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Organizadas em tempos de pandemia: a hipocrisia das bandeiras

Lucas Giachetto de Araujo 18 de agosto de 2020

O futebol dentro de campo voltou, já tivemos campeões estaduais, rebaixamento e 100 mil mortos, tivemos os totens de papelão assistindo ao rival, caixa de som cantando nas arquibancadas e fogos de artifício ao lado do hospital de campanha. Enquanto os torcedores morrem nos hospitais, sem testes e sem UTIs, trabalhando precarizadamente, dentro de campo o futebol retorna ao “normal”, e nas arquibancadas as organizadas realizam o show que nunca puderam realizar.

Totens de torcedores são-paulinos foram instalados no Morumbi para duelo contra o Mirassol. Foto: Divulgação/SPFC.

O simulacro de futebol visto após a paralisação tem nas arquibancadas algo muito intrigante para quem frequenta os estádios, principalmente no estado de São Paulo: a quantidade de bandeiras presentes nas bancadas. Para cobrir os lugares vazios das arquibancadas, foi permitida a entrada de torcedores para estenderem suas bandeiras e dar um clima de jogo, que, apesar de deixar menos ridícula a volta do futebol, não diminui a hipocrisia de como são tratados os torcedores, principalmente de organizadas, que têm seus materiais, cantos e apoio incondicional sempre bem-vindos, mas que sua presença dentro dos estádios, com os mesmos materiais, cantos e apoio como um inimigo que deve ser expurgado.

A PM de São Paulo junto com Ministério Público e Federação Paulista de Futebol lutam todos os dias para acabar com as organizadas, que, apesar de terem seus erros, são organizações sociais, normalmente frequentadas por jovens periféricos, que no futebol e na torcida conseguem ter um momento de lazer, com a sensação de pertencimento a algo maior, que em outras instâncias a sociedade não possibilita a eles. Essa luta contra as classes mais baixas, chamada também de elitização, fica evidente quando esses torcedores são os que ocupam os lugares mais populares dos estádios, e a imposição de valores mínimos para as entradas (como a FPF faz no Paulistão) dificulta o acesso desses torcedores, já que o valor mínimo é alto, principalmente para um país em que o desemprego e o subemprego só aumentam, em que a desigualdade é cada dia maior.

Arena Corinthians preparada para a primeira partida da final do Campeonato Paulista 2020. Foto: Reprodução/Twitter/Arena Corinthians.

Outra questão é a criminalização das organizadas, que alguns políticos, como um ex-PM e atual senador por São Paulo, querem implementar. Tem o viés de pôr na ilegalidade esses movimentos populares, tratando-os como criminosos e, consequentemente, como pessoas que podem ser eliminadas. Essa criminalização das torcidas organizadas deixa brechas para a criminalização de outros movimentos sociais, além de que, quando postos na ilegalidade, são tratados como inimigos do estado e, assim, passíveis da morte.

Juntamente com esse movimento, a mídia, com seus programas policiais, faz o mesmo processo com as organizadas o que realiza nas periferias, na qual qualquer problema é passada incessantemente, e deixando as pessoas num estado constante de medo, para possibilitar a repressão contra determinados grupos e justificar uma higienização. Para exemplificar, esses programas passam cenas de violência, como um assassinato ou tráfico de drogas, por horas na TV, trazendo uma ideia de que não é seguro viver aqui, sempre atrelando essa violência a determinados grupos sociais, normalmente periféricos, e trazem como solução mais segurança, que é atrelada à polícia e suas operações ostensivas, que sempre resulta em repressão com violência a esses grupos, gerando um clima de insegurança e medo, já que não atinge a raiz do problema. Com as torcidas, é a mesma situação, em que as confusões e brigas são passadas em looping, tem como resposta mais repressão, como proibições a bandeiras e seus símbolos, não atinge a raiz do problema, deixando os torcedores com menos possibilidades de demonstrar sua afeição ao clube, gera uma sensação de insegurança e medo, para justificar mais violência, que tem seu grande horizonte a elitização das arquibancadas.

Allianz Parque enfeitado para a final do Campeonato Paulista 2020. Foto: Robert Nascimento/Reprodução/Twitter.

Por fim, sobra a hipocrisia. Num momento de pandemia, em que federações, mídia e clubes querem a volta do futebol, os cantos entoados nos sistemas de som dos estádios são aqueles entoados pelas organizadas; as centenas de faixas penduradas, as mesmas que não podem entrar normalmente são das organizadas (tem de outros torcedores, mas grande parte são das organizadas); as bandeiras de mastro, que estão proibidas desde 1995, neste momento em que nem deveria ter voltado o futebol, são permitidas e das organizadas; os vídeos promocionais da mesma mídia que massacra e criminaliza esses torcedores são sobre as festas da arquibancada feita pelas organizadas. Enfim, assim como em outros lugares da sociedade, o povo só é bem-vindo quando é para atender aos interesses dos senhores, esses que hoje controlam os clubes e deixam claro: quando vocês compram camisas, empurram o time para evitar rebaixamento e nos dão apoio político, vocês são importantes e precisamos de vocês, mas não levantem suas bandeiras, pois vocês não pertencem a nós; sua festa é bem-vinda, vocês não.


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Lucas Giachetto de Araujo

"Nem gosto tanto de futebol, gosto mesmo é da Ponte Preta!" Bacharel em Educação Física pela Unicamp. Estudante de Mestrado em Educação Físicas e Humanidades na Unicamp.

Como citar

ARAUJO, Lucas Giachetto de. Organizadas em tempos de pandemia: a hipocrisia das bandeiras. Ludopédio, São Paulo, v. 134, n. 40, 2020.
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