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A guerra do Santos: 50 anos de uma viagem histórica – O futebol no campo dos refugiados (parte V)

José Paulo Florenzano 25 de janeiro de 2019

Ao ser declarada a secessão, em 30 de maio de 1967, Biafra abrangia um território de setenta e sete mil quilômetros quadrados e uma população de cerca de quatorze milhões de habitantes. Ao ser assinada a rendição, em 12 de janeiro de 1970, ela estava reduzida a uma área de três mil e oitocentos quilômetros quadrados com cinco milhões de habitantes[1]. Cercada por terra, mar e ar, exausta e faminta, a república separatista finalmente havia entrado em colapso. A Nigéria, desse modo, evitava a ameaça de “balcanização”, mas a um custo exorbitante em vidas humanas, homens, mulheres e crianças mortos não apenas nos campos de batalha, mas, sobretudo, nos campos de refugiados onde o bloqueio imposto pelas forças federais impedia a chegada de alimentos básicos e cuidados médicos.

Aprisionado em algum ponto do arquipélago carcerário, o dramaturgo, poeta e ativista político, Wole Soyinka, expiava a culpa de haver procurado articular, no início do conflito, uma ação conjunta envolvendo intelectuais, artistas e escritores de ambos os lados da fronteira com o objetivo de alcançar um cessar-fogo. Aos olhos do governo militar da Nigéria, a fome se afigurava uma “arma de guerra” legítima, enquanto a simples proposta de paz se desvelava um crime inafiançável[2]. Confinado em regime de solitária, Wole Soyinka não veria a explosão de alegria provocada pela rendição do território “rebelde”.

Com efeito, nas ruas da capital, Lagos, a população “cantava e dançava”, comemorando a vitória das forças federais, exibindo cartazes com a inscrição: “Biafra is dead[3]. No aeroporto de Uli, no campo adversário, o líder militar, Emeka Ojukwu, partia para a segurança do exílio na Costa do Marfim, enquanto a população que o seguira e apoiara agora empreendia uma fuga desesperada em busca de refúgio e abrigo, sob as pesadas chuvas que atingiam a região oriental, impulsionada pelo medo do genocídio, espectro que lhes rondara a existência ao longo de toda a guerra civil:

A retirada de cerca de dois milhões de biafrenses – homens, mulheres e crianças – fugindo em direção às selvas, para evitar um encontro com as tropas federais, foi, na opinião de um correspondente de guerra, a própria visão do inferno.[4]

A visão do inferno se constituía, sem dúvida, numa imagem recorrente evocada nas crônicas ocidentais sobre o continente africano, proporcionada desta feita pelo confronto na Nigéria. Ela abrangia cenas em flagrante contraste entre si, como, por exemplo, a do “colar de cartuchos de metralhadora” do soldado federal e o do “olhar fixo” da criança biafrense, fragmentos dispersos de uma realidade despedaçada pelos interesses internos e externos que se articulavam de forma contraditória à economia do petróleo, ao monopólio do poder, à afirmação nacional, cuja identidade, ao invés de se abrir e expandir na direção do pan-africanismo; recuava e se encrespava na dos particularismos étnicos[5]. Pouco a pouco, porém, o país começava a reemergir do caos. O futebol, de maneira análoga à função desempenhada no período anterior à conquista da independência, voltava a se oferecer como idioma comum aos grupos em conflito, veículo privilegiado capaz de reaproximá-los e convertê-los, de inimigos de guerra em adversários de jogo. De fato, durante o longo impasse que se estabelecera no plano militar, entre maio e outubro de 1969, em alguns setores verificava-se por vezes o “curioso paradoxo” de “partidas de futebol” envolvendo nigerianos e biafrenses[6].

Das pistas de aviação da cidade de Benin onde o time do Santos havia se apresentado, decolavam, à noite, aviões de fabricação soviética, pilotados por mercenários da guerra civil do Congo. A palavra “genocídio” fornecia-lhes a senha para os ataques indiscriminados contra alvos civis nas cidades biafrenses[7]. Lá embaixo, a população buscava escapar da mira dos aviões e sobreviver às sequelas deixadas pela guerra. Em um campo de refugiados, localizado no interior do que restara do sonho de autonomia, cidadãos comuns e soldados anônimos jogavam uma partida de futebol. Com o auxílio de muletas e com o sangue que lhes escorria pelo corpo mutilado, alguns sem a perna direita, outros sem a esquerda, outros, ainda, sem ambas as pernas, eles se esforçavam para superar as próprias deficiências físicas, empenhando-se em alcançar a bola que lhes escapava e os desafia a todo instante a se manterem de pé, o corpo equilibrado, a alma ereta.

A viagem africana do Santos nos revela, dessa maneira, uma história bem diversa daquela propagada pela mitologia alvinegra. Não a do futebol que paralisara a guerra civil, mas a do futebol que brotara dos campos de refugiados, nos jogos dos mutilados, desvelando, nas palavras do poeta, a capacidade do ser humano de “enfrentar e vencer a adversidade”, de não se deixar “definir por ela”, de se recusar em ser “apenas seu agente ou sua vítima”[8].


[1] Cf. “Fome e força vencem Biafra”, O Estado de S. Paulo, 13 de janeiro de 1970. A Nigéria possui um território de novecentos e vinte e três mil, setecentos e sessenta e oito quilômetros quadrados, um dos mais vastos do continente africano.

[2] Cf. “Starvation the weapon”, New York Times, 2 de julho de 1969. Cf. St. Jorre, John de (1972) The Nigerian Civil War. London, Hodden Stoughton, p.244. Cf. “Nigerian poet, in a solitary cell 18 months, is reported to be lll”, New York Times, 8 de junho de 1969. Cf. Achebe, Chinua (2012). There was a country: a personal history of Biafra. New York, Penguin Books, pp.109-110. Wole Soyinka foi preso em agosto de 1967, após retornar de um encontro com Emeka Ojukwu, dirigente da República de Biafra. Ele nunca foi levado a julgamento, sendo transferindo de uma prisão para outra no território nigeriano. Wole Soyinka tornar-se-ia em 1986 o primeiro autor africano a vencer o Prêmio Nobel de Literatura.

[3] Cf. “Lagos comemora sua vitória militar”, O Estado de S. Paulo, 14 de janeiro de 1970.

[4] Cf. “Uma visão do inferno”, O Estado de S. Paulo, 13 de janeiro de 1970.

[5] Cf. “Ascensão e fim de Biafra”, O Estado de S. Paulo, 13 de janeiro de 1970.

[6] St. Jorre, John de (1972) The Nigerian Civil War. London, Hodden Stoughton, p.378. A foto da partida de futebol disputada por soldados biafrenses se encontra na obra do referido autor.

[7] John de St. Jorre, op. cit., p.318.

[8] Chinua Achebe (2012) A educação de uma criança sob o Protetorado Britânico: ensaios. São Paulo, Companhia das Letras, p.31.

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José Paulo Florenzano

Possui graduação em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1994), mestrado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (1997), doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (2003), e pós-doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Doutorado do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é coordenador do curso de Ciências Sociais e professor do departamento de antropologia da PUC-SP, membro do Conselho Consultivo, do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, em São Paulo, membro do Conselho Editorial das Edições Ludens, do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre o Futebol e Modalidades Lúdicas, da Universidade de São Paulo, e participa do Grupo de Estudos de Práticas Culturais Contemporâneas (GEPRACC), do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Tem experiência na área de Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia Urbana, Sociologia do Esporte e História Política do Futebol, campo interdisciplinar no qual analisa a trajetória dos jogadores rebeldes, o desenvolvimento das práticas de liberdade, a significação cultural dos times da diáspora.

Como citar

FLORENZANO, José Paulo. A guerra do Santos: 50 anos de uma viagem histórica – O futebol no campo dos refugiados (parte V). Ludopédio, São Paulo, v. 115, n. 21, 2019.
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