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Uma efeméride esportiva em questão: 50 anos da Copa de 1970 (parte 1)

Como pensar uma efeméride esportiva? Ou por outra, de que lembranças nos valemos para recordá-la? No caso específico deste texto, referimo-nos aos jogadores que participaram da nona edição da Copa do Mundo FIFA, realizada no México em 1970, cujo cinquentenário comemora-se em 2020. A questão vem à baila este ano, em que se completam os cinquenta anos da conquista do tricampeonato (1970-2020) e que uma série de rememorações serão feitas pelos meios de comunicação.

Como é sabido, o Brasil disputou todos os 21 torneios quadrienais realizados pela Federação Internacional de Futebol Associado desde o ano de 1930 até os dias atuais (o último foi o da Rússia, em 2018), sagrando-se vencedor em cinco ocasiões: 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Entre todas as competições já disputadas, a Copa de 1970 ocupa um lugar especial no imaginário nacional, seja pela euforia do título, seja pela repercussão internacional do “país do futebol”, seja pelas polêmicas suscitadas acerca do contexto político em que se deu a conquista.

A ditadura militar, implantada no Brasil em 1964, encontrava-se em seu auge naquele momento, sob a vigência do governo do general Emílio Garrastazu Médici, conhecido por ser um dos períodos mais duros da repressão ditatorial, já sob os auspícios do Ato Institucional número 5, conhecido pelo acrônimo AI-5. No bojo de um crescimento extraordinário da economia brasileira – o chamado “milagre econômico” –, ocorria ao mesmo tempo a perseguição implacável aos opositores do regime. Se a tortura foi ignorada à época por parte considerável da população, pode-se dizer também que, entre outras parcelas, deu-se a conivência dessa prática ignominiosa contra os ditos “inimigos” do governo, também chamados de “comunistas” e “terroristas”.

Mas, enquanto praticavam-se atos sistemáticos de violação aos direitos humanos, perpetrados pelos “donos do poder”, o selecionado nacional arrebatava o mundo. Em partidas contra seleções da Inglaterra, Tchecoslováquia, Romênia, Uruguai e Peru – desde a fase de grupos, passando pelas quartas de final e semifinal, na cidade mexicana de Guadalajara, em seu estádio Jalisco – construído em 1952 e capaz de abrigar mais de sessenta mil espectadores –, exibia-se uma performance esplêndida. Esta evidenciou a capacidade de encantar pela qualidade técnica de seus atletas, somada à coesão do seu plantel e à força do seu conjunto.

Seleção brasileira da COpa de 1970. Foto: Gerência de Memória/CBF.

A projeção daquela conquista também se beneficiou de um ambiente de transformação tecnológica dos meios de comunicação, especialmente da televisão, na técnica de cobertura e na difusão planetária do evento. Se, desde 1950, a cada quatro anos as transmissões televisivas dos jogos adquiriam maior alcance internacional, o Mundial do México foi a primeira edição do torneio a ser difundida via satélite, em cores e ao vivo, para Europa e para diversos países do globo.

Isso, sem dúvida, contribuiu para a repercussão do feito da equipe brasileira e exponenciou a cadeia de admiração nos milhares de telespectadores ante o desempenho do selecionado verde-amarelo. Este foi o caso, por exemplo, do cineasta Pier Paolo Pasolini, autor de um texto apologético sobre o que chamou encontro do “futebol de prosa” com o “futebol de poesia”, tal como praticado pela Seleção Brasileira na final do Mundial contra a própria Itália. Mesmo torcendo para a equipe que representava o seu país, o italiano Pasolini não deixou de saudar a exuberância do time brasileiro naquele artigo publicado na imprensa logo após a partida decisiva.

Além do impacto da TV, com seu alcance para diversos quadrantes e continentes do mundo, a população local – os mexicanos – também adere de modo entusiástico ao time do Brasil. Como se jogasse em “casa”, aos gritos de “olé”, comuns nas arenas de touradas e transpostos à atmosfera dos estádios, a torcida do país anfitrião mostrava a transcendência do apego nacionalista de que o futebol era capaz. É certo que o apoio do público advinha em parte de certa simpatia e de certa identidade de vizinhança de um país “irmão” da América Latina.

No entanto, vale também agregar que boa parte daquela adesão imprevista no início e que ganhou força ao longo da competição tinha a ver com o chamado “futebol-arte”. Isto é, com a capacidade de os futebolistas brasileiros produzirem lances de efeito e de atraírem o público local a seu favor. Estes geravam nos torcedores um entusiasmo derivado da habilidade individual de cada atleta, graças ao afamado “jogo bonito”, estilo próprio daquele time, a que ficou associado internacionalmente o futebol brasileiro desde pelo menos o final dos anos 1930.

A desvairada invasão de campo dos torcedores mexicanos no monumental estádio Azteca, com capacidade para mais de 110 mil espectadores, situado na capital, a Cidade do México, ainda hoje repercute nas imagens coloridas da televisão. Quando do apito final da partida contra a Itália, uma onda humana adentra o gramado e sai à cata dos seus ídolos. Quem não se lembra da cena de Tostão dragado pela multidão, ovacionado, a tirar-lhe praticamente todas as vestes em campo, sobrando-lhe apenas as cuecas. Gérson, por seu turno, chorava de maneira copiosa, enquanto atravessava o campo de joelhos. Outra cena antológica, cravada na memória de muitos, é o gesto do capitão da equipe, Carlos Alberto Torres, a receber a Taça Jules Rimet nas tribunas de honra, beijá-la e empunhá-la aos ares.

Carlos Alberto Torres levanta a Taça da Copa de 1970. Foto: Arquivo Nacional Fundo Correio da Manhã.

A volta do time ao país foi igualmente triunfal. A recepção da delegação da Seleção teve cortejos a céu aberto, em carros oficiais do corpo de bombeiros. A festa da população mais pareceu uma espécie de catarse coletiva. Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo foram as cidades de passagem dos jogadores para ir ao encontro dos populares, que tomaram e embandeiraram as ruas para saudar efusivamente os tricampeões mundiais. Na capital federal, mais de setenta mil pessoas se aglomeraram na Praça dos Três Poderes, com a recepção da delegação pelo general-presidente Médici.

Conforme lembrado acima, a experiência catártica coexistiu, no entanto, com as práticas de exceção então em plena vigência. Muitos consideraram essa intensa celebração no espaço público um meio de extravasamento diante daquele cenário sombrio da vida política e um meio de extrapolação da asfixiante rotina do país.

De lá para cá, o significado daquela conquista tornou-se alvo frequente de controvérsias e de diferentes narrativas ao longo do tempo, instalando-se inclusive nas conversas do senso-comum e em certos chavões repetidos pelas gerações seguintes. Para uns, o futebol fazia as vezes de “ópio do povo” e servia, afinal, para desviar o foco da população para os assuntos ditos sérios, a política e a economia. No contexto autoritário, tratava-se de ofuscar temas subterrâneos, indesejados, como os abusos e arbítrios que vinham sendo cometidos como política de Estado pela ditadura. Oficialmente, a propaganda oficial cunhava e repetia ad nauseam seu slogan rotineiro: “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Para outros, a relação mecânica entre jogo de futebol e alienação das massas, ou válvula de escape, não deveria ser considerada de modo tão elementar, pois havia muitos outros fatores intervenientes. O desenvolvimento acelerado da economia, mediante altos índices do PIB, o afluxo de capital estrangeiro e a ascensão extraordinária ao consumo das classes médias, entre fins dos anos 1960 e início da década de 1970, contribuíam para legitimar o status quo. Não à toa que uma corrente historiográfica e um conjunto de pesquisas sobre o período passou a qualificar a ditadura (1964-1985) de “civil-militar”, e não apenas pelo último adjetivo, como ficou consagrada, a fim de mostrar as relações entre Estado e sociedade civil no país.

O peso ditatorial na construção da memória da Copa de 1970 tem a ver não apenas com seus usos a posteriori, na esteira da vitória acachapante de 4 a 1 sobre a Itália na partida final. A pressuposição do uso instrumental do governo no sentido de capitalizar sua imagem positiva, colada ao êxito no desempenho dos jogadores, data desde a temporada de preparação para o Mundial do México. Um dos episódios mais tensos e mais conhecidos a esse respeito foi a crise decorrente da substituição do treinador João Saldanha, jornalista esportivo que assume o selecionado brasileiro poucos anos depois do fracasso do Brasil na Copa do Mundo da Inglaterra, de 1966.

Uma das intrigas de bastidor mais repercutidas desde então sobre essa Copa diz respeito à saída de Saldanha, em março de 1970. Este deixou o comando técnico poucos meses antes do início do torneio, depois de classificar com desempenho convincente a equipe entre os países pleiteantes da América do Sul. A entrada em seu lugar, após uma série de desentendimentos de Saldanha com as autoridades esportivas, coube ao ex-jogador e bicampeão mundial (Suécia, 1958 e Chile, 1962), Zagallo.

Um dos “mitos” associados à demissão de Saldanha relacionou-se às suas simpatias manifestas pelo regime comunista, o que no ambiente da Guerra Fria no mundo e de ditadura militar no Brasil soava um acinte, quase um ato de fala subversivo. Junto a isto, o posicionamento do treinador foi ao encontro de negativas do mesmo para supostas tentativas de interferências do governo – ou de declarações públicas do presidente – na escolha e na escalação de atletas convocados para a equipe que iria representar o Brasil no México.

O presidente Médici, como se sabe, procurava mostrar-se um aficionado de futebol, no que à primeira vista parecia um sentimento autêntico. Frequentava o Maracanã em dias de clássicos no Rio de Janeiro e manifestava sua condição de torcedor fervoroso do Flamengo. Em contrapartida, faixas nas arquibancadas rubro-negras saudavam o presidente. É célebre a imagem do ditador-presidente nas tribunas de honra do estádio, a portar um radinho de pilha, como se fosse um simples torcedor, das Gerais ou das Arquibancadas, locais dos setores mais populares, capaz de vibrar e de sofrer pelo seu time e pelo futebol na mesma intensidade.

Nessa condição, opiniões vindas a público acerca da preferência de Médici pela convocação do atacante Dario José dos Santos – o Dadá Maravilha -, então jogador do Atlético Mineiro, teriam sido o pomo da discórdia que azedaram as relações entre o presidente e o treinador. Entre as “lendas” propagadas desde então, diz-se que Saldanha, orgulhoso de suas “feras”, não se rendeu aos ditames do presidente e respondeu com palavras de efeito, algo do tipo: “O presidente escala os ministros, eu escalo a Seleção”. No jornalismo e no memorialismo esportivo, esta e outras insubordinações estiveram entre as causas para que a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), por meio de seu presidente, João Havelange, tivesse afinal demitido Saldanha e contratado Zagallo, pouco antes da viagem da equipe para o México.

 
Entrevista com o técnico da seleção brasileira de futebol João Saldanha falando sobre a convocação dos jogadores e do sistema tático. Repórter Esso, 5 de fevereiro de 1969. Imagem do Fundo da TV Tupi.

A ideia de uma “militarização” da Seleção não compreendeu apenas uma relação vertical, do governo para o elenco. O ethos militar concretizou-se de modo mais enfático no âmbito da representatividade da Comissão Técnica. O capitão Cláudio Coutinho e o professor Lamartine Pereira da Costa, os treinadores Admildo Chirol e Carlos Alberto Parreira, entre outros membros, haviam sido formados na tradicional Escola Militar da Praia Vermelha. O grupo trazia conhecimentos oriundos daquele universo, voltados no limite à guerra, e alguns deles vinham de períodos de formação nos Estados Unidos, aonde aprenderam sobre biologia, fisiologia e condicionamento corporal.

Assim, os mais novos estudos provinham da educação física e da medicina estadunidense e eram aplicados na otimização do rendimento corpóreo dos atletas do futebol profissional brasileiro. O Planejamento México, como ficou conhecido esse programa de preparação, adotou métodos inovadores para a época e fez com que a Seleção chegasse ao México com um mês de antecedência. O propósito era adaptar-se à altitude e praticar um futebol aplicado taticamente e condicionado não apenas pela destreza individual, mas também pela força física da coletividade.

Todos esses fatores, associados ao contexto autoritário, compõem a aura que ronda a participação brasileira no Mundial de 1970. Neste sentido, ele passou a balizar as interpretações e o entendimento do significado de tal torneio, com apropriações daquele período que mesclam o encantamento com a conquista ao ceticismo dos usos instrumentais que governos discricionários podem fazer do futebol.

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Bernardo Borges Buarque de Hollanda

Professor-pesquisador da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV).

Como citar

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de. Uma efeméride esportiva em questão: 50 anos da Copa de 1970 (parte 1). Ludopédio, São Paulo, v. 130, n. 15, 2020.
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