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A era dos superclubes e as semelhanças com os campeonatos estaduais

Gabriel Said 1 de setembro de 2020

A tendência do futebol moderno é formar superclubes. Muito marcado pelas transformações neoliberais de Thatcher nos anos 1990, o futebol moderno vem tendo cada vez mais claramente características dos tempos capitalistas contemporâneos.

Qualquer um que acompanha futebol sabe o que é um superclube. Esses clubes já começam os campeonatos com uma mão nas taças, sendo só uma questão de tempo até o título se concretizar. Nos campeonatos nacionais isso é ainda mais evidente com Juventus, Bayern de Munique e Paris Saint-Germain. Na Itália, o clube de Turim vem de 9 títulos de liga seguidos além de 4 copas nesse período. Bayern vem de 8 ligas seguidas e 5 copas ganhas no período. Na França, o PSG ganhou a liga 7 vezes nos últimos oito anos, além de ganhar cinco Copas da França e seis copas da liga.

Além de uma clara hegemonia em cada país, outro ponto em comum até este momento entre os três é a relativa falta de sucesso continental; o único campeão europeu foi o Bayern, por duas vezes. Os bávaros são os atuais campeões e título anterior foi justo no ano do primeiro título da sua sequência nacional e após um bicampeonato do Borussia Dortmund na Bundesliga, clube que seria derrotado na final continental de 2013. Curiosamente também, se entre 2013 e 2020 o Bayern ganhou todas as sete ligas, nos sete anos anteriores à temporada 2012/13 o Bayern vencera apenas três vezes. O clube é o maior bicho-papão da Alemanha desde os anos 1970, mas nunca antes fora tão dominante.

Andrea Pirlo, novo treinador da Juventus (Foto: Divulgação/Juventus FC)

Na Itália não é muito diferente. Até 2005, ano do Calciopoli, a Serie A vinha com uma certa alternância de campeões. Em termos de comparação veremos os quinze anteriores ao calciopoli e os quinze anos pós-calciopoli. Entre 1990 e 2004 houveram seis campeões diferentes: Napoli (1), Sampdoria (1), Milan (6), Juventus (5), Lazio (1) e Roma (1). De 2006 até 2020 apenas Internazionale (5), Milan (1) e Juventus (9) ganharam. Curioso perceber também como os campeões pós-calciopoli vêm ganhando seus títulos em sequência, com a Inter dominando entre 2006 e 2010 e a Juventus vencendo tudo após o título solitário do Milan.  

Na França hegemonias são incomuns, mas no século XXI já aconteceram duas vezes de um clube ganhar um tetracampeonato seguido; primeiro com Lyon no inédito heptacampeonato entre 2002-08.  A segunda vez foi com o PSG entre 2013-16. O clube está a caminho de se tornar o único clube a conseguir dois tetras, com o tri entre 2018-20 já garantido. Ganhar um tetracampeonato foi algo que apenas os históricos times do Saint-Étienne dos anos 1960 e o Olympique de Marseille dos anos 1990 haviam conseguido até então. O domínio do clube catari-parisiense só não se concretizou em absurdos oito títulos seguidos graças ao impressionante time do Mônaco da temporada 2016/17.

Superclubes porém, não é um fenômeno apenas destes países. E não pensemos que são os únicos dos seus países; Dortmund, Internazionale e outros são potências claramente mais fortes que os demais clubes em seus países apesar de não ganharem títulos. A constante participação na Liga dos Campeões garante que a diferença continue crescendo. Na Espanha o cenário é absurdo a ponto de existirem três superclubes, mas que apenas dois deles (Barcelona e Real Madrid) sejam candidatos reais aos títulos da liga, enquanto o Atlético de Madrid parece ter um lugar cativo em terceiro lugar, poderoso demais para terminar antes disso, mas não tão poderoso para terminar melhor.

Na Inglaterra o título inesperado do Leicester serviu como argumento de um campeonato mais imprevisível, mas realisticamente aquele título foi mesmo um ponto muito fora da curva. Por um bom tempo a Premier League teve seus diferentes domínios, no século atual estava variando entre Londres e Manchester, mudando apenas a cor de Manchester. Chelsea até recentemente vinha sendo figura carimbada na disputa pelo título com cinco troféus entre 2005 e 2017, mas vale lembrar que nas primeiras vinte e duas edições da era Premier League o Manchester United venceu treze vezes, quase o dobro de títulos de liga que tinha antes (eram 7). Porém, os títulos ingleses passaram a ir para o outro clube da cidade nos últimos anos, com o Manchester City já conseguindo quatro títulos nos últimos nove anos. Pode-se dizer que é normal dois clubes dividirem a hegemonia nacional por um tempo, mas se pensarmos no próprio futebol inglês, o quê a Premier League vem proporcionando é inédito. Para piorar, nos últimos três anos Manchester City e Liverpool (que parecer substituir o Chelsea no domínio) fizeram campanhas ainda melhores do que o Chelsea de Mourinho de 2004/05, chegando a pontuar cerca de 100 pontos e com o Liverpool conseguindo o impensável ao somar 97 pontos e não ser campeão. A impressão destes últimos três anos é que o campeonato inglês está conhecendo sua versão de “espanholização”.


Os superclubes estão pensando em abandonar suas ligas nacionais para criarem uma grande liga europeia – sem rebaixamento para eles, é claro – para assim ganharem ainda mais visão e poder. Vale lembrar que o futebol não é uma indústria lucrativa, os donos desses clubes investem seu capital financeiro na expectativa de ganhar capital político e talvez social em retorno. Uma liga europeia em um mundo globalizado significaria mais ganho de capital político e social ao redor da Europa.


O futebol neoliberal tem estruturas que permitem certas formas de concentração de riqueza. Há concentração financeira a partir de premiações e distribuições de cotas regressivas, ou seja, que se concentram em todas as formas em um seleto grupo de clubes. Não estou falando de premiações feitas pelo rendimento nas competições, onde os clubes que vão melhor recebem premiações melhores. Me refiro às outras premiações feitas, sejam por cotas televisivas ou pelo coeficiente da UEFA, onde mais uma vez vemos os mesmos poucos clubes recebendo quantias assustadoramente superiores aos demais, fazendo os ricos cada vez mais ricos e a desigualdade crescendo em bom ritmo.

Essa concentração de capital gera outras formas de concentração, já a partir dos jogadores. Os superclubes acumulam entre si muitos dos melhores jogadores do mundo a ponto de muitas vezes alguns dos reservas nessas equipes serem tão bons que poderiam ser titulares em qualquer outro grande clube nas principais ligas europeias. Quantos clubes no mundo se dariam ao luxo de pensar em um time titular sem Dembélé, Rakitic, Umtiti e Griezmann, como o Barcelona fez tantas vezes nos últimos meses? Ou gastar fortunas em Coutinho ou Jamez Rodríguez para vê-los ganhando troféus por outros clubes durante empréstimos? Poderíamos seguir pensando em exemplos com os outros superclubes.

A questão é que essa imensa concentração de craques dá a vantagem para essas super potências de uma grande margem de erro em seus campeonatos internos. Vamos ver o Bayern por exemplo: nos anos seguintes da saída de Pep Guardiola do clube, a Bundesliga continuava indo para a Bavária, mas o nível de futebol do time caiu bastante, isso é, até essa última temporada. O PSG até este ano perdia no primeiro mata-mata mais complicado da Champions League, apesar dos títulos nacionais. O mesmo Barcelona estranho e pesado em campo que foi atropelado pelo Bayern terminou em segundo na Espanha, perdendo para o Real Madrid, que foi derrotado com certa facilidade pelo Manchester City.

A situação dos superclubes não é uma novidade para o brasileiro, já acostumado com os campeonatos estaduais. Com tamanha diferença de qualidade técnica entre os clubes mais tradicionais e que jogam com frequência a primeira divisão nacional para aqueles clubes mais fracos – muitas vezes que nem jogam divisão nacional – fica muito difícil avaliar o trabalho do treinador e o nível do time se pensarmos apenas em resultados. A diferença é muito grande.

O absurdo está onde, se para um superclube perder um título de liga ele deve provavelmente ter muitos problemas (afinal, são 34 ou 38 jogos nos campeonatos), devendo também acontecer em um momento oportuno onde um outro clube faça tudo praticamente à perfeição e ainda deve contar com a sorte. O que a Napoli de Sarri quase fez em 2018, Atalanta de Gasperini ameaçou fazer esse ano é algo gigante. Melhor ainda são os feitos do Leicester de Ranieri em 2016, o incrível Mônaco de Leonardo Jardim em 2017 e o formidável Ajax de Erik Ten Hag em 2019 (este sendo na modesta opinião de quem escreve, o melhor time daquele ano).

Não se trata aqui de desmerecer os treinadores nos superclubes. Allegri foi brilhante na Juventus, inegável também a qualidade do trabalho de Klopp, Guardiola, Tuchel, Flick, Luis Enrique e Zidane. Como avaliar isso é mais difícil do que pensar em títulos conquistados. E há o risco de treinadores nestes superclubes se tornarem em certo ponto figuras voltadas mais à midiatização do clube, assim como já ocorre com jogadores, do que qualquer outro tipo de avaliação mais tradicional sobre o papel do técnico.

A Juventus é um bom exemplo para pensar isso. A contratação de Maurizio Sarri parece ser uma contramão à chegada de Cristiano Ronaldo um ano antes. Sarri, conhecido por preferir um futebol de muita pressão de seus atacantes, teria que lidar com um atacante que nunca teve essa disciplina. Alex Ferguson ainda no Manchester United passou a centralizar Ronaldo para não perder a pressão nas pontas. Já Carlo Ancelotti e José Mourinho no Real Madrid encontraram outras alternativas, com o time mais recuado e jogando no contra-ataque. Não podemos dizer que Sarri não encontrou uma alternativa na Juventus, marcando 37 gols em 46 jogos – ou 1 gol a cada 110 minutos. O problema é que isso custou muito caro ao time, que não conseguia ter nenhuma das grandes qualidades que Sarri dá aos seus times. Foi como se o clube de Turim tentasse duas cartadas ao mesmo tempo pela Liga dos Campeões, com cartas que se anulam. Foi o bastante para o título da Serie A, mas só.

A contratação de Pirlo, que chegou a falar algumas vezes ainda como jogador que não pretendia virar treinador, e sua total inexperiência, parece uma tentativa desesperada para ir com tudo no “caminho Cristiano Ronaldo” para ganhar a Europa. Talvez este seja o momento para um novo campeão italiano e a Internazionale pede passagem. Mas pode ser também que mesmo um trabalho razoável de Pirlo seja o bastante para a Juve assegurar mais um título; ou o Pirlo se mostre um grande treinador, apesar de não ter nenhuma experiência.

No final, a tradicional pergunta “Dá pra avaliar um time com base no estadual?”, feita nos primeiros meses do calendário do futebol brasileiro, provavelmente se aplica também para os superclubes durante o ano inteiro, mas com um pequeno ajuste: “como avaliar um superclube?”


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Gabriel Said

Formado em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestrando em Antropologia pela UFF e aluno da Associação de Treinadores do Futebol Argentino (ATFA). Participa do grupo de estudos de Futebol e Cultura, do LEME/UERJ; do grupo de Futebol e Humanidades da Universidade do Futebol e do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Esporte e Sociedade (NEPESS), da UFF. Além de escrever a coluna Danúbio Azul no Ludopédio, também escreve para a Universidade do Futebol. E-mail: [email protected]

Como citar

SAID, Gabriel. A era dos superclubes e as semelhanças com os campeonatos estaduais. Ludopédio, São Paulo, v. 135, n. 4, 2020.
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