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5 toques para conhecer mais sobre o futebol e ditaduras na América do Sul, por Lívia Magalhães

Neste mês de outubro trazemos as dicas de Lívia Gonçalves Magalhães, professora adjunta de História do Brasil República do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Lívia atua, também, como editora da Revista Esporte e Sociedade.

Além de estudos sobre esporte, Lívia Magalhães possui relevante produção sobre gênero e política no Brasil. Sobre futebol já publicou diversos artigos, capítulos e livros, dentre os quais se destacam os livros Histórias do futebol (2010), Com a taça nas mãos: sociedade, Copa do Mundo e ditadura no Brasil e na Argentina (2014) e Futebol na sala de aula: jogadas, dribles, passes, esquemas táticos e atuações para o ensino de Ciências Sociais e História (2021), este último ainda no prelo.

Na UFF, Lívia tem orientado diversos trabalhos sobre futebol em níveis de graduação, mestrado e doutorado. Em parceria com o Ludopédio, recentemente foi uma das ministrantes do curso “História do Futebol na América Latina” e uma das organizadoras do “III Seminário Brasil Republicano – Futebol e Ditaduras“.

Lívia Magalhães apresenta uma lista de dicas para se conhecer mais sobre futebol e ditaduras na América Latina. Como ela nos alerta:

“As relações entre futebol e autoritarismo sempre foram objeto de grande interesse popular, da mídia e de pesquisadores de diversas áreas. A variedade de trabalhos em diversos campos sobre o tema é um reflexo disso e, ao mesmo tempo, torna a tarefa de indicar 5 obras quase impraticável. Nesta oportunidade achei que era interessante usar distintos critérios para a minha escolha: uma obra que mudou os rumos da minha pesquisa de doutorado; outra que nos lembra que, infelizmente, a história republicana brasileira é marcada por mais de uma ditadura; uma tese de doutorado de uma jovem pesquisadora que traz a torcida como ator político da ditadura, além da fundamental e necessário perspectiva de gênero para as pesquisas do tema; e, finalmente, duas páginas de Internet que nos permitem o contato com outras experiência sul-americanas além de pensarmos nos lugares de memória sobre as ditaduras relacionados ao futebol. Espero que esta (difícil) seleção seja lida não por suas ausências (que certamente são muitas), mas pelas possibilidades de pesquisa que estão abertas sobre o tema.”

Vamos, assim, aos 5 toques da convidada:

 

1º toque: A Memória da Copa de 70: Esquecimentos e Lembranças do Futebol na Construção de Identidade Nacional, de Marco Antonio Santoro Salvador e Antonio Jorge Gonçalves Soares, 2009.

A Copa do Mundo de 1970, saudoso evento em que nós brasileiros nos consagramos tricampeões mundiais de futebol masculino é um dos temas de maior interesse para os que procuram mais relações entre futebol e ditaduras. Afinal, a ditadura influenciou e interveio ou não na seleção? Saldanha foi ou não demitido por Médici? O melhor do livro de Salvador e Soares é que eles não buscam responder essas questões. A proposta é muito original e nos leva para outro caminho, inovador e fundamental: o método científico que profissionais do corpo técnico colocaram em ação e que foram essenciais para a conquista do tri. De forma alguma os autores ignoram as relações entre a ditadura e a seleção. Ao contrário: ampliam as interpretações e nos permitem questionar memórias e discursos que pareciam consolidados em nossa sociedade. A obra foi essencial para minha pesquisa de doutorado e ainda hoje é referência em meus estudos.

 

 

2º toque: Estado Novo e Esporte – A Política e o Esporte em Getúlio Vargas e Oliveira Salazar (1940-1945), de Maurício Drumond (2014).

No senso comum, quando nos referimos à “ditadura” para pensar o caso brasileiro normalmente fazemos a associação direta com o período de 1964-1985. O mesmo percebemos ao levantar a produção literária e as pesquisas sobre o futebol e o autoritarismo. Sem entrar na discussão das relações entre sociedade e memórias para entender a questão, me interessa destacar as relações entre o futebol e a ditadura varguista. O trabalho de Drumond nos brinda com uma análise instigante, corajosa e desafiadora. Gosto especialmente da proposta comparativa, o Estado Novo brasileiro e o português, Vargas e Salazar. O exercício da comparação foi e continua fundamental para minhas pesquisas, um espaço metodológico complexo, mas que nos presenteia com questões que são inéditas em trabalhos focados apenas em experiências nacionais. Nessa obra, o autor nos permite pensar o futebol como a partir de sua construção como mito identitário, sem, de qualquer maneira, cair em ideias simplistas que reduzem a experiência esportiva à manipulação simplista por parte das ditaduras.

 

 

3º toque: “De “são bichas, mas são nossas” à “diversidade da alegria”: uma história da torcida coligay” (Tese de Doutorado) Luiza Aguiar dos Anjos, 2018.

Felizmente, na última década vimos uma explosão de novas e novos pesquisadores sobre o futebol interessados em pensar por uma nova perspectiva: os estudos de gênero e feministas. A novidade não é apenas o questionamento e denúncia do apagamento de mulheres, gays, lésbicas, transexuais e demais grupos, mas também o questionamento dos parâmetros atuais de prática esportiva e inclusive práticas investigativas. Neste sentido, Luiza nos oferece uma experiência única com sua tese de doutorado ao debruçar-se sobre a Coligay, torcida do Grêmio que atuou entre 1977 e início dos anos 1980, ou seja, ainda em plena ditadura civil-militar. A autora demonstra como a torcida transcendeu não apenas os espaços futebolísticos, mas a própria moralidade que foi um dos pilares políticos e culturais da ditadura. Um trabalho necessário e que nos permite refletir diversas dimensões de nossa sociedade.

 

 

4º toque: Página web argentina: Exposição Virtual Papelitos 78: histórias sobre un Mundial em dictadura.

A Copa do Mundo Masculina de 1978 na Argentina foi um marco em diversos sentidos e foi conhecida por muito tempo – e talvez ainda o seja – como “a Copa da ditadura”. Em meio a uma violenta repressão que deixou, segundo as organizações de direitos humanos do país, mais de 30 mil pessoas desaparecidas, as torturas, desaparecimentos e mortes tornaram-se parte da memória do evento. Em 2018, quando se completaram 40 anos daquela primeira conquista da seleção argentina, o coletivo institucional Memoria Abierta em parceria com a revista digital NAN e a embaixada da Holanda realizou a exposição Papelitos 78, com diversos materiais de livre acesso como: entrevistas, testemunhos, imagens e textos fruto de pesquisas acadêmicas e jornalísticas. Como um “lugar de memória” virtual (seguindo a proposta conceitual de Pierre Nora), o site traz pesquisas atualizadas sobre o evento assim como reflexões importantes sobre a construção de memória da Copa e, claro da própria ditadura.

 

5º toque: Página web chilena: Corporación Estadio Nacional Memoria Nacional Ex Prisioneros Políticos

Em 1973, logo após o golpe militar que derrubou o presidente eleito Salvador Allende, o Estádio Nacional, principal “palco” esportivo do país, tornou-se um centro de detenção. Diversas pessoas foram presas arbitrariamente e levadas ao estádio, onde sofreram com a violência da tortura e muitas foram assassinadas. O caso do Estádio Nacional tornou-se um símbolo por sua repercussão internacional e uma marca (física e memorial) da repressão. O coletivo “Corporación Estadio Nacional, Memoria Nacional Ex Prisioneros Políticos” possui como missão, segundo eles descrevem, resgatar a memória histórica do estádio, que afirmam ter sido o maior centro de detenção da ditadura. Procuram, assim, ser um local – físico e virtual – que contribua para consolidar uma memória democrática e de valorização dos direitos humanos. A partir de imagens, visita guiada e testemunhos, trazem os muitos significados e recuperam o uso do estádio no período da ditadura. Como no caso da Argentina, coletivos e organizações fazem uso da popularidade e do impacto do futebol para a cidadania e, a partir de experiências sombrias, repressivas e autoritárias do mundo futebolístico constroem políticas públicas de memória e consciência sobre a importância de condenar as ditaduras e valorizar a luta pelos direitos humanos.

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Lívia Gonçalves Magalhães

Vascaína, parte da imensa torcida bem feliz. Professora de História no Instituto de História da UFF. Autora dos livros História do Futebol (Apesp) e Com a taça nas mãos (Lamparina/Faperj); organizadora de Lugar de Mulher (Oficina Raquel) e com Rosana da Câmera Teixeira Futebol na sala de aula (Eduff). Apaixonada por literatura, futebol e cultura popular latino-americana.

Raphael Rajão

Autor de A bola, as ruas alinhadas e uma poeira infernal: os primeiros anos do futebol em Belo Horizonte (1904-1921). Graduado e mestre em História pela UFMG. Doutor em História, Política e Bens Culturais pela Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC. Atualmente pesquisa o futebol de várzea em Belo Horizonte.

Como citar

MAGALHãES, Lívia Gonçalves; RIBEIRO, Raphael Rajão. 5 toques para conhecer mais sobre o futebol e ditaduras na América do Sul, por Lívia Magalhães. Ludopédio, São Paulo, v. 148, n. 8, 2021.
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