59.1

A construção da autonomia do Esporte – parte 1

O apolitismo das instituições esportivas não é algo que nos impeça de analisar as suas tomadas de posições – que mesmo tentando ser supostamente neutras, são políticas. Essa posição tomada, de se afastar da política e se apresentar como neutra é uma forma de se colocar na esfera pública e traz consequências diversas.

O presente texto visa analisar a forma como o Esporte constrói a sua autonomia social em relação a outras esferas da sociedade. Para isso, toma-se como as análises do sociólogo Jacques Defrance, que constrói a sua teoria tendo por base a noção de Campo de Pierre Bourdieu. Nesse caso, é preciso entender como o Campo do Esporte se relaciona com outros Campos da sociedade (como por exemplo, o Econômico, o Político e o Educacional) e depois entender como eles se estruturam. O estudo fundamentado no conceito de Campo permite-se entender que um objeto específico (seja a Arte ou o Esporte) tem a sua própria história, ritmos e funcionamento – com relativa autonomia em relação ao resto da sociedade. Além disso, é preciso sublinhar que dentro do processo de autonomia há lutas internas no campo esportivo, há disputas de poder e maneiras próprias de estabelecer hierarquias e critérios de valor relativos ao Campo.

O texto estará dividido em duas partes Na primeira parte desse texto, vamos analisar como a autonomia do Campo Esportivo foi sendo construída ao longo da história, e na segunda parte, vamos analisar como esse processo de autonomia é uma posição política.

Em primeiro lugar é preciso esclarecer que a autonomia de um Campo não significa que ele não tenha relação com outro, ou mesmo que natureza dessa relação não possa mudar. A relação entre o Campo Educacional e o Campo do Esporte é um ótimo exemplo a ser pensado. Enquanto ainda eram popularizadas, as práticas esportivas na virada do século XIX para o XX, o esporte foi uma das forças de transformação da Escola, mas ainda eram os valores educacionais que regiam a relação, ou seja, a prática esportiva era vista como uma forma de desenvolver competências pedagógicas ou estimular a formação do caráter. Hoje em dia, as relações entre Esporte e Educação ainda são muito fortes, no entanto, as bases já se modificaram. Atualmente, há uma questão que volta e meia retorna a opinião pública: o esporte deve contribuir para formação de cidadãos, ou a escola deve contribuir para a formação de atletas? Na medida em que o esporte de alto rendimento ganha importância, a tendência é ir mais pela segunda proposição.

Joseph Blatter, presidente da FIFA. Foto: Mowa Press.

A autonomia de um campo é importante, mas relações de forças desiguais são perigosas. Em casos da Política, por exemplo, podemos lembrar como o regime nazista manipulava o Esporte de acordo com os seus interesses, da mesma forma que o contrário nem sempre é bom, como convites a equipes pró-apartheid numa época em que a África do Sul estava banida de competições por causa de sua política de segregação racial.

Até os anos 40 e50 – dependendo dos processos históricos de cada país – era raro ver o esporte como uma finalidade em si mesma. A prática do esporte servia para formar melhores cidadãos, soldados, trabalhadores ou militantes, assim, era comum que cada instituição organizasse as equipes e competições, surgindo times da igreja, da fábrica, dos sindicatos, dentre outros. Nas competições, o objetivo não era ter um certame equilibrado, mas sim o aspecto social, o encontro entre as pessoas, que reforça o laço entre elas.

Então como o Esporte ganha autonomia? Uma das primeiras forças nessa direção é a ideia do amadorismo, pois se defendia que o prazer da prática esportiva era superior a tudo. No entanto, pessoas como o Barão de Coulbertain, dos maiores defensores dos ideais esportivos amadores, acreditava que o Esporte deveria estar associado a outras instituições políticas. Então, foi o profissionalismo que mais impulsionou a autonomia do Campo esportivo. Acreditando no ideal amador de que o esporte estava acima de tudo, os aspirantes ao profissionalismo achavam que isso era de tal forma verdade que defendiam o pagamento para as pessoas que o praticavam o tempo todo.

Assim, aos poucos, o profissionalismo foi conseguindo fazer com que o Esporte se separasse de outras esferas da sociedade. Outra separação foi notada a partir dos clubes. No início, eles ainda eram formados com uma componente social muito forte (grupos de comerciantes, grupos de um bairro, etc.), e na medida em que a sua formação era orientada essencialmente para a prática esportiva, com menos importância de vínculos sociais, a autonomia do Campo foi crescendo.

As primeiras rupturas em direção a uma autonomia do campo esportivo vieram do movimento do amadorismo, mas essa posição muda de acordo com o tempo. Em um primeiro momento, os amadores (jovens burgueses) passam a se organizar para evitar o esporte como forma de militarismos e crenças religiosas, mas de alguma forma ligado às práticas escolares. Quando esses jovens amadores envelhecem e tornam-se os dirigentes esportivos, eles passam a ser confrontados com outra força de autonomização com outros agentes que não eles: o profissionalismo. A partir disso, passam a lutar por uma “conduta de cavalheiros” do esporte, desinteressada do plano econômico, e que aos poucos vai tomando contornos elitistas, reforçando o elo com as vertentes educativas e com o ethos da burguesia e aristocracia.

Podemos notar a partir dos anos 30 duas tendências. De um lado, têm aquelas pessoas que acreditam que o esporte não é uma atividade séria o bastante, que atribui a sua prática a pessoas sem “muito valor” (jogadores, apostadores, etc). O esporte só tido em consideração quando associado a um valor moral mais forte. Do outro lado, temos aqueles que são apaixonados pelo esporte, leem os jornais, que assistem as competições e que falam sempre disso nas conversas – especialmente sobre o futebol. As pessoas associadas a essa visão possuem uma posição de “puristas” e não se interessam tanto pelos aspectos sociais do esporte, nem pelas inclinações políticas (seja direita ou esquerda).

Na medida em que os praticantes de esporte veem as atividades independentes de outras questões podemos dizer que o Campo esportivo está autônomo. Isso não quer dizer que não haja relações com outros – da política e do dinheiro, por exemplo – e que não possamos ver claramente quando um influencia o outro. É cada vez mais presente o debate sobre uma política pública de esporte, numa clara interação entre os dois campos. Nesse diálogo entre os dois Campos é normal que se façam marcações claras de fronteiras, em outras palavras, dizem-se quais são as atribuições e papéis do Esporte e da Política.

O presidente da FIFA, Joseph Blatter, e a presidenta Dilma Rousseff declararam, sob vaias, iniciada oficialmente a Copa das Confederações 2013. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom – Agência Brasil.

De acordo com sua história e com o processo de implementação do esporte, cada país pode ter um nível de autonomia e características específicas do Campo Esportivo. Na França, por exemplo, há muita influência do Estado e da Educação, enquanto nos Estados Unidos a autonomia é muito grande. Normalmente, as reações contrárias à influência do Estado nas instituições esportivas são de organizações que possuem mais dinheiro. Assim, para manter a independência, preferem se manter distantes do poder público, enquanto outras modalidades, que precisam do financiamento estatal, se aproximam.

Nem sempre é o Estado que busca restringir a autonomia do Campo Esportivo. Por vezes, o Estado estimula o desenvolvimento e autonomia do Esporte, e podemos falar até de uma “esportifização” do Campo Político. Na época da Guerra Fria, por exemplo, EUA e URSS desenvolviam as suas modalidades esportivas como forma de expandir a sua ideologia, da mesma forma que hoje podemos ver o Esporte como forma de fazer “soft politics”.

Pegando no caso do futebol que é a modalidade esportiva mais desenvolvida na maioria dos países, o que podemos ver é um alto nível de autonomia em relação a outras esferas da sociedade. Com o crescimento de políticas neoliberais, a concorrência entre as televisões, o dinheiro da venda dos direitos de transmissão permitiu um grande grau de independência do futebol, mas criou mais relações entre o esporte e o setor econômico.

Assim, podemos concluir que falar em autonomia total é impossível quando falamos do Campo Esportivo. Ao analisarmos, o que podemos falar é de forças que puxam mais para autonomia ou para a dependência. Além disso, como processo histórico, tal como foi o caso dos defensores do amadorismo, é possível que em diferentes momentos, diferentes atores acabem direcionando o debate em uma ou outra direção. Uma partida pode acabar no final de noventa minutos, mas o processo histórico não, diferente do que o Fukuyama possa pensar.

 

Texto baseado no artigo “L’autonomisation du champ sportif. 1890-1970.”, escrito por Jacques Defrance e publicado em Sociologie et sociétés, Volume 27, numéro 1, em 1995.

 

Esse texto foi originalmente publicado no blog Versão Beta do Esporte e cedido para publicação nesse espaço.

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Fernando Borges

Formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFRJ, mestre em Comunicação e Jornalismo pela Universidade de Coimbra e doutorando em Comunicação na Universidade Pantheon-Assas, em Paris, fez do esporte – principalmente o futebol – parte importante da sua trajetória profssional, porque acredita que é preciso gostar do que se faz.

Como citar

BORGES, Fernando. A construção da autonomia do Esporte – parte 1. Ludopédio, São Paulo, v. 59, n. 1, 2014.
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