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30 de outubro: 60 anos de Diego Armando Maradona

Fabio Perina 30 de outubro de 2020
Gardel, Evita e Maradona em La Boca. Foto: Wikipédia

“En una villa nasció, fue deseo de Dios crecer y sobrevivir…”

Nesse dia 30 de outubro (por coincidência em que finalmente o torneio argentino retorna da pandemia) o maior dos craques argentinos faz 60 anos. O maior do mundo para muitos e para o azar dos fatos! O que ainda assim é pouco diante de ter sido consagrado por esse povo como seu Deus. Não se enganem que seja somente mais um aniversário que o ídolo atinja a terceira idade, pois sua simples sobrevivência é seu habito de rebeldia mais recente para quem esteve à beira da morte diante de tantas coisas inclusive das drogas. Assim como a vida é dura para quem teve que usar a mesma habilidade nas “gambetas” contra os primeiros adversários para lutar para comer. Mesmo com um físico pouco atlético foi onde se semeou um talento fora do normal a cada “gambeta” para compensá-lo. “En un potrero forjó una zurda inmortal”. É fato de amplo domínio público que Maradona veio da Villa Fiorito, mas desde que dela saiu nem ninguém nem ele próprio sabe precisar em qual outra paragem que se fixou. Para sorte do futebol, permitindo que tantos de nós de tantos lugares a ele nos apegassemos.

Depois foi revelado nas categorias de base do Argentinos Jrs., tendo uma ascensão meteórica. Vide prestes a completar 18 anos, às vésperas da Copa de 78, houve pressão popular para ser convocado pelo treinador Menotti, o que não se consumou. “Soñaba jugar um Mundial y consagrarse en Primera, talves jugando pudiera a su familia ayudar”. Logo no ano seguinte a conquista do mundial sub-20 no Japão foi um claro recado de sua liderança natual e que queria seu lugar na albiceleste. Assim como a vitória excepcional em 80 do Argentinos na Bombonera por 5 a 3, com 4 gols dele sobre o lendário goleiro Gatti. Quem o provocara de gordito antes da partida. Mostrando que o bairro La Paternal já estava pequeno para ele jogar. A passagem curta pelo Boca teve como único titulo o Metropolitano de 81, mas o suficiente para imortalizar uma idolatria pelo resto da vida.

“A poco que debutó “Maradó, Maradó”, la 12 fue quien coreó “Maradó, Maradó””.

A seguir o ano de 82 foi muito intenso com a crise econômica forçando sua venda para o Barcelona e com os generais ‘forçando’ uma guerra contra a Inglaterra diante de um desespero de recuperar o prestígio da ditadura. O conflito desatou às vésperas da estreia do plantel de Menotti na Espanha para defender seu título mundial de 78. Impactados, não desenvolveram seu melhor futebol que se esperava, inclusive Maradona foi expulso por agredir o brasileiro Batista, e tiveram que esperar por uma revanche contra os ingleses, daquelas que só o futebol permite quando na vida é negada.

Na Copa de 86 no México a equipe do treinador Bilardo havia empatado com Itália e vencido Coréia do Sul, Bulgária e nas oitavas o Uruguai. Em nenhuma partida com gol de Maradona até aqui. O desafio supremo que os aguardava era nas quartas contra a Inglaterra de Lineker. Uma partida com muito mais expectativa antes e depois do que a semifinal com a Bélgica e a final com a Alemanha quando finalmente ‘tocó el cielo’. No histórico 22 de junho, o Estádio Azteca ficou assombrado em menos de 5 minutos, primeiro com o gol “la mano de dios” e depois com o “gol del siglo”. Gols que dispensam descrição pelas inúmeras vezes que foram vistos pelos amantes do futebol de todo o planeta. Gols que impressionam mais pelo contraste em tão poucos minutos e pelo contexto expresso de alguns anos antes. Se alguma vez alguém afirmou que o futebol é a guerra sem tiros, nunca uma partida de alto nível aos olhos do mundo todo teve uma metáfora tão real como nessa contenda.

“Llenó alegría en el pueblo, regó de gloria este suelo…”.

Foto: Wikipédia

Uma nota cultural e sociológica: se o auge do futebol brasileiro na virada dos anos 50/60 coincidiu com seu maior desenvolvimento econômico e cultural, já para o futebol argentino seu auge na virada dos anos 70/80 foi tardio em relação à morte de Perón e coincide ao momento de destruição dos laços sociais—primeiro pela ditadura dos militares e depois pela ditadura do mercado. Talvez por isso eles tenham uma representação de futebol mais dramática do que a nossa, por sua vez mais lírica. Assim, não chega a surpreender que a descrença na política buscou ser compensada por uma hiper-crença no futebol e a santificação de seu maior ídolo. A própria compensação também presente naquele estágio da indústria do futebol mundial nos anos 80 em que alguns assédios para inserir novos produtos comerciais eram respondidos pelos torcedores com mais fanatismo. Aliás, arrisco uma reflexão pessoal que cada torcedor alcança alguma maturidade ao olhar futebol quando reconhece que não é porque Maradona tenha bem menos títulos e gols que Pelé que isso sentencie que o argentino não pode ser melhor à sua maneira.

O ciclo entre a Copa de 86 e 90 manteve Maradona no topo do mundo, justamente na década de maior badalação do calcio, com o Napoli ganhando seus primeiros títulos: os scudettos de 87 e 90 e a Copa Uefa de 88. A Copa de 90, que seria justamente em solo italiano, começou com grande desconfiança para os atuais campeões mundiais comandados por Bilardo diante da surpreendente derrota na estreia para Camarões de Roger Milla. Logo depois a albiceleste teve que superar algumas duras equipes do Leste europeu em seu auge (União Soviética e Romênia na fase de grupos e Iugoslávia nos pênaltis nas quartas). E claro o rival de toda a vida nas oitavas de final, o Brasil, até aquele momento invicto nesse clássico na historia das copas. Uma partida que foi muito além do folclore da água que entorpeceu o lateral Branco, mas sobretudo com uma Argentina tendo que superar as bolas na trave do Brasil a encurralando e a deixando desorientada. Na espera do famoso milagre de “jogar por uma bola”. Mas próximo do fim mesmo sumido até aquele momento Maradona teve o lampejo de gênio com muita técnica e garra juntas para dar um passe milimétrico deixando Caniggia livre para driblar Taffarel e fazer o gol da vitória.

Se em 86 o fator extracampo da guerra pesou tanto, em 90 a seleção argentina teve que se superar em questões de campo ao enfrentar placares mais acirrados além de lesões e suspensões. Na semifinal contra a Itália, a torcida napolitana se viu no impasse de torcer para o próprio país ou para o ídolo do clube e assim optou pelo segundo! Pode-se dizer que sua segunda ‘pátria’ não o abandonou. Mais uma vez o goleiro Goycochea garantiu a classificação para a Argentina nos pênaltis. Na final contra a Alemanha em Roma foi a vez da ressentida torcida local vaiar o hino argentino por conta da eliminação anterior, o que prontamente Maradona respondeu também os insultando. (Obs: o que os anti-maradonianos o criticam até hoje por insultar o hino argentino porém desconsideram que insultava as vaias dos italianos. Enfim, “que la cuenten como quieran…”)

Depois da Copa de 90 que a Argentina esteve tão perto de vencer foi a hora de Maradona mudar de ares e acompanhar o treinador Bilardo para o Sevilla. Desde então Maradona nunca foi tão Maradona ao oscilar entre o gênio em campo e o rebelde fora dele. E segue dando provas que a coerência e a tranquilidade muitas vezes nos “aburre”. Em 91 houve a sua primeira suspensão por cocaína. Fato que se repetiu durante a fase de grupos da Copa de 94. Quando Maradona imortalizou a frase maradoniana “me cortaron las piernas”, pois nada o convence que essa não foi uma manobra da FIFA e Havelange para impedir o titulo de sua seleção que, obviamente baqueada por esse corte, foi eliminada para a Romênia.

“Carga una cruz en los hombros por ser el mejor, por no venderse jamás al poder enfrentó”.

Durante a suspensão de cerca de um ano houve duas tentativas de Maradona de se ocupar como treinador: com o modesto Mandiyú de Corrientes e com o tradicional Racing de Avellaneda (já com duas décadas de fila sem títulos!) Terminada a suspensão era o momento de recomeçar indo ao encontro de seu amor pelo Boca após mais de uma década. Mas no âmbito local não foi possível fazer frente aos maiores vencedores da metade da década de 90: o Velez de Chilavert e o River de Francescoli. Era um Boca no final dos 90 antes da era Bianchi de grande plantel mas muito desunido para formar um grande time. Para dar uma última alegria ao Boca, realizou na Bombonera sua festa de despedida no final de 2001 com um discurso inesquecível que imortalizou sua frase mais maradoniana: “la pelota no se mancha”.

Com o fim de sua carreira profissional como jogador, sua vida cigana e errante continuou com diversas facetas. Apresentar o programa de televisão “la noche del diez”, inclusive com a ironia de convidar Pelé e fazerem “jueguitos” (embaixadinhas) no palco, justamente na época que mais o criticava publicamente a distância. Viagens a Cuba para tratamento médico e visitas aos amigos Fidel Castro e Hugo Chavez. (Sobre posicionamento político, uma menção que nos últimos dias Maradona se declarou que sempre foi peronista. O que na atual polarização política significa ser contra Macri e a favor do governo Alberto-Cristina) Até que em 2009 foi chamou para assumir a péssima campanha da Argentina nas eliminatórias. Logo depois de assumir teve derrotas históricas como para a Bolivia em La Paz por um humilhante 6 a 1 e para o Brasil em Rosário por 3 a 1. A classificação para a Copa de 2010 na África do Sul veio na conta certa, com vitorias apertadas sobre o Peru por 2 a 1 em uma tempestade no Monumental de Nuñez e sobre o Uruguai por 1 a 0 em Montevidéu. Se com o gol e o fim da partida não bastaram em extra-vazar as comemorações, o desabafo foi completo na coletivo de imprensa logo depois ao imortalizar a frase maradoniana para “la contra” de jornalistas que o queriam ver derrotado: “que la sigan chupando…”.

Em uma época atual de uma alternância monótona entre Messi e Cristiano Ronaldo pelo prêmio de melhores do mundo, Maradona parece ser um fóssil perdido de um entorno futebolístico sem o atual marketing artificial que esteriliza polêmicas. Após mau desempenho na Copa de 2010 essa frase seguiu ecoando na Copa de 2018. Quando seu jeito espontâneo novamente incomodou tanto os meios de comunicação ‘padrão FIFA’ e sua opinião pública elitista que tanto se incomoda com a alegria popular. Pois Maradona deu um show à parte nos camarotes ao romper qualquer decoro na comemoração do gol agônico do lateral Rojo que deu a classificação na fase de grupos nos minutos finais contra a Nigéria. Se alguém ainda tinha dúvida, ficou imortalizado Maradona como o mais torcedor dentro todos os outros craques mundiais quando vão a camarotes não apenas assistir mas também viver uma partida.

O treinador Maradona na final da GCC Champions League 2012. Foto: Wikipédia

Uma nota de auto-conhecimento: a vida cigana com o pé na estrada teve ainda duas breves aventuras como treinador: no mundo árabe e no modesto Dorados do México. Alguns desavisados diriam que parece precisar ir cada vez mais longe para se encontrar. Ou ao menos para ter uma estimativa do tanto que o povo argentino (e latino-americano) sente sua falta. Porém mais provável que esse “se encontrar”, se é que isso realmente existe, seria tão monótono que ele logo inventaria uma nova loucura. Maradona declarou recentemente estar a muitos anos limpo das drogas, o que soa no mínimo como uma imensa ironia ter ido treinar justamente na terra do poderoso cartel de Sinaloa.

“La fama le presentó una blanca mujer de misterioso sabor y prohibido placer, que lo hizo adicto al deseo de usarla otra vez involucrando su vida. Y es un partido que un día el Diego está por ganar…”

Por fim, ao menos algumas linhas têm que se dedicar para os meses mais recentes tão intensos como sempre. Na metade de 2019 começava a Superliga argentina e o tradicional Gimnasia y Esgrima de La Plata vinha de várias derrotas. Eis que surpreendeu a todos com uma aposta de risco: repatriar o pouco experiente Maradona para ser o treinador da salvação. A ação teve um impacto imediato em vários sentidos: no econômico, o evidente interesse da cobertura dos meios de comunicação e patrocínios se multiplicaram; no institucional, o clube multiplicou também o numero de novos sócios; e finalmente no esportivo, se consumou a recuperação de somar os vários pontos que havia perdido no início e operar o milagre de se salvar do rebaixamento. A “hinchada tripera” rapidamente aprendeu a reverenciar Maradona no Estadio del Bosque, mesmo com os desgostos de derrotas ali para River Plate e o rival de toda a vida: Estudiantes. O que surpreendeu foram as seguidas vitórias fora, com a maioria delas com inesquecíveis homenagens preparadas tanto por “hinchadas” como clubes adversários: Godoy Cruz em Mendoza, Belgrano em Córdoba, Newell’s em Rosário e Independiente em Avellaneda.

Esses dois últimos com significados a mais. Pois Maradona foi jogador do Newell’s mesmo por poucos meses. Quando inclusive em fatídico amistoso contra o Vasco no inicio de 94 se encontrou com o menino Dener pouco antes de falecer. Já quanto ao Independiente, Maradona sempre afirmou ser “hincha” desde “pendejo” por conta do maior ídolo do clube: Ricardo Bochini, o grande craque e vencedor das Libertadores dos anos 70. Por um capricho do destino no plantel da Copa 86 os papéis se inverteram e o mestre “Bocha” esteve no banco reverenciando o aluno-gênio Maradona em campo. A única exceção a essa sequencia de homenagens foi novamente em Rosário contra o Central, o rival do Newell’s, que o vaiou. E ali o Gimnasia venceu uma disputa direta contra o rebaixamento. Por ser um torneio de turno único nunca saberemos como seria sua recepção no Monumental de Nuñez. Mas quis o destino que a ultima rodada colocou frente a frente na Bombonera o Boca pela disputa do título e o Gimnasia pela disputa contra o rebaixamento. A vitória magra foi suficiente para o Boca ser campeão, mas mesmo assim o Gimnasia se salvou. Em poucos meses tão intensos pôde talvez se aquietar um pouco do temor de um dia ser esquecido. É provável que ele seja o homem mais livre do mundo, mas ao mesmo tempo um dos mais solitários por ser difícil ter a seu lado entre amigos e familiares quem acompanhe por muito tempo um perfil tão autêntico. À sua maneira. É a mais bela e perversa impunidade e subversão de regras.

As frases em espanhol que ilustraram essa crônica são versos da grande canção “La mano de dios”, considerada a principal homenagem dentre tantas mais que recebeu em músicas e documentários. Assim como a seguir esses versos de um bolero tão maradoniano:

“Ese fui yo que arremeti / Hasta el azar quise perseguir / Si me oculté, si me arriesgué / Lo que perdí no lo lloré / Porque viví, siempre vivi / A mi manera”

 

 

Referências

https://globoesporte.globo.com/blogs/meia-encarnada/post/2020/06/24/ha-30-anos-maradona-superava-o-tornozelo-arrebentado-para-eliminar-o-brasil-da-copa-do-mundo.ghtml

https://globoesporte.globo.com/blogs/meia-encarnada/post/2018/09/14/o-itinerario-de-dios.ghtml?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_content=Esporte&utm_campaign=globoesportecom

http://revistauncanio.com.ar/picado/el-regreso-del-que-te-jedi/

http://repositoriouba.sisbi.uba.ar/gsdl/collect/encruci/index/assoc/HWA_529.dir/529.PDF


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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. 30 de outubro: 60 anos de Diego Armando Maradona. Ludopédio, São Paulo, v. 136, n. 66, 2020.
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