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5 toques para conhecer mais sobre o futebol feminino na Argentina, por Verónica Moreira

Verónica Moreira, Raphael Rajão Ribeiro 1 de fevereiro de 2022

Na coluna inaugural do ano contamos com nossa primeira participação internacional. Nesta edição apresentamos as dicas de Verónica Moreira, professora da Facultad de Ciencias Sociales da Universidad de Buenos Aires – UBA. Verónica é pesquisadora credenciada do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas – CONICET. É coordenadora do grupo CLACSO Deporte, Cultura y Sociedad e da Red Internacional sobre Fútbol y Mujeres en Latinoamérica.

Sua produção sobre esportes é diversificada, em especial nas temáticas das torcidas e dos estudos de gênero. Foi organizadora de importantes coletâneas, dentre as quais se destacam: Hinchadas (2005), Deporte y Ciencias Sociales: claves para pensar las sociedades contemporâneas (2013), Deporte, Cultura y Sociedad. Estudios socio-antropológicos en Argentina (2016), Clubes argentinos. Debates sobre un modelo (2017), Los días del Mundial: miradas críticas y globales sobre Francia 2019 (2020) e Deporte y Etnografía. Pensar la investigación social entre los gêneros (2021).

Verónica Moreira apresenta uma lista de indicações para se conhecer mais sobre o futebol de mulheres na Argentina. Vamos, assim, aos 5 toques da convidada:

 

1º toque: Guerreras. Fútbol, mujeres y poder, de Gabriela Garton, 2019

Capa de livro GuerrerasEste livro de Gabriela Garton é produto de sua dissertação de mestrado em Sociologia da Cultura e Analise Cultural da Universidad Nacional de San Martín. O enfoque particular dessa etnografia reside no duplo papel de Gabriela, como pesquisadora e goleira da Seleção Nacional Argentina e do Club Deportivo UAI Urquiza. Gabriela nasceu e se formou como jogadora nos Estados Unidos, onde o futebol feminino tem outra relevância, mais recursos e mais oportunidades. O contraste de experiências entre ambos os países lhe deu a possibilidade de compreender os valores, as moralidades e as relações que organizam esse espaço regido pela lógica androcêntrica. O que implica ser jogadora de futebol de alto rendimento na Argentina? Implica transitar por uma zona cinza – permeada de contradições e ambiguidades –, na qual as esportistas conquistam direitos e recebem concessões, ao mesmo tempo em que continuam sendo alvo de todo tipo de abusos. O trabalho põe em discussão a tensão entre dois conceitos centrais dos estudos sociais do esporte: amadorismo e profissionalismo, e suas relações.

 

2º toque: ¡Qué jugadora! Un siglo de fútbol feminino en Argentina, de Ayelén Pujol, 2019

Capa do Livro Qué JugadoraLivro da jornalista Ayelén Pujol que reúne os resultados de uma pesquisa de vários anos sobre a história do futebol feminino na Argentina. Essa modalidade não começou em 1991, com a criação da Liga Oficial da Associação de Futebol Argentino. O futebol protagonizado por mulheres tem um longo percurso que foi invisibilizado pela narrativa hegemônica. Se a história oficial do futebol foi escrita e protagonizada por homens, o livro se propõe a virar o jogo e mostrar outros resultados. Assim, Ayelén reconstrói diferentes momentos do futebol feminino apresentando, por exemplo, as informações sobre a primeira partida disputada na cidade de Rosário, em 1913 (primeiro registro até o momento). Ela ainda recupera nomes e experiências de jogadoras de outras décadas, como as vozes das jogadoras que participaram, em 1971, do mundial disputado no México, que hoje são reconhecidas como “Las Pioneras”. Uma informação a mais: Ayelén também é autora do livro infantil “Barriletas Cósmicas” que propõem que as meninas projetem seus sonhos de serem jogadoras a partir de referências próprias, do futebol feminino.

 

3º toque: Se acabó esse juego que te hacía feliz, de Adolfina Janson, 2008

Capa do livro Se acabó ese juego que te hacia felizO livro da socióloga Adolfina Janson, publicado em 2008, foi pioneiro no meio acadêmico, quando a discussão sobre gênero e esporte voltava-se, principalmente, para a atuação dos homens. Adolfina empreendeu a difícil tarefa de implantar um tema inovador que pretendia colocar as desportistas nos primeiro plano da análise. O livro é a primeira produção sobre futebol feminino na Argentina e assentou as bases para as pesquisas que começaram recentemente, nos últimos cinco anos. O trabalho recupera essencialmente as entrevistas que Adolfina realizou com as jogadoras que participaram nos torneios oficiais de 1998 a 2004. Nos relatos das atletas podem ser observados os tópicos principais em torno dos quais a autora organiza a problemática do futebol feminino: os obstáculos, as origens, a autoimagem, as mídias e o futuro do futebol feminino. O livro é dedicado ao estudo da constituição oficial do futebol feminino na sua etapa amadora na Argentina.

 

4º toque: “Somos futbolistas”: Disputas de sentidos en torno al fútbol en la ciudad de Salta durante los años 2014-2020, de Mariana Ibarra, 2021

TeseTrata-se de uma tese de doutorado em Ciências Sociais da Universidad Nacional de Jujuy produzida por Mariana Ibarra. A autora inicia seu trabalho se perguntando: se o futebol foi historicamente esse lugar privilegiado para a constituição de uma masculinidade hegemônica, o que acontece quando se começa a questioná-lo a partir de outros lugares possíveis, como o das mulheres e das dissidências e, além disso, a partir de posicionamento político feminista? A investigação expõe os discursos elaborados pelo principal jornal diário da província de Salta para analisar como têm sido representadas, historicamente, as futebolistas. Por outro lado, através da observação participante e de entrevistas em profundidade, Mariana recolheu os relatos das jogadoras para compreender os significados em torno das aspirações, as trajetórias e a construção da identidade das protagonistas. A pesquisa permite estabelecer um contraponto às analises centradas em Buenos Aires, sugerindo que o futebol não é apenas um campo de disputa de gênero, mas também um campo de luta em torno do regional.

 

5º toque: Museo del Fútbol Feminista

Museo del Futbol FeministaO museu é uma criação de Rafaela Carignani, Victoria Cura e Daniela Villani, militantes feministas e amantes do futebol. Elas integram um espaço que junto a outras pessoas se intitula como Coordinadora Sin Fronteras de Fútbol Feminista. A ideia de organizar o Museu surgiu a partir do trabalho de conclusão do curso em “Género y Deporte” da Facultad de Ciencias Sociales da Universidad de Buenos Aires. Um dos objetivos do projeto é permitir a reparação histórica do futebol a partir da criação de um repositório virtual de imagens, arquivos e relatos para a difusão, a sensibilização e a reconstrução dos acontecimentos vinculados ao futebol feminino na Argentina desde suas origens até a atualidade. Como dizem as criadoras, para “reconstruir a história do futebol e disputar seus sentidos com o patriarcado”. O espaço conta com duas salas com um material inestimável: “Futbolistas Argentinas” e “Coordinadora sin Fronteras del Fútbol Feminista”. O portal também conta com interessantes e variados recursos destinados à formação, à problematização e à construção de ferramentas para a discussão sobre as violências por motivos de gênero.

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Raphael Rajão

Autor de A bola, as ruas alinhadas e uma poeira infernal: os primeiros anos do futebol em Belo Horizonte (1904-1921). Graduado e mestre em História pela UFMG. Doutor em História, Política e Bens Culturais pela Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC. Atualmente pesquisa o futebol de várzea em Belo Horizonte.

Como citar

MOREIRA, Verónica; RIBEIRO, Raphael Rajão. 5 toques para conhecer mais sobre o futebol feminino na Argentina, por Verónica Moreira. Ludopédio, São Paulo, v. 152, n. 2, 2022.
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