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A Copa Africana de Nações além das Quatro Linhas

Introdução

Desde sua primeira edição no ano de 1957, a Copa Africana de Nações, organizada pela Confederação Africana de Futebol (CAF) nasce com objetivos não apenas competitivos, mas também em busca da concretização do processo de descolonização que muitas nações do continente tiveram após a segunda guerra mundial. Após trinta e três edições realizadas, fica claro que o certame simboliza a relação existente entre as nações africanas, conforme comprovado pela emergência de rivalidades internacionais no continente, mas não somente, uma vez que o torneio também caracteriza o vínculo existente com os países que vieram a colonizá-los em séculos passados.

Afetada pelos movimentos migratórios ocorridos na década de 1980, a Europa veio a lidar com um fenômeno que vem reestruturando toda a sua dinâmica social, a existência de filhos de imigrantes e jovens que vieram pisar em suas terras buscando melhores condições de vida ou até mesmo fugir de guerras em sua terra natal. Tal movimento se reflete de forma clara nas seleções nacionais do velho continente, com países como Portugal, Holanda e França observando uma crescente presença de filhos de imigrantes em suas equipes, distanciando-se paulatinamente do estereótipo nacional já consolidado.

Em virtude destes movimentos migratórios, não é de se estranhar a integração de jogadores com destacada ascendência africana ou naturalizados nas seleções europeias, posto que estes atletas podem ter rica contribuição para o desenvolvimento técnico da equipe, tal qual fazem Antonio Rüdiger e Leroy Sané na Alemanha, William Carvalho em Portugal, dentre outros. Muito reconhecido como uma prática reservada a equipes nacionais da Europa, tal meio de aprimoramento não se restringe somente as tradicionais seleções europeias, uma vez que países africanos vivenciam a integração de atletas europeus em suas seleções nacionais, a partir do reconhecimento de suas nacionalidades (STEIN, 2022). Deste modo, ao dispender um pouco mais de atenção para a edição de 2022 da Copa Africana de Nações, a temática das imigrações ganha considerável destaque, devido a considerável quantidade de estrangeiros atuando na competição.

Os Expatriados na Copa Africana de Nações

Combinado ao movimento já citado, o futebol africano por sua vez acaba se tornando um exemplo claro dos movimentos migratórios existentes no continente, tendo em vista que a lapidação de diversos jogadores que vieram a competir na Copa Africana de Nações ocorreu em território europeu, devido as correntes migratórias destinadas ao velho continente, realizadas na busca de melhores condições de vida. Com cerca de 200 jogadores expatriados em sua competição (correspondendo a 30% dos jogadores inscritos), a formação destes atletas veio a ocorrer por meio daquilo que Melo (2019) vem a chamar de Clubes-satélite, como observado  em países como a França, Espanha, dentre outros.

Apesar da presença mais diversificada de jogadores em seleções europeias não ser algo isolado, tendo como melhor exemplo a equipe portuguesa de 1966 do moçambicano naturalizado português Eusébio, é notório que cada vez mais o futebol africano tenha em seus elencos jogadores do mais alto panteão do futebol internacional. A final da edição de 2022 contou com um embate entre duas seleções permeadas com grandes craques do futebol internacional, como os senegaleses Édouard Mendy, Kalidou Koulibaly e Sadio Mané, já os faraós contaram com o célebre Mohamed Salah.

Com a presença de 12 ex-colônias francesas na última edição da competição realizada em Camarões, a França possui papel de destaque sobre sua influência no futebol africano. Com mais de 110 jogadores nascidos em território francês, dispostos em 13 das 24 seleções participantes, é notória a relação de proximidade existente entre a França e suas antigas colônias, conforme pode ser observado pelo caso da seleção de Comores, que para a última edição do certame, integrou ao seu elenco 26 expatriados com ascendência Comoriana.

Ainda que o caso francês seja uma situação única, em decorrência da sua dimensão, ao observar as principais nacionalidades dos expatriados das seleções africanas, é possível observar dois movimentos demográficos importantes, o primeiro sendo esclarecedor da relação colonial ainda existente entre as nações, como observado no caso francês, inglês e espanhol. Já a segunda movimentação reflete os novos destinos de migrantes e refugiados africanos, que buscam nações com maior destaque econômico e social, como Holanda, Alemanha, Dinamarca e Suécia.

O fato de existirem jogadores como os já citados recheando elencos de seleções ressalta algo que vem a conversar com o ideal inicial da competição, o trabalho de se nacionalizar, somado a um fator primordial, a identidade com o espaço que vem a representar.

Sousa (2007) vem a ressaltar que, tal identificação com uma nacionalidade pode vir por meios físicos, mas principalmente culturais. Logo, tendo em vista que, mesmo com um processo de lapidação e formação como indivíduo sendo feito ao longo de uma carreira realizada na Europa, os jogadores de origem africana acabam por seguir a nação que seus pais e ancestrais tinham como sua, dando assim as seleções africanas e a competição como todo um charme ao mesclar elementos modernos do atual futebol com a cultura, as cores e as características de cada uma das 24 nações presentes na principal competição do continente.

Referências Bibliográficas

DARBY, P. Migração para Portugal de jogadores de futebol africanos: recurso colonial e neocolonial. Análise Social, Lisboa, v.41, n.179, p.417-433, 2006. Acesso em: 10 fev. 2022.

MELO, L. M. S. O futebol africano na Europa: Os casos de Portugal e França como destino migratório de jogadores das suas ex-colônias. Rev. Cadernos de Campo, Araraquara, n. 23, p. 141-167, Dez. 2017

SOUSA, A. A. de. Território e Identidade: Elementos para a identidade territorial. Unesp, 2017. Trabalho Final da disciplina “O espaço, o tempo e o território: uma questão de método”, ministrado pelo Prof. Dr. Marcos Aurélio Saquet. Presidente Prudente. 2007.

STEIN, L. Como a Copa Africana de 2022 nos ensina um pouco mais sobre os fluxos migratórios e a história recente do continente. Trivela, Fev. 2022. Acesso: 8 fev. 2022

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Leandro Luís Lino dos Santos

Bacharel e Licenciado em Geografia pela na Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho - Câmpus de Rio Claro. Atualmente desenvolve pesquisa no nível de Mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGG) da mesma universidade. Desde 2019 investiga o futebol a partir de um prisma geográfico de interpretação, tendo desenvolvido a monografia sob esta relação. É componente do Grupo de Estudos: Mundo Dentro e Fora das 4 Linhas que, no ano de 2020 migrou suas reuniões para o modelo remoto, abarcando discentes de universidades como USP, UFMG, UFTM, e UNESP – Câmpus de Presidente Prudente, em suas reuniões. Na metade do ano de 2020, iniciou a atividade divulgador científico, por intermédio do perfil do grupo de estudos nas mídias sociais, com recente publicação no periódico Le Monde Diplomatique Brasil.

Como citar

SILVA, João Lucas Soares; SANTOS, Leandro Luís Lino dos. A Copa Africana de Nações além das Quatro Linhas. Ludopédio, São Paulo, v. 152, n. 26, 2022.
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