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50 anos do gol “palomita” de Poy e a histórica rivalidade Central-Newell’s

Fabio Perina 19 de dezembro de 2021

A dupla de Rosário também reivindica algum lugar de destaque entre os assim chamados clubes grandes. O Newell’s joga no estádio Marcelo Bielsa (ou “Coloso del Parque”). Já o Central joga no estádio Lisandro de la Torre (ou “Gigante de Arroyito”). Um ao lado do Parque Independencia e outro ao lado do Rio Paraná. E cujas barras são respectivamente “la hinchada más popular” e “los guerreros”. O Newell’s tem como maior ídolo “intelectual” o treinador Marcelo Bielsa e dentro de campo reivindica o orgulho dos dois maiores gênios do futebol argentino (Maradona e Messi) terem vestido sua camisa “rojinegra”, ainda que por curtas passagens. Já por outro lado os “auriazuis” tem como maior ídolo “intelectual” o poeta Fontanarrossa e dentro de campo Mario Kempes, o herói da Copa do Mundo de 78. Uma rivalidade que tem como principal particularidade o apelido que cada clube ter sido “batizado” pelo rival e prontamente assumido: “leprosos” para o Newell’s e “canallas” para o Central. Antecipando algo que tantas rivalidades levariam décadas para realizar da inversão de uma ofensa convertida em auto-identificação.
Na história dos dois clubes certamente o título mais comemorado foi o Nacional de 71 pelo Central. (Em um contexto mais amplo em que o futebol argentino vinha triunfando com a hegemonia na Libertadores primeiro do Estudiantes e depois do Independiente, porém também bem contestado quanto a seleção por não ter conseguido classificar para a Copa do Mundo de 70). Tanto por ser o primeiro título de algum clube de fora de Buenos Aires. Como principalmente pela semifinal histórica jogada contra o arquirrival no Monumental de Nuñez. Fora de campo, caravanas das duas hinchadas e a nostalgia de dividirem uma grande partida em campo neutro sem grandes problemas. Dentro de campo, “partidazo” eternizado pelo gol de “palomita” (peixinho) de Aldo Pedro Poy. E depois deslanchando na final contra o San Lorenzo. Considerado o gol de comemoração mais ritualizada, pois ano a ano todo dia 19 de dezembro os hinchas “canallas” se reúnem para reconstituir a cena! O que em um sentido profundo remete a um desejo de não deixar o melhor do passado escapar entre os dedos com a força do tempo, justamente em uma cidade com uma filosofia futeboleira tão singular com “Trinche” Carlovich, Bielsa, Messi e outros. (Assim como terra inspiradora de mentes como Che Guevara na política e Fito Paez na música)

Palomita de Poy
Foto: reprodução El Gráfico

Desde então não demorou para o Newell’s obter seu primeiro título ao dar o troco na final do Nacional de 74, e justamente no estádio do rival. Os clubes continuaram surpreendendo nos anos 80 com os títulos de 80 e 87 ganhos pelo Central. Sendo que em ambos novamente superou o rival nas últimas partidas. Justamente em 87 o Newell’s deixou o título escapar por entre os dedos e um de seus jogadores com incrível sinceridade colocou a culpa na hinchada por ser “pecho frio”, ou seja, mais reclamar do que apoiar. O apelido pegou até hoje. Mas grandes rivalidades comportam grandes viradas nos tempos, com mais uma vez o troco vindo logo no ano seguinte de 88 com o título do Newell’s, em sua assim chamada “revolução bielsista”, e depois campeão dos títulos nacionais de 91 e 92. Ou seja, em apenas 4 anos igualou a conta de títulos que estava 4 a 1 para o rival. E ainda sendo nesse período duas vezes vice da Libertadores em 88 e 92.

Na história do clássico é desde então se inaugura pelas próximas décadas a era dos “quilombos” (incidentes) dentro e fora de campo. Conforme o vídeo sugerido no final da crônica sugere uma instigante retrospectiva. Muito além do que as constantes provocações entre jogadores e dirigentes, as várias dificuldades prática ou burocráticas para iniciar ou concluir uma “simples” partida que divide Rosário tornaria legítima a alcunha de “el clasico prohibido”. Com alguns casos seguidos por decreto da AFA de derrota mútua e perda de pontos na tabela. Aliás esse tema de remoção de mando a campo neutro torna o clássico rosarino de todos na Argentina (e certamente no mundo) aquele mais vezes sujeito a essa condição excepcional. Assim como a singularidade de interrupção de partidas não concluídas. Inclusive com uma insólita situação em 2007 com jogadores “leprosos” revoltados com policiais certamente “canallas” reprimindo impunemente a tiros seus próprios torcedores “leprosos” em plena cancha inimiga. Assim como naquela época se inaugura a era dos abandonos (algo também muito singular), sendo que ao longo dos anos 90 cada lado reivindica uma conquista a mais em um clássico diante de jogadores e/ou torcedores do rival o abandonarem por algum motivo! (ou excesso de expulsões ou incidentes de fora para dentro de campo). Um critério que certamente outros clássicos não encontram tal “reciprocidade”. Seja com ou sem confusão, várias partidas do clássico ganharam apelidos criativos e inesquecíveis

Desde então o Newell’s levou vantagem na rivalidade quanto a títulos nacionais vencendo 2004 e 2013 e quase chegando à terceira final de Libertadores em 2013. Porém o Central reivindica ter um melhor histórico internacional: duas eliminações ao rival em confronto eliminatório na Libertadores de 75 e Sul-Americana de 2005 e principalmente um título internacional com a Copa Conmebol de 95. Mesmo tendo os anos difíceis no Ascenso, assim que voltou à Primera pôde se orgulhar de ter colocado o rival na fila de vários anos no confronto direto. E principalmente de ter reencontrado os títulos com a Copa Argentina de 2018, em final contra o Gimnasia La Plata nos pênaltis, inclusive eliminando na fase anterior o rival Newell’s em campo neutro e com malditos portões fechados (exacerbando novamente a já citada incapacidade das autoridades). Um caminho repleto de outros obstáculos agônicos históricos que a partir de então se tornaram página virada: desde 95 sem nenhum título, desde 87 sem título nacional, sendo vice-campeão desse torneio nas três edições anteriores.

No ano do meio centenário da “palomita” de Poy o aperitivo para o clássico foi em 2 de maio ser jogado sem torcida por conta da pandemia (inclusive com o capricho de ter sido o último dos clássicos importantes no mundo que faltava nessa condição) com vitória do Central por 3 a 0. Na “casamata” dos treinadores inexperientes e com passagens frustradas, um duelo particular com sabor de anos 90: o ex-meia Kily Gonzalez no Central e o ex-goleiro German Burgos no Newell’s. E tendo como aperitivo de rivalidade a invasão de campo por um drone nas cores “canallas” com mensagens provocativas e que foi pisoteado pelo “canchero” jogador “leproso” Pablo Pérez! E logo depois em 22 de agosto um empate com o prévio transtorno de possível remoção forçada do mando de campo para fora da província sob alegação de não conseguir controlar aglomerações por “banderazos” pela cidade como festa prévia à partida! Apesar de recentes ações diretas de barras bravas com incêndios a sedes do clube rival, que não se enganem de pensar que os hinchas comuns também não se entregam ao “desborde” de sua maneira. Em suma, grandes rivalidades possuem forças anímicas transcendentais que contornam os controles impostos e se deslocam a se manifestar de outras maneiras.

Materiais de Apoio

https://www.futebolportenho.com.br/110-anos-do-classico-rosarino-o-mais-ferrenho-da-argentina-e-do-mundo/

https://www.youtube.com/watch?v=P9bbTV4FiJo

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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. 50 anos do gol “palomita” de Poy e a histórica rivalidade Central-Newell’s. Ludopédio, São Paulo, v. 150, n. 28, 2021.
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