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A Copa do Mundo de 1978: ditadura, futebol e memórias na Argentina

Lucas Barroso 25 de janeiro de 2022
Copa 1978
General Videla entregou a taça do Mundial de 1978 ao capitão Daniel Passarella. Fonte: reprodução

O futebol, enquanto prática esportiva de massas, possui uma capacidade única de gerar emoções e comover nações inteiras. No entanto, mesmo sendo essencialmente popular, o seu uso politizado pode servir ao interesse de grandes grupos políticos. O grande exemplo disso aconteceu em certos contextos de regimes autoritários na América Latina, em que o futebol foi apropriado como produto de parte das chamadas Ditaduras de Segurança Nacional. Sendo assim, entender esse apoderamento proposital é de fundamental importância para compreendermos as múltiplas memórias construídas acerca das relações entre esporte e política no continente.

Partindo dessa temática, como base para o presente texto, utilizaremos o documentário “Memórias do chumbo – o futebol nos tempos do Condor” (2012), que investiga as relações entre o futebol e os setores repressivos dos regimes ditatoriais nas décadas de 1960, 1970 e 1980 nos seguintes países do continente latino-americano: Brasil, Argentina, Chile e Uruguai. Não obstante, para podermos aprofundar nossa análise sobre o período, escolheremos dar um enfoque especial para o contexto argentino, devido a sua especificidade oriunda da realização nacional da Copa do Mundo de 1978 em pleno regime militar. Sendo assim, utilizaremos esse evento futebolístico como marco central e procuraremos entender os objetivos políticos ligados a ele tanto em sua realização quanto em sua propagandeação, o que nos auxiliará a compreender a construção de memórias sobre esse período em questão.

Em 1966, dez anos antes do golpe militar que derrubou Maria Estela Martínez de Perón, a Argentina foi escolhida como sede da Copa do Mundo de 1978. Como salientado por Carvalho (2014), o peronismo pré-ditatorial havia iniciado a preparação para o Mundial vinculando-a ao Ministério de Bem-Estar Social, posto que possuía objetivos políticos ao sediar o evento. Tais interesses se concentravam em apresentar uma boa imagem do novo governo, em meio a tantas crises institucionais e políticas oriundas do falecimento do então presidente Juan Domingo Perón (1895-1974). Com a instauração do regime ditatorial e com a necessidade de sua reafirmação perante a opinião pública, a Junta Militar, composta pelo general Jorge Rafael Videla (1925-2013), pelo almirante Emilio Massera (1925-2010) e pelo brigadeiro Orlando Agostí (1924-1997), intensificou essa preparação, dando tonalidades mais patrióticas a uma “boa execução” do evento.

Durante os anos de preparação militar, a espetacularização do torneio serviu no sentido propagandístico da própria ditadura argentina. Mesmo em meio a disputas internas quanto a importância dele, a Junta Militar garantiu a sua realização e, para isso, investiu massivamente, gerando até casos de superfaturamento e desvios de verba pública. Prescindindo esses escândalos e até as suspeitas de fraude nos resultados por parte do regime, a Copa foi realizada em meio a um clima de forte controle estatal e, por conta disso, serviu ao interesse dos grupos políticos situacionistas. Assim, memórias oficiais foram meticulosamente construídas pelas propagandas do governo para que o fim do evento não representasse exatamente o fim da euforia argentina.

Sobre esse acontecimento histórico, Magalhães (2019) destaca a existência de duas memórias públicas dominantes oriundas das disputas em relação à Copa de 1978. A primeira entende a Copa como “da ditadura” e vê os jogadores, comissão técnica e envolvidos como apoiadores do regime por terem, de alguma forma, contribuído para a midialização dele. Já a segunda analisa a sociedade como resistente e não como vítima, e por conta disso as comemorações da vitória da Copa passam a ser válidas.

Com a realização do torneio e após a vitória emocionante da seleção argentina na prorrogação da final, o regime, a partir do uso das propagandas, conseguiu melhorar momentaneamente sua imagem interna e externa, além de renovar a coesão social e o consenso no país. Como destacado por Magalhães (2019, p. 681), isso foi possível graças aos testemunhos positivos de jornalistas e futebolistas que participaram do evento, além da mobilização popular oriunda das imprensas locais que relacionavam o sucesso futebolístico com o próprio regime ditatorial. Mesmo que futuramente essas memórias fossem questionadas, no período elas serviram como um dos principais alicerces do regime que perdurou até 1983.

Assim, a partir dessa exemplificação histórica, é possível compreender como se dá a construção de memórias dominantes e a apropriação do futebol por regimes militares. Utilizando o contexto argentino e a fatídica Copa do Mundo de 1978, conseguimos induzir tal proposição e conseguimos até imaginar como se dá esse processo em outras localidades da América Latina, claro que respeitando as suas devidas especificidades. Desse modo, seja na Argentina ou no Brasil, no Chile ou no Uruguai, o futebol, quando apropriado pelos grupos dominantes, é desvirtualizado e perde toda a sua essência popular. Assim, o verdadeiro espetáculo desportivo se perde no ar e é encarcerado pelos agentes da repressão.

Referências

CARVALHO, José Eduardo de. “1978, os hermanos também têm vez”. In: ________________. História das Copas. 1.ed. São Paulo: Estadão, 2014.

MAGALHÃES, Lívia Gonçalves. “A Copa do Mundo da ditadura ou da resistência? Comemorações e Disputas de Memória sobre a Argentina de 1978”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 32, n. 68, 2019.

Memórias do Chumbo – O Futebol nos Tempos do Condor. Direção: Lúcio de Castro. Brasil. ESPN Brasil, 2012.

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Como citar

BARROSO, Lucas. A Copa do Mundo de 1978: ditadura, futebol e memórias na Argentina. Ludopédio, São Paulo, v. 151, n. 24, 2022.
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