégio Franciscano Pio XII e integrante do Grupo de Estudos Mulheres do Futebol (GEMF).

Silvana Goellner

Professora Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Aposentada).  Ex-coordenadora do Centro de Memória do Esporte (CEME) e  Vice-Coordenadora do Grupo de Estudos sobre Esporte Cultura e História (GRECCO). Pesquisadora e ativista do Futebol de Mulheres. Integrante do Grupo de Estudos Mulheres do Futebol (GEMF).

Como citar

CABRAL, Juliana; GOELLNER, Silvana Vilodre. 30 anos depois: os relatos das pioneiras no primeiro mundial da FIFA. Ludopédio, São Paulo, v. 149, n. 18, 2021.
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