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5 toques de análises econômicas sobre futebol, por Marcelo Proni

Neste mês, compartilhamos as indicações de Marcelo Weishaupt Proni, professor associado do Instituto de Economia (IE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que atua no programa de pós-graduação em Desenvolvimento Econômico. Ele é pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit).  

Marcelo Proni possui uma vasta produção dedicada às temáticas do desenvolvimento econômico, do mercado de trabalho e das políticas públicas. Na mesma medida, tem significativas contribuições na intersecção entre economia e esporte. Autor de dois livros disponíveis na biblioteca do Ludopédio: “A Metamorfose do Futebol” (2000) e “Impactos econômicos de megaeventos esportivos” (2014), este, em parceria com Raphael Brito Faustino e Leonardo Oliveira da Silva. Atuou, ainda, como organizador de coletâneas, a exemplo de “Esporte: história e sociedade” (2002), em parceria com Ricardo Lucena, e “O futebol nas ciências humanas no Brasil” (2020), em parceria com Sérgio Giglio – esta última, recentemente, lançada em língua inglesa, com o título “Football and Social Sciences in Brazil” (2021).

No Ludopédio, Marcelo Proni tem várias contribuições, com a publicação de artigos na seção arquibancada. Em sua lista, ele indica cinco análises econômicas sobre futebol. Vamos aos toques do convidado:

 

1º Toque: Deloitte Sports Business Group (annual reports)

A Deloitte é uma empresa multinacional de auditoria e consultoria empresarial. Desde 1992, o Sports Business Group (divisão especializada no mercado do futebol inglês) vem analisando a evolução das receitas e despesas dos principais clubes europeus. Os dois relatórios anuais divulgados pelo SBG (Deloitte Annual Review of Football Finance e Deloitte Football Money League) fornecem um panorama econômico das cinco ligas mais ricas (Premier League, Bundesliga, La Liga, Seria A e Ligue 1) e dos 20 clubes de maior faturamento na Europa. Além de oferecerem uma fonte confiável de informações para o público interessado na evolução das receitas e despesas dos clubes, tais relatórios também contribuem para o entendimento das diferenças no poder de mercado entre os membros da elite europeia, fornecendo as bases para o estudo acadêmico das tendências da “indústria do futebol” nos principais centros futebolísticos.

 

2º Toque: “Levantamento Financeiro dos Clubes Brasileiros”, por Ernst & Young Brasil

A Ernst & Young é uma empresa multinacional de serviços de contabilidade. A EY Brasil tem divulgado estudos baseados nos balanços patrimoniais e nas demonstrações financeiras dos clubes da elite nacional.  Tais estudos contribuem para a compreensão do estágio do futebol-empresa no país (e o descompasso em relação às ligas europeias mais ricas), à medida que indicam avanços e limites da gestão empresarial nos principais clubes de futebol. O relatório mais recente (Levantamento Financeiro dos Clubes Brasileiros 2020) examina os impactos desiguais da crise provocada pela pandemia utilizando um modelo de análise contábil específico para o futebol (Sports Analytics).

 

3º Toque: “Análise Econômico-Financeira dos Clubes Brasileiros de Futebol”, por Itaú-BBA

O Itaú-BBA também desenvolveu uma metodologia própria para avaliar a situação financeira dos clubes de futebol da elite nacional. Os seus relatórios (Análise Econômico-Financeira dos Clubes Brasileiros de Futebol), divulgados anualmente, fornecem um panorama da evolução das receitas, despesas, endividamento, entre outros indicadores. Tais análises, bastante completas e competentes, destacam as diferenças no desempenho econômico dos clubes (as quais explicam em grande medida as diferenças no desempenho esportivo), enfatizam os fatores responsáveis pela trajetória das dívidas (que em alguns casos se tornaram insustentáveis) e explicitam o sucesso ou fracasso das estratégias de concorrência executadas (que tendem a realimentar as desigualdades na capacidade de gasto). Recentemente, o Itaú-BBA divulgou uma análise que estimula a reflexão sobre as tendências atuais da indústria do futebol no Brasil (Cenários para as Finanças do Futebol Brasileiro: Projeções 2021-2023).

 

4º Toque: Blog do Rodrigo Capelo

Há alguns blogs especializados em marketing esportivo no Brasil (por exemplo, o Máquina do Esporte), que trazem muitas informações atualizadas. Mas, para estudos acadêmicos no campo da economia do futebol, é aconselhável consultar análises mais profundas e provocativas, como é o caso do Blog do Rodrigo Capelo, jornalista especializado em negócios do esporte. Além de explicar em linguagem simples os estudos contábeis referentes à situação financeira dos clubes e de comentar as principais estratégias de ampliação de receitas, , o Blog coloca em evidência os bastidores políticos (nos principais clubes e na CBF), que afetam as relações com investidores e o desempenho econômico dos times da elite. E tem priorizado os debates no Congresso Nacional em torno de leis direcionadas para a regulamentação econômica do futebol nacional, como é o caso da legislação que institui a Sociedade Anônima do Futebol (SAF).

 

5º Toque: “Impacto do futebol brasileiro”, por Ernest Young & CBF

Em 2019, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) divulgou um estudo realizado pela EY Brasil sobre os impactos diretos e indiretos da “cadeia produtiva do futebol brasileiro” na economia nacional. O estudo apresenta um mapeamento dos principais atores e grupos de interesses que compõem esse campo econômico (clubes, federações, atletas, mídia esportiva, patrocinadores, fornecedores, torcedores e governo), com informações sobre o número de jogadores profissionais registrados e sua distribuição por faixas salariais, o número de eventos disputados e a infraestrutura existente. A principal contribuição do estudo são as estimativas sobre os valores movimentados pelo futebol (profissional e amador) na economia brasileira em 2018. Embora a metodologia utilizada nessas projeções possa ser aprimorada, as estimativas divulgadas fornecem um quadro geral que merece ser analisado. É um esforço para provar que o conjunto dos torneios – tanto os campeonatos profissionais como as ligas amadoras (que também estão subordinadas às normas do sistema federativo) – tem contribuído para gerar empregos e rendimentos e para gerar receitas tributárias, em especial devido a impactos indiretos. Ao final, o estudo argumenta que há vários motivos para crer que os valores movimentados pelo futebol no Brasil continuarão crescendo nos próximos anos.

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Marcelo W. Proni

Docente do Instituto de Economia da UNICAMP.

Raphael Rajão

Autor de A bola, as ruas alinhadas e uma poeira infernal: os primeiros anos do futebol em Belo Horizonte (1904-1921). Graduado e mestre em História pela UFMG. Doutor em História, Política e Bens Culturais pela Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC. Atualmente pesquisa o futebol de várzea em Belo Horizonte.

Como citar

PRONI, Marcelo Weishaupt; RIBEIRO, Raphael Rajão. 5 toques de análises econômicas sobre futebol, por Marcelo Proni. Ludopédio, São Paulo, v. 150, n. 9, 2021.
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