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7 Estádios inesquecíveis: Highfield Road – parte 4

Marcos Alvito 13 de junho de 2021

Highfield Road – Coventry (Inglaterra) – julho de 2005

 

Atravessei um belo parque, com uma grama impecável que parecia um convite a se jogar bola. Cheguei a uma rua tipicamente inglesa, com casinhas de tijolos vermelhos de dois andares, caixilhos de madeira brancos e chaminés quadradas proeminentes, todas iguais e tão juntinhas quanto os jogadores na barreira. Era uma tarde de tempo bom. Ia visitar o estádio do Coventry City Football Club e haviam me indicado aquele caminho. De início pensei que houvesse um erro, a simpática via parecia ser sem saída. Quase isso. Ela desembocava exatamente na entrada do estádio. Depois percorri as imediações e percebi que Highfield Road havia sido construído literalmente no meio de um bairro operário, estava cercado daquelas casinhas por todos os lados.

Nada mais justo, afinal o clube foi fundado em 1883 por operários da fábrica Singers, à época fabricantes de bicicletas, aliás com o nome de Singers Football, clube, só tomando o nome atual em 1898. No ano seguinte passam a jogar em Highfield Road, que antes era um campo de críquete. No  final do século XIX a cidade de Coventry era um centro industrial importante, antes da virada do século ali já se fabricavam automóveis. Durante a Segunda Guerra Mundial, exatamente por conta da sua importância estratégica, foi impiedosamente bombardeada pelos alemães. Sobrou até para Highfield Road: três bombas caíram no gramado, mas não nas arquibancadas. No pós-guerra a cidade se recuperou e na década de 1960 experimentou uma enorme prosperidade baseada na indústria automobilística.

Em campo, o clube que antes representava a fábrica e agora a cidade não teve um desempenho tão bom. Os “Galinhos” (Bantams), com seu uniforme de listas azuis e brancas, não bicavam com muita força. Só conseguiram entrar para a Football League em 1919 e em 1925 já foram rebaixados. Passaram a década de 30 inteira flertando com a primeira divisão mas sempre batiam na trave, em 1938 por apenas um ponto. A década de 1950 foi catastrófica e o clube caiu para a recém-formada 4a divisão.

Até que chegou o período mais glorioso da história do clube: a década de 1960, quando o Coventry City pôde desfrutar de um sucesso futebolístico correspondente ao poderio econômico do município. Foi o tempo de Jimmy Hill, um manager de aparência jovem e novas ideias. Ele aboliu o apelido anterior e mostrando seu objetivo adotou Sky Blues (Azuis Celestes), mudando o uniforme: agora era de um lindo tom azul claro: camisas, calções e meiões. Não parou por aí: mandou construir três novas arquibancadas no velho estádio, criou um esquema para levar os torcedores aos jogos fora e sobretudo, transformou o time.

Highfield Road
Foto: Marcos Alvito.

Em 1962 os Sky Blues foram até as quartas-de-final da FA Cup, perdendo para o Manchester United. No ano seguinte foram campeões da 3a divisão com uma média de público acima de 25.000 pessoas. O  clube não demorou muito na 2a divisão e em 1967 pode não ter chegado no Céu, mas foi quase isso: ficou 25 partidas invicto e conquistou o acesso para a 1a divisão em uma vitória de 3 a 1 sobre os grandes rivais do Wolverhampton Wolves diante de um público recorde que mais de 51.000 pessoas.

Mas uma tempestade se aproximava. Até o início da década de 1970 Coventry será uma cidade pujante que atraía trabalhadores de fora. Com a Crise do Petróleo, em 1973 e  a política neoliberal desindustrializante de Margaret Thatcher, a cidade sofre uma enorme queda. Na década de 1980, como cantava um grupo local, The Specials, Coventry tinha virado uma “Ghost Town”, uma “Cidade Fantasma”.

No clube de futebol a decadência tinha começado antes, com a saída de Jimmy Hill em 1967. Sinal dos tempos: o vibrante e criativo manager foi atrás de uma carreira na televisão. Ele voltaria em 1975, mas sem o mesmo sucesso, dentro e fora do campo era o tempo das vacas magras. Um dos seus erros, mas que foi profético: em 1981 acabou com os terraces, onde os torcedores assistiam ao jogo de pé, vibrando livremente, mas também onde ocorria a maioria das brigas, era o auge dos hooligans. Highfield Road passou a ter somente lugares sentados para tentar resolver o problema. Era como tentar mudar da noite para o dia uma cultura secular: a média de público despencou para 10.000 pessoas. Dois anos depois, Jimmy Hill renuncia.

Em 1986, quase um milagre: com um time sem estrelas, o Coventry City consegue a maior vitória da história do clube, conquistando a FA Cup ao derrotar o poderoso Tottenham Hotspur na prorrogação por 3 a 2. Com a criação da Premiership (hoje Premier League) em 1992, o Coventry continuou na corda bamba, até cair para a 2a. divisão em 2001.

Quando percorri aquela rua até o fim, dei de cara com a entrada do estádio, acima da porta havia uma enorme placa azul claro com letras brancas: “Welcome to Coventry City Football Club”. O escudo do clube é muito interessante: tem um elefante em cima de uma bola. O paquiderme tem  um castelo nas costas. O animal leva a bandeira vermelha e branca que simboliza o patrono da Inglaterra, São Jorge, que, por ser um matador de dragões, supõe-se que seja um amigo dos elefantes. Quando a Coroa Britânica permitiu que Coventry se tornasse uma cidade, ela recebeu como símbolo o elefante. O escudo está afixado em uma parede feita do mesmo tijolinho das casas da rua. Clube e bairro, clube e classe operária, eram feitos da mesma massa.

Highfield Road
Foto: Marcos Alvito.

O Dragão que São Jorge se esqueceu de matar, todavia, foi o processo de “modernização” do futebol. A disparidade entre os clubes da 1a. divisão e os restantes se tornou abissal. Depois de passar 31 anos no topo do futebol inglês, o Coventry estava disposto a vender a alma ao Diabo para retornar. Pior do que a alma, vendeu o estádio em 2003, para ser demolido dois anos depois. Alguém teve a ideia de sacrificar Highfield Road à cobiça da indústria imobiliária. O clube passaria a jogar na Arena Ricoh, construída segundo os novos mandamentos do futebol pós-moderno: arena multiuso, hotel e cassino. Eu estive lá, mas prefiro não tecer comentários, não escrevo sobre arenas, somente sobre estádios.

Quem arriscou sua sorte na roleta foi o Coventry City: com o dinheiro da venda de Highfield Road, pretendia pagar as muitas dívidas, reforçar o time e conseguir voltar a por a mão nas riquezas do que hoje é chamado de Premier League. Há vinte anos que eles perseguem esse sonho.

Highfield Road estava fechado e o encarregado não permitiu que eu entrasse para tirar algumas fotos. Se eu tivesse vindo três meses antes, teria assistido à última partida, uma vitória retumbante de 6 a 2 sobre o Derby, ainda por cima evitando a queda para a 2a divisão. A despedida do velho estádio deve ter sido uma festa ao estilo inglês, com todo mundo soltando a voz, os braços bem abertos para abraçar a vitória.

Agora, ainda de pé, mas prestes a se transformar em caixotes de concreto com gente dentro, Highfield Road estava silencioso. De fora, ainda dava para ver as arquibancadas com cadeiras azul celeste e imaginar quantas emoções elas haviam abrigado em 106 anos de futebol. Só me restava ir à loja do clube, numa rua próxima. Na vitrine, vejo um elefantinho bem simpático.

Highfield Road
Elefantinho simpático. Foto: Marcos Alvito.

E um aviso, já que o mar não estava para peixe em Coventry:  “Todas as camisas de futebol são removidas à noite”. Entrei à procura de algo sobre o estádio, talvez um livro ou um dvd. Só encontrei uma caneca nas cores do clube, em que o escudo vinha com uma tarja: “The end of an era”. Os dizeres principais em branco, com fundo azul eram: “Highfield Road – 1899-2005 – Thanks for the memories”. Achei um agradecimento pífio, pois o estádio foi a casa do clube durante quase toda a sua história.

Highfield Road
Caneca Highfield Road. Foto: Marcos Alvito.

Caminhando mais um pouco, há uma pichação no muro:

“Viva Communista – Coventry City till I die”

É assinada pelos Moogies (gatos viralatas), um grupo de torcedores do bairro de Mount Nod.

Highfield Road
Viva Communista. Foto: Marcos Alvito.

Isso me lembrou a frase do Manifesto Comunista: “Tudo que é sólido desmancha no ar”. Ela caberia como uma luva para explicar porque Highfield Road foi sacrificado. Apenas mais uma vítima da colonização do futebol pelo capital, que costuma passar por cima das tradições com uma truculência maior do que uma entrada do Sérgio Ramos.

PS: As duas últimas fotos, em preto e branco, são de Highfield Road em 1961 e no início da década de 1990.

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Marcos Alvito

Professor universitário alforriado. Escritor aprendiz. Observador de pássaros principiante. Apaixonado por literatura e futebol. Tenho livros sobre Grécia antiga, favela, cidadania, samba e até sobre futebol: A Rainha de chuteiras: um ano de futebol na Inglaterra. O meu café é sem açúcar, por favor.

Como citar

ALVITO, Marcos. 7 Estádios inesquecíveis: Highfield Road – parte 4. Ludopédio, São Paulo, v. 144, n. 24, 2021.
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