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A bola rolou: um novo olhar sobre o futebol

Plínio Labriola Negreiros 14 de agosto de 2019

Fevereiro de 2014, no prédio da administração da FFLCH-USP, uma defesa de doutorado: Wilson Roberto Gambeta, A bola rolou – O Velódromo Paulista e os espetáculos de futebol, 1895-1916, da qual tive a satisfação única em fazer parte da banca. Trabalhei, nesta banca, ao lado de pessoas fundamentais para o avanço da historiografia do futebol e os dos seus mais elaborados debates. Isto de forma direta ou não. Flavio de Campos e José Paulo Florenzano são interlocutores fundamentais. Assim como o professor Elias Thomé Saliba, orientador do meu mestrado e banca no doutorado, este que versou sobre as origens do Corinthians Paulista. Mais do que orientador, foi o professor que mostrou como o futebol era um caminho possível e necessário para se conhecer a sociedade brasileira. E isso, entre meados dos anos 1980 e início da década seguinte, contexto no qual, na academia, o futebol não era recebido com muitos aplausos. Existiam temáticas que eram anunciadas como mais urgentes e necessárias. O professor Elias apontou para a legitimidade do futebol como objeto de análise histórica.

Participar dessa banca também significava a possibilidade de interlocução com novidades importantes para o conhecimento do futebol, e dos esportes, em São Paulo, no Brasil, na América do Sul e na Europa. Afinal, o autor da tese, apontou que estudar a história do esporte não pode ser resumido à revelação dos “fatos curiosos”, tão presentes nas obras dos memorialistas, em grande parte jornalistas esportivos.

Em 1992, apresentei a minha dissertação de mestrado. De lá para cá, a condição do futebol na produção acadêmica ganhou uma nova dimensão. Os trabalhos e os especialistas se multiplicaram. A variedade de temas e abordagens impressiona. Mesmo que o futebol esteja muito longe de um esgotamento de análises. Há uma recorrência da construção de leituras mais sofisticadas. É nesse patamar que coloco a tese de Wilson Gambeta, que em 2015 foi publicado pela SESI-SP editora.

Capa do livro A Bola Rolou: o Velódromo Paulista e os espetáculos de futebol, 1895-1916, de autoria de Wilson Gambeta. Foto: Divulgação.

Algumas considerações sobre a tese

Na pesquisa e no texto final, houve uma série de cuidados e o que mais chamou a minha atenção foi a árdua tarefa de “descortinar relações sociais amplas e complexas” no processo de construção de uma história dos esportes urbanos. Assim, para a compreensão dos esportes, em especial do turfe, do ciclismo/automobilismo e do futebol em São Paulo, o Gambeta nos carrega para experiências distantes, especialmente para o Império Britânico. As mais variadas conexões são propostas e referendadas por uma vasta documentação.

Nesse sentido, vale ressaltar, de imediato, algumas ofertas generosas do autor, inclusive no que se refere ao formato da tese/livro.

De saída, a polêmica sobre as origens do futebol no Brasil – Charles Miller, padres jesuítas? – perde a força e a atenção do historiador se dirige para outro patamar, que é a compreensão dos esportes modernos em um contexto urbano paulistano muito particular, de um espaço de desenraizados e deslocados. De um espaço no qual as elites precisavam reafirmar papeis e valores. Dessa forma, supostos marcos de fundação perdem sentido.

Há, como outra oferta, um reconhecimento especial dos memorialistas do futebol e dos esportes. Muitas das informações chegaram a nós por conta do trabalho desses pioneiros, muitos apaixonados pela novidade dos esportes, assim como alguns se mostraram defensores da condição pedagógica dessas atividades. Acreditavam que São Paulo e/ou o Brasil seriam transformados pela atividade física. Seria o caminho da civilização. Ao lado desse reconhecimento, Gambeta mostra a saudável opção de desconfiança das fontes de segunda mão e o privilégio oferecido à imprensa periódica. Inclusive, o autor vai além: há uma desconfiança generalizada sobre os eventos construídos sobre a história do futebol e dos esportes. Desconfiança muito saudável porque permite remover alguns mitos que cercam as origens dos esportes, especialmente, o futebol.

Nesse ponto, ainda uma observação: a ausência de documentos fundamentais relacionados aos primórdios do futebol e dos esportes. Isso dificulta, sobremaneira, o trabalho da pesquisa histórica. Essa é, inclusive, a constatação e denúncia dos primeiros memorialistas, desde 1918. Poucos clubes cuidam da sua memória.

A iconografia, a genealogia dos Silva Prado e a cartografia: também se apresentam como ofertas importantes. Mais do que um deleite, visualizar, por exemplo, a região do Velódromo Paulista, permite dimensionar a rede de relações estabelecidas em torno dos esportes, dos espaços escolares, dos espaços religiosos, dos ricos sobrados e das chácaras urbanas.

Gol do Paulistano, no Velódromo, em 1905, contra o São Paulo Athletic, anulado pelo juiz (pessoa de terno branco rente à trave). Foto: Wikipedia.

Por outro lado, ao optar pelo caminho do “macro ao micro”, o autor oferece uma importante síntese do processo de formação dos esportes em outros espaços. Assim como oferece elementos de comparação. Apresenta as especificidades da cidade de São Paulo em um intenso diálogo com outras experiências. Além da marcante presença inglesa, desvela-se as influências francesa e argentina. Assim, a constituição do futebol em São Paulo derivou de uma multiplicidade de fatores e decorrências, longe de uma mera hegemonia inglesa. Dessa forma, o ponto de partida é a expansão do futebol até chegar ao Velódromo Paulista.

Reconheço também que há ousadia nos problemas propostos:

  • As relações entre as ações individuais e a sociedade em rápida transformação; afinal, a sociedade escravocrata, formalmente ou não, ainda era presente; são necessários espaços exclusivos de sociabilidade; também a transição, talvez mais tranquila, da Monarquia à República;
  • Como a elite paulista, forjada na exploração do café com a mão de obra escrava, associou-se ao exótico futebol, ligado ao espaço urbano;
  • Por que a rápida recepção de São Paulo ao futebol, considerando que o Rio de Janeiro tinha ares cosmopolitas, um pouco diverso do que ocorria na contrário da capital paulista;
  • Qual o sentido da formação dos clubes? Como esses clubes interagiam com as relações familiares, políticas e econômicas? Inclusive, existe um cuidado especial com a formação do Club Atlético Paulistano, que, conforme o autor conclui, não foi fundado para a prática do futebol; essa escolha é posterior, decorrência das elites dirigentes;
  • Como se deram as relações das elites paulistas com os clubes ligados à classe trabalhadora? O caso do Corinthians Paulista é exemplar.
  • Quais as resistências e as acomodações nas relações entre as camadas dominantes e os novos grupos em ascensão, como os estrangeiros e os trabalhadores?

Tal ordem de problemas propostos precisou de um arco grande de temas. Assim, articulou-se esporte, urbanismo, política regional – nacional – internacional, escolas (públicas e privadas) e educação, educação física, clubes esportivos, espetacularização do futebol, identidade paulista, entre outros.

Mais um mérito do trabalho: as origens e os formatos – o espetáculo e o informal, entre outros – do futebol dependeram das decisivas contribuições do turfe, do ciclismo e do automobilismo. Ou seja, o futebol precisa ser compreendido menos na sua teórica autonomia e mais como participante de suposta linha evolutiva. O trabalho mostra o controle e os interesses da elite paulista em cada uma dessas atividades esportivas. A escolha do futebol pode ser atribuída aos efeitos gerados por aqueles esportes. Tratou-se, portanto, de uma escolha deliberada. É a naturalização do futebol. Em uma cidade em rápida transformação, com novos personagens, carregados por novos interesses, não coube outro papel às elites governantes. Era necessário controlar o futebol e os esportes, como se fez necessário controle sobre todo espaço urbano, sobre as classes populares. Nesse sentido, entende-se a construção de escolas públicas bem diferentes das escolas privadas. Aliás, poucas escolas públicas. O cuidado com o esporte coube apenas para uma parcela da população.

Assim, é possível conhecer as estratégias das elites para organizar um espaço urbano e dele excluir a maior parte dos seus moradores. Ao mesmo tempo, há uma leitura interessantíssima acerca do radical processo de transformação da cidade de São Paulo entre o último quartel do século XIX e as duas primeiras décadas do século seguinte.

Discussões e reflexões

A leitura da tese, hoje também livro, provoca questões, principalmente para quem busca entender os primeiros caminhos do futebol.

Em relação ao amadorismo imposto ao futebol de espetáculo em São Paulo, e no Brasil, é fundamental pensar como essa operação foi costurada diante de uma certa profissionalização do turfe e do ciclismo, pois já havia uma cultura de apostas e ganhos materiais relacionadas ao esporte. Diferentemente, características do futebol facilitaram esse processo de ir em direção ao amadorismo. Há, nesse ponto, uma influência decisiva do catolicismo francês.

Vale destacar as relações entre a ausência de políticas públicas para os esportes e a formação de clubes esportivos como o Paulistano. As elites governantes tinham essa estratégia bem definida. Ou sejam, os jogos eram considerados apropriados apenas para os estudantes de escolas particulares.

O time do CA Paulistano campeão de 1905. Foto: Wikipedia.

Há um contexto no qual Gambeta afirma que “é preciso que se evite confundir os futebolistas ingleses com a elite fazendeira paulista”, mostrando como os sócios e jogadores do São Paulo Atletic Club (SPAC) pertenciam a um extrato médio da sociedade, ainda quem de certa forma, reforçando os valores das elites governantes. Houve o cuidado em delimitar os espaços econômicos e culturais desses homens.

Outra questão central: com o fim da escravidão, há um processo que torna as classes proprietárias mais complexas, porque não são apenas paulistas, mas ainda estrangeiros e pessoas de outros estados. Assim, cria-se uma identidade marcada pelo passado indígena/mameluco. Essa identidade será utilizada no futebol por meio de uma polarização: CA Paulistano versus São Paulo AC. Ou seja, os bravos brasileiros contra as nações mais poderosas do mundo. Mas, para a concretização desse embate, foi necessária a ausência de clubes representando as três grandes colônias de São Paulo: portugueses, italianos e espanhóis. Talvez tenha ocorrido uma ação deliberada dos organizadores do futebol em São Paulo.

Ainda sobre esse trabalho, que merece outras tantas incursões, aponto dois destaques: a história do Sport Club Americano, de Santos, que apresenta os primeiros indícios de gestão empresarial no futebol paulista. Tratava-se de um clube autônomo, sem ser um clube social. Mas essa a experiência do clube santista não se tornou modelar. E o quanto a entrada do Sport Club Corinthians Paulista na Liga Paulista de Futebol, em 1913, representou, de fato, um divisor de águas na história do futebol de espetáculos. Leitura obrigatória.

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Plinio Labriola Negreiros

Professor de História Estudo a História do Corinthians Paulista e do Futebol

Como citar

NEGREIROS, Plínio Labriola. A bola rolou: um novo olhar sobre o futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 122, n. 15, 2019.
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