19.1

A Dialética de travas

Tadeu dos Santos 5 de janeiro de 2011

Em 1994, a seleção capitaneada por Dunga venceu e, vez mais, repetimos Armando Nogueira pra afirmar que o futebol perdeu. Em toda parte, até naquela pelada disputada no mais caótico campinho ou mesmo na irregularidade do asfalto, todos sempre perseguiram a vitória. Já dissemos antes que a vitória vinha entremeada pelo drible vexatório ou mesmo pelo lençol desmoralizante. Agora não mais. Não havia mais uma nesga de sol sequer a ser desfrutada pela beleza. Importava, apenas e tão somente, vencer e vencer e vencer.

Não nos enxergávamos naquele jeito de se praticar o futebol. A vitória nos diminuiu e a partir de então passou a citada como exemplo de eficiência. Jogar à Alemanha. Sim, eis o escólio a ser colhido em meio à volta olímpica. Somos conterrâneos de Kant, Nietzchie, Marx e nem sabíamos.

A seleção de 1982 tinha a cara da abertura política que então tinha início. Era a redescoberta da crítica, do riso solto, da esperança.

Já em 1994, tivemos o pleno êxito das estatísticas, da submissão aos ditames externos, das privatizações, do fazer política com olhos postos nos números e não no povo.

À saída Vampeta ainda arriscou algumas cambalhotas. Do outro lado, uma nação atônita não via naquele rebento qualquer traço de seu. Hoje ele já conta l6 primaveras. Fala com um indisfarçável sotaque germânico. Ele não é mesmo nosso, mas circula impoluto por aí.

A Copa de 1982 foi realizada na Espanha. Era a 12ª edição e a 1ª a contar com 24 seleções. Todos tinham ainda na memória as imagens estampadas pela Copa anterior realizada na Argentina. Ali mais uma vez foi possível verificar o quanto pode ser nefasta a combinação futebol /política. Aristotelicamente, alguns dirão que a política é onipresente. É verdade. No entanto, os limites tácitos que até então eram observados foram ultrapassados e a produção de resultados passou a dar sustentação ao governo. Nada de novo sob o sol. Colocar a esporte a reboque de interesses políticos (normalmente inconfessáveis) era prática coberta pela poeira do tempo. Nossos hermanos, porém, obtiveram êxito.

Além do conhecidíssimo mascote – o naranjito -, a copa tinha em seu cartaz uma belíssima pintura de Miró. Uma verdadeira obra-de-arte. Ela não seria a única obra-prima que se daria a conhecer naquele Mundial. Havia outra pintada em tons de verde e amarelo. O mestre que manejava os pinceis atendia pelo nome de Telê Santana. Era uma feliz combinação daqueles mestres renascentistas que tinham por costume a entrega à perfeição do traço e a proporcionalidade das formas com aqueles que se davam às abstrações, que não se limitavam a pintar aquilo que se insinuava aos olhos, mas à fantasia, ao onírico.

Foi tamanha a força da beleza presente naquela pintura-seleção que ela passou a ser paradigmática. Foi eleita alvo preferencial dos adoradores do feio, da força bruta, do resultado a qualquer custo. Deixemos, por ora, as analogias de lado e vamos recontar essa história.

O time que fizera a opção preferencial pela beleza sucumbiu ante a eficácia da famosa retranca italiana. O placar foi Itália 3 x 2 Brasil. O passo seguinte foi o lançamento de todas as loas possíveis e imagináveis à competitividade italiana e a consequente condenação do futebol baseado na beleza. Atrelou-se, a partir de então, a beleza à derrota. Em 1986, dar-se-ia um novo insucesso e não fosse a presença de Maradona, a tese do “ser feio é bom demais” teria selado definitivamente a discussão.

Prosseguíamos sem vencer e em 1994 completaríamos 24 anos sem títulos. No entanto, aquela geração capitaneada por Dunga venceu (e o futebol perdeu). Ao contrário da campanha de 1982, na de 1994 foi exibido um futebol à europeia, com forte marcação, ausência de meias e, portanto, criatividade. Vem daí o caráter paradigmático daquela seleção de 1982.

Armando Nogueira afirmou que em 1982 a seleção brasileira perdeu, mas o futebol ganhou. Modestamente, já afirmamos que apenas os que deixaram de enxergar o essencial, a beleza, conseguem achar que perdemos em 1982. Um jogo de futebol é mais do que o placar que estampa ao final.

A seleção de 82. Por Antônio Máximo Medeiros da Rocha.

Falemos dos personagens presentes na pintura do mestre Telê:

Leandro – Estava devidamente habilitado a ocupar todas as posições da defesa. Era um exuberante zagueiro e, certamente, o maior lateral que meus olhos miraram (e como sou grato por isso). Ainda ao berço uma voz se fez ouvir: Vais crescer e em ti se fará morada a categoria. Dito e feito.

Falcão – Era esguio, trazia a cabeça sempre erguida e os olhos postos no céu. Fizera com a bola um pacto vazado em uma cláusula apenas: és minha e eu sou teu. O maravilhoso corta-luz para o missil de Éder e o chute de canhota contra Itália foram duas pinceladas que só os amantes do futebol que se quer arte conseguem atinar o alcance.

Júnior – Nobre representante de uma posição que já conhecera Nílton Santos e Marinho Chagas (bruxa). O 3º gol diante da Argentina poderia ter sido feito por qualquer um dos três. Júnior, com certeza, não se importa em dividir a autoria. Afinal, gol bonito é sempre uma obra aberta.

Sócrates – Era alto e como dava muito trabalho virar o corpo deu ao calcanhar uma atribuição nunca antes imaginada. A um só tempo livrava-o de girar o corpo e surpreendia o adversário. Mas não era um toque qualquer. Era belo. A bola meio que se encaixava nas reentrâncias do pé e daí, livre dos limites impostos pela visão, seguia seu destino.

Zico – Era dele a responsabilidade de vestir a camisa 10 e não foram poucas as comparações. Passou a ser o representante maior de uma geração que jogava bonito mas não ganhava. Tudo isso se agravou no insucesso de 1986. Zico, na realidade, disputou apenas a Copa de 1982. No mundial de 1978, machucou-se no jogo contra a Polônia e no de 1986, voltava de uma longa inatividade. Era craque em todas as acepções que o termo comporta. Exímio cobrador de falta, perfeito nos dribles, preciso nos passes e excelente nas cabeçadas. Amava o futebol e a bola e por isso, dominava com maestria todos os fundamentos ínsitos ao esporte. O amor que diuturnamente lhe dedica a maravilhosa torcida rubro-negra, bem como o respeito que sempre mereceu até mesmo das torcidas rivais seriam mais do que suficientes a redimi-lo das culpas que alguns lhe imputam.

Os tempos eram outros e todos os nossos jogadores, à exceção de Falcão, atuavam no Brasil. Quando retornaram o povo fez questão de mostrar que se derrota houve, ela era daquele tipo que enche de orgulho o derrotado. No fundo, no fundo, havíamos vencido, mas uma miopia coletiva escorada no utilitarismo turvava as vistas ao essencial.

Em 1997 o Estádio Sarriá (palco daquele fatídico Brasil x Itália) foi demolido. Tornara-se um lugar mal assombrado e de triste lembrança. Afastamos dos olhos o que teimosamente ainda nos atazana a mente.

Ah! Quase esqueci alguns dados. A Itália “ganhou” a Copa e a Alemanha foi vice. Mas tudo isso fica à conta dos detalhes. O essencial quase nos escapou, mas o resgate além de urgente é ainda possível.

“Lembro das peladas que disputava na rua em que morava. Duas sandálias marcavam as extremidades do gol e na parte que encimava a cabeça do goleiro tudo se resolvia na base do bom senso e meia hora de acirrada discussão. Nunca julguei necessário perguntar, mas não tenho nenhuma dúvida, de que éramos todos movidos pela vontade de ganhar.

Conto essa apressada, comum e distante história apenas com o intuito de demonstrar que a vitória sempre motivou a todos que correm ou correram atrás de uma bola. Nunca entendi, portanto, que se viesse a chamar esse futebol feio, pessimamente jogado e demasiadamente defensivo de futebol-resultado. Cunharam uma nova expressão pra repetir o que todos sabiam.

Dizem que numa determinada ocasião Platão teria dito a Sócrates:

”Mestre, eu só sei que nada sei.”

Ao que Sócrates teria redarguido:

“Pois então já sabes demais, posto que nem mesmo isso eu sei.

Dito isto, convenhamos que se por resultado estamos todos a falar de vitória, não há, decerto, nada de novo sob o sol. Charles Miller já sabia, os chineses também e não me creio exagerado ao afirmar que até mesmo Lula sabia.

Detenho-me um pouco mais na expressão futebol-resultado e fico tentando esquadrinhá-la para o fim de perceber o que mais há nela. Volto ao passado, rememoro aquelas saudosas peladas e atino para coisas que se encontravam em pé de igualdade com a vitória que, claro, queríamos todos.

Sim! Era a bola por entre as pernas, era o lençol desmoralizante, era o driblar o time adversário inteiro.

Futebol é jogo e como todo e qualquer outro jogo traz em seu bojo um aparato lúdico que, se ausente, o transforma numa coisa inteiramente diversa e sem sentido.

Logo, a lenta construção da expressão futebol-resultado e todos os seus ulteriores desdobramentos tiveram apenas e tão somente a intenção de diminuir a margem de erro, ou seja, tornar a vitória menos duvidosa. Miraram nas estatísticas, nos polpudos contratos. Aos poucos as características ínsitas ao jogo foram relegadas e a coisa toda virou negócio. Um negócio chato pra cacete, é bom que não olvidemo-nos disso.

A expressão (futebol-resultado) mais e mais ganhava espaço. Dela ocupou-se a mídia. Não tardou para que ganhasse teóricos.

Aos poucos que ousavam dizer que o futebol sempre foi jogado com os olhos postos na vitória e que a melhor maneira de se obtê-la (a vitória) era com um bom e potente ataque, lançava-se um olhar de pena e a pecha de saudosista. De nada adiantava dizer que o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, o Flamengo de Zico e o Cruzeiro de Tostão eram times que primavam pela qualidade de seus ataques e que foram times vencedores. Que nada, diziam. Nos dias que correm essas equipes estariam fadadas ao fracasso. Um grande time começa por uma forte defesa.

Rebato esta tecla não para lamentar a vitoria de 1994 (lamento-a profundamente), ou para criticar a era-Dunga (também conhecida por E as Trevas se Fizeram Presentes), mas sim para ressaltar a omissão/ação/permissão da mídia no êxito da construção da máxima de que estamos a tratar. O amigo Antônio Máximo lamenta a crescente mercantilização das coisas. Dentre elas a mais perniciosa ,creio, é a que diz respeito à imprensa.”

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Como citar

SANTOS, Tadeu dos. A Dialética de travas. Ludopédio, São Paulo, v. 19, n. 1, 2011.
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