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A Copa do Mundo é nossa? Futebol e propaganda na Ditadura Civil Militar (1964-1985)

Harian Pires Braga 23 de novembro de 2022

Introdução

Ao longo dos últimos anos, com o avanço de movimentos de cerceamento das liberdades pedagógicas nos mais diferentes níveis de ensino, alguns temas ganharam contornos polêmicos em sala de aula. A polêmica não advém de uma noção positiva de diversidade de opiniões e de construções de contraditórios embasados num pensamento crítico, mas sim num processo de revisionismo histórico sem fundamentação em pesquisas historiográficas e em fontes históricas. Mais do que uma nova visão sobre determinados fatos, esse processo em polemista é uma negação do saber histórico produzido ao longo de décadas, alçando como verdade absoluta, suposições conservadoras e distópicas. Nesse contexto, a Ditadura Civil Militar no Brasil (1964-1985) é recontada como um período mirífico, de um país pujante e sem violações à liberdade e à vida. Como outra face dessa mesma moeda, a crítica ao período ditatorial é desabonadora, vista como “doutrinação”. Essa reação de deslegitimação do conhecimento histórico é perigosa e demanda a cada docente historiador/a que pense em formas de exercer o combate intelectual de modo qualificado, pedagógico, crítico e com embasamento em pesquisas e em fontes.

Um caminho possível para tratar o período no Brasil – e também em outros países sul-americanos – ampliar o escopo de temáticas abordadas, buscando romper com uma história apresentada como sucessão de fatos, datas e nomes de relevância, cortejando apenas aspectos políticos e econômicos. A vida das pessoas possui também dimensões outras de sociabilidade e compreender esses processos não pode se limitar apenas a grandes mecanismos explicativos. Formas de divertimento, de produção artística e manifestações de setores marginalizados são parte fundamental na compreensão de uma história que não se limita apenas a um saber decorativo, mnemônico e descolado das realidades e dos anseios estudantis. O Ensino de História precisa dialogar com as/os estudantes, precisa promover debates e reflexões a partir de variados temas e fontes.

A partir dessas duas reflexões, da necessidade do embate sobres temas polêmicos e de um Ensino de História crítico e reflexivo, proponho neste texto, pensar como trabalhar a Ditadura Civil Militar brasileiro tendo como mote o futebol, mais especificamente a Seleção Brasileira masculina, percebendo não apenas os usos políticos e simbólicos do governo ditatorial, mas também formas de resistência e de percepção da Copa do Mundo de 1970 nos veículos de comunicação da época. Mais do que um debate teórico sobre a questão dos usos políticos do esporte, proponho sugestões de fontes para a sala de aula e uma reflexão sobre o próprio papel do futebol como elemento de identidade nacional ao longo do século XX.

Por que o futebol ?

Essa pergunta pode ser respondida de diferentes formas. No caso do Ensino de História, focando o Ensino Básico, o caminho é justamente perceber que o futebol é uma manifestação de relevância no Brasil, ao longo do século XX, ajudando a compreender diferentes tensões sociais. Isso não significa um processo de generalização do esporte ou da sociedade, tão pouco uma maneira de observar o primeiro como reflexo da segunda, de uma maneira utilitarista. O futebol é uma manifestação que faz parte da sociedade e, portanto, possui disputas próprias em suas lógicas internas, ao mesmo tempo em que apresenta interdependências com outros campos sociais (BOURDIEU, 2003). Por isso, precisa ser percebido em sua complexidade.

Pela forma como o futebol brasileiro desenvolveu-se, é possível pensar questões étnicas, de gênero, de classe social, de pertencimento, de exclusão, de profissionalização, de politização, de violência e de modernidade. Em outras palavras, é uma forma de compreender tensões que formaram – e ainda formam – a sociedade brasileira, com suas desigualdades e opressões. Em minha dissertação de mestrado, afirmei que o futebol no Brasil exerce o papel de um discurso horizontal, ou seja, uma forma de expressão e de comunicação que permite a interlocução entre diferentes grupos sociais (BRAGA, 2015). Assim, sua importância simbólica, mas também material, não pode ser descuidada, ao mesmo tempo em que não deve ser idealizada, como expressão do que é ser brasileiro/a.

Os elementos de identidade nacional que cercam o futebol são escolhas e frutos, eles próprios, de tensões discursivas, o que é fundamental para pensar como elas operam em momentos de exaltação nacional, como o caso da Copa do Mundo de 1970, num regime ditatorial ufanista (SALVADOR & SOARES, 2009). O futebol não define o que é o Brasil, mas é um elemento identitário importante, como é também o carnaval, a música, as festas populares e a alimentação (DAMATTA, 1997). Escolher o futebol como mote para a discussão em sala de aula sobre a Ditadura Civil-Militar é dar voz a uma das muitas representações sociais do país, portanto, ter a possibilidade de discutir o período.

Possibilidades de fonte em sala de aula

Pelo perfil deste texto, as fontes apresentadas aqui são todas imagéticas, com pequenos textos verbais. É possível trabalhar o tema com outras tantas fontes, seja com crônicas e reportagens de época, memórias orais em áudio e vídeo ou mesmo documentários, além, evidente de canções. Qualquer que seja a escolha, é importante que a fonte seja apresentada com rigor, com breve contextualização e com a referências de sua produção. O convite à leitura e ao entendimento do que se está analisando deve passar por um assistência inicial docente, mas, à medida que as/os estudantes compreendem o que está sendo proposto, é salutar que elas e eles atribuam significados, evidente pautados por uma criticidade.

Imagem 1- Reportagem da revista Realidade, dez. 1968. Fonte: REVISTAS ANTIGAS, Nestas esquerdas o Brasil confia #1970. Brasil, 6 jun, 2018. Twitter: @capasderevistas.
Imagem 2 – Reportagem do jornal O Globo, 22 dez. 1970. Fonte: GLOBO, O. Campanha brilhante leva o Brasil ao tri.

Na Imagem 1 temos uma reportagem da revista Realidade, publicada entre abril de 1966 e março de 1976, pela editora paulistana Abril. A revista trazia reportagens de maior fôlego, com uso de fotografias e com um tom irônico, crítico ao regime. No caso do esporte, por vezes, o futebol apareceu com importância, como é o caso da reportagem aqui reproduzida, ainda na preparação para a Copa do Mundo. O interessante na matéria é romper com um dualismo de que ou havia um ufanismo – caso da Imagem 2, do jornal carioca O Globo – ou havia uma denúncia em que o esporte seria alienante.

Se havia, como visto na repercussão de O Globo, no dia seguinte ao tricampeonato mundial, uma associação do sucesso esportivo com o governo, havia também uma cobertura pautada pela ironia, mas também por debates internos da modalidade. Para Faro (1999, p.233): “Encerrada a Copa do Mundo e arrefecido o ânimo bem-humorado inerente às matérias sobre o assunto, Realidade se debruçou sobre uma abordagem mais crítica e humanizada do futebol”. Assim a comparação entre essas duas fontes, mais do que contrastar linhas editoriais, permite que se tenha em voga a complexidade dos discursos sobre o futebol e sobre a seleção masculina de futebol, no auge da Ditadura brasileira.

Imagem 3 – Charge de Ziraldo sobre o tricampeonato. Fonte: ZIRALDO. 1964-1984 20 Anos de Prontidão. Rio de Janeiro: Record, 1984. p.51.
Imagem 4 – Charge de Ziraldo para o Pasquim. Fonte: O Pasquim. Rio de Janeiro n.53, 25-31 jun. 1970, p.6. Hemeroteca da Biblioteca Nacional.
Imagem 5 – Charge de Jaguar para o Pasquim. Fonte: O Pasquim. Rio de Janeiro n.54, 1-8 jul. 1970, p.40. Hemeroteca da Biblioteca Nacional.

Outra importante fonte para se pensar o momento brasileiro e o futebol são as charges, um tipo de fonte que possui grande potencial em sala de aula, seja por seu uso ser comum em diversos contextos pedagógicos, seja por ser uma forma de pensar o momento histórico com suas nuances apresentadas de maneira mais despojada. Para isso, nas Imagens 3, 4 e 5 trago produções do Pasquim, periódico de grande relevância nos anos de 1970 e 1980 e que usava do humor para tecer suas críticas. Nesse contexto, dois importantes chargistas produziram desenhos sobre a conquista do tricampeonato mundial: Ziraldo e Jaguar. Não são apenas críticas ao uso político do futebol, mas uma representação do contraste social vivido, em que a materialidade de carestia convivia com o sentimento de alegria pelo esporte.

Parece necessário reforçar que as duas dimensões convivem e não são necessariamente contraditórias. Ora, para uma população reprimida e numa desigualdade abrupta, o esporte não é uma fuga apenas, mas sim, uma possibilidade de resistência, na medida em que se tem um ruptura, ainda que momentânea, do cotidiano e a criação de diferentes graus de convívio coletivo. Assim, o caminho não é apresentar as charges como críticas ao futebol, mas ao uso político pela Ditadura, em meio a uma forte desigualdade social, combatendo um discurso superficial do esporte como “ópio do povo” e demonstrando diferentes tensões e resistências.

Possibilidades de fonte em sala de aula

A ideia deste texto foi apresentar possibilidades de trabalhos do Ensino de História usando o futebol como mote. Nesse caminho, o esporte não é tratado como uma alienação, mas como possibilidade de criação de significado e também de resistências em meio a um regime ditatorial. O uso criterioso de fontes de época é fundamental e deve balizar os debates em sala de aula, sem incorrer num erro de tratar os diferentes discursos como verdades plenas, mas sim como possibilidades de pensar um determinado momento histórico.

Referências

BLOCH, Marc. Apologia da História. Rio de Janeiro: ed. Zahar, 2001.

BOURDIEU, Pierre. Como é possível ser esportivo? IN: Questões de Sociologia, Lisboa: Fim de Século, 2003.

BRAGA, Harian Pires. A doce recordação do que não vivi: a formação de uma identidade nacional no futebol (1938-1950), 2015, 184f. Dissertação de Mestrado – Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, 2015.

CARR, E. H. O que é História? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis – para uma sociologia do dilema  brasileiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.

FARO, José Salvador. Realidade, 1966-1968. Tempo da reportagem na imprensa brasileira. Porto Alegre: ULBRA e AEG, 1999

NAPOLITANO, Marcos. 1964:  história do  regime militar brasileiro. São Paulo: Contexto, 2014.

SALVADOR, Marco Antonio Santoro; SOARES, Antonio Jorge Gonçalves. A memória da Copa de 70: esquecimentos e lembranças do futebol na construção da identidade nacional. Campinas: Autores Associados, 2009.

SOARES, Antônio Jorge., LOVISOLO, Hugo. R. Futebol: a construção do estilo nacional. RBCE online, Campinas, v. 25, n. 1, set. 2009.

ZAGALO, Mário Lobo. As lições da Copa. Rio de Janeiro: Bloch Editores, 1971.

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Harian Pires Braga

Professor de História na Rede Municipal de Campinas, Mestre em Educação Física e Sociedade pela FEF UNICAMP. Membro do Grupo de Estudos de Futebol da FEF (GEF/FEF) Áreas de pesquisa: Ensino de História; História do Esporte; Sociologia do Esporte.  

Como citar

BRAGA, Harian Pires. A Copa do Mundo é nossa? Futebol e propaganda na Ditadura Civil Militar (1964-1985). Ludopédio, São Paulo, v. 161, n. 23, 2022.
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