147.35

A Hungria de Viktor Orbán e os tentáculos da extrema-direita no futebol

Copa Além da Copa 22 de setembro de 2021

Primeiro-ministro da Hungria desde 2010, Viktor Orbán é um dos líderes da extrema-direita mundial. Fanático por futebol a ponto de quase ter se profissionalizado como jogador, ele é acusado de utilizar o esporte como uma plataforma para defender sua visão de mundo, seja construindo novos e modernos estádios pelo país, seja por ajudar a colocar os principais clubes húngaros nas mãos de seus aliados políticos.

Na mais recente edição da Euro, o campeonato de seleções europeias, demonstrações de nacionalismo, xenofobia, racismo e homofobia na torcida da Hungria chocaram espectadores desavisados. Mas é apenas outra evidência da infiltração de ideais extremistas nas arquibancadas do leste europeu, algo que não é novidade.

Este texto é um complemento ao episódio 43 do podcast Copa Além da Copa, que fala sobre movimentos nazifascistas no atual futebol da Europa oriental. Para ouvi-lo, clique aqui.

Viktor Orbán
Orbán em 2018. Foto: Wikipédia

Hungria: do fascismo ao comunismo

Para entender o que ocorre hoje na Hungria, é preciso voltar um pouco no tempo. Formado em meados do século XIX, o Império Austro-Húngaro foi o segundo maior da Europa até a Primeira Guerra Mundial, quando foi derrotado e se dissolveu. 

No Tratado de Trianon, assinado com os vitoriosos em 1920, o Estado húngaro passou a não mais ter saída para o mar, encolhendo em território e em população: dos 21 milhões de austro-húngaros para cerca de 7,6 milhões de habitantes do novo Estado nacional.

Anos de instabilidade se sucederam, levando a política nacional cada vez mais a se alinhar ao que ocorria na Alemanha e na Itália, com a ascensão de movimentos fascistas, acelerada pela Grande Depressão. 

Com a ajuda da Alemanha nazista, a Hungria, sob comando do militar nacionalista Miklós Horthy, recuperou territórios perdidos em que havia maioria étnica de húngaros, e eventualmente se tornou parte do Eixo em 1940, já com a Segunda Guerra Mundial em andamento. Formalmente ocupado pelos nazistas em 1944, o país foi partícipe no Holocausto, em que cerca de 600 mil judeus húngaros morreram.

Com a derrota do Eixo, a Hungria ficou sob influência soviética, tornando-se um país comunista a partir de 1945. Nesse período, movimentos como a chamada Revolução Húngara de 1956, que reivindicava liberdade política, foram esmagados pela União Soviética, o que deixaria marcas profundas na sociedade húngara.

Revolução Húngara
O símbolo da revolução: a Bandeira da Hungria com o emblema comunista cortado. Foto: Wikipédia

E o futebol?

Esporte mais popular da Hungria, o futebol chegou ao país quando ainda havia a união com a Áustria, mas desde o início se mostrou aglutinador de ideias nacionalistas. Por isso, apesar de serem o mesmo Estado nacional, húngaros e austríacos criaram suas próprias federações, seleções e ligas nacionais bastante cedo – no caso da Hungria, ainda em 1901, um dos campeonatos mais antigos da Europa.

Nas décadas de 10 e 20, o torneio passou a ser dominado por uma rivalidade entre dois clubes: o Ferencváros (por vezes também referido pela sigla FTC) e o MTK. Este último, bastante tradicional, foi fundado ainda em 1888 em Budapeste, sob a sigla que, traduzida do idioma local, quer dizer Círculo dos Ativistas da Ginástica Húngaros. 

O mais importante, porém, é sua origem: seus fundadores eram membros da grande comunidade judaica da cidade, e faziam parte da elite econômica da Áustria-Hungria. O FTC, por sua vez, evocava uma identidade de influência germânica, ligada à classe operária. A rivalidade foi interrompida e, em seguida, ressignificada pela Primeira Guerra.

Após a dissolução da Áustria-Hungria, o futebol acompanhou aos poucos a radicalização da sociedade húngara. E o sucesso do MTK passou a ser visto como o sucesso de um clube estrangeiro, que não representava a verdadeira identidade húngara, mas a judaica. Nesse período entreguerras, o antissemitismo crescente na sociedade encontrou o alvo ideal no MTK  – que chegou a ser proibido de disputar campeonatos em 1940, mesmo já multicampeão e uma das principais equipes húngaras de então.

Ou seja, ideias extremistas e antissemitas já estão presentes no futebol húngaro há muito tempo. Por isso, se saltarmos no tempo e formos para 2013, não deve nos surpreender que, num clássico entre Ferencváros e MTK naquele ano, a torcida do Ferencváros celebrou a figura de László Csatáry, nazista e criminoso de guerra que havia acabado de morrer, envolvido no assassinato de dezenas de milhares de judeus na Segunda Guerra.

O que deveria chocar é que a federação húngara não fez nada para punir a torcida. Mas é algo que atesta o atual estado da política local.

Ferencváros
Torcida do Ferencváros. Foto: Wikipédia

Viktor Orbán: O líder da extrema-direita fanático por futebol

Atual primeiro-ministro húngaro com poderes ditatoriais, Viktor Orbán surgiu como figura de destaque no país ainda no final da década de 1980. Foi um dos fundadores do Fidesz e, em 1988, durante a cerimônia de novo enterro de Imre Nagy e dos demais mártires da Revolução Húngara, fez um discurso clamando por eleições livres e pela saída definitiva das tropas soviéticas do país.

O Fidesz não tinha inicialmente o mesmo caráter de extrema-direita que hoje e se radicalizou com o passar do tempo. Foi Orbán o responsável pela guinada conservadora do partido, o que fez com que ele se rachasse. Após idas e vindas no decorrer dos anos 1990, o político chegou ao cargo de primeiro-ministro pela primeira vez em 1998.

O fanatismo de Orbán por futebol sempre foi notório: ele diz assistir a até seis partidas por dia, tentou ser jogador profissional e nunca deixou de ver uma final de Copa do Mundo ou de Champions League in loco desde que alcançou a proeminência política. E se até mesmo políticos que não se interessam tanto pelo esporte sabem do enorme potencial para mover as massas que ele possui, um líder tão fanático jamais perderia qualquer oportunidade de explorá-lo em cada uma das suas facetas.

Vale mencionar que Orbán não está no poder desde 1998: foi derrotado em 2002 e agiu como líder da oposição em 2010, quando reassumiu o cargo de primeiro-ministro e passou a trabalhar fortemente em sua escalada autoritária.

Viktor Orbán
Orbán com Vladimir Putin em 2016. Foto: Wikipédia

Puskás Akadémia: Um clube para o ditador

Em 2005, o Puskás Akadémia surgiu com modestas ambições: servir como categoria de base e prospector de talentos para o Fehervar FC, que depois se tornou Videoton e agora é Fehervar novamente, o maior clube da região de Fehér. Porém havia uma peculiaridade: esse novo time fora fundado em Felcsút, pequena vila de menos de 2 mil habitantes e terra natal de Viktor Orbán.

Desenvolver Felcsút sempre foi um projeto paralelo de Orbán. Desde que ele voltou ao poder, em 2010, começou a facilitar a construção de vários prédios e obras de infraestrutura na vila. Chegou até lá uma moderna estação de trem, por exemplo. O Puskás Akadémia, é claro, não ficaria de fora: fazê-lo grande seria unir o útil ao agradável.

O dono do Puskás Akadémia é Lorinc Mészáros, amigo de infância de Orbán que se tornou um dos homens mais ricos da Hungria na última década – e prefeito de Felcsút pelo Fidesz.

Em 2014, foi concluída a construção da Pancho Arena, moderníssimo estádio que é o lar do Puskás Akadémia. A capacidade é de 3900 pessoas, o dobro da população da vila. Lá, todos os principais magnatas húngaros possuem camarotes. É considerado o lugar mais fácil do país para se encontrar Viktor Orbán, uma vez que ele raramente perde uma partida do clube como mandante.

É fundamental notar que não apenas o Puskás Akadémia, que vem em franca ascensão e chegou ao vice-campeonato nacional na última temporada, possui como dono um aliado próximo de Viktor Orbán: o mesmo vale para diversos outros, como o próprio Fehérvár, que é do magnata da construção civil István Garancsi, e o Ferencváros, presidido pelo deputado Gábor Kubatov, um dos políticos mais próximos do primeiro-ministro. O mais curioso é que todos possuem camarotes na Pancho Arena.

Puskás Akadémia
Puskás Akadémia. Foto: PAFC-FTC -78/Flickr

Brigada Cárpata: Ultras por trás do show de horrores na Eurocopa

A Hungria foi uma das seleções que pôde mandar suas partidas da primeira fase da última Eurocopa em casa e com estádio lotado. Além do show ultranacionalista promovido por Orbán nos jogos, chamou a atenção a atuação de um grupo específico de ultras que vestia camisas negras e fazia saudações nazistas, além de ser investigado pela UEFA por ofensas racistas e homofóbicas aos jogadores de Portugal e França. Tal grupo tem nome: Brigada Cárpata.

Não existe nenhuma prova que ligue a Brigada a Orbán, mas o primeiro-ministro também nunca tomou atitudes para desautorizá-la e nunca criticou seus atos. Afinal, há claro alinhamento de bandeiras.

A Brigada Cárpata é um grupo guarda-chuva: abriga os ultras mais violentos e mais ligados à extrema-direita dos principais clubes do país, só que para torcer para a seleção. Já havia deixado sua marca na Euro de 2016, o retorno da Hungria a uma grande competição depois de tanto tempo, com atos homofóbicos nas ruas francesas.

Brigada Cárpata
A Brigada Cárpata é uma junção de ultras de extrema-direita dos principais clubes húngaros, sobretudo o Green Monster, do Ferencváros. Foto: reprodução redes sociais

Até mesmo a mídia elogiou as demonstrações patrióticas e nacionalistas vistas na Puskás Arena durante a Euro 2020. Especialmente na estreia, contra Portugal, um mosaico enorme com os dizeres “brilhe novamente em sua gloriosa luz, Hungria” foi exibido e, após o apito final, os atletas se alinharam junto à torcida para cantar o hino nacional. A propaganda política de Orbán era clara e a UEFA permitiu ser plataforma para o fascismo.

Viktor Orbán é hoje o dono do futebol húngaro em todos os seus pedacinhos. E sabe como ninguém o potencial do esporte, inclusive, para expandir a sua plataforma de extrema-direita por todo o leste europeu: Lorinc Mészáros já é dono também do NK Osijek, da Croácia, e 58,5 milhões de euros em dinheiro dos contribuintes foram usados pelo primeiro-ministro para financiar projetos de desenvolvimento de categorias de base na Romênia, na Eslováquia e na Sérvia. É um monstro com mais e maiores tentáculos a cada dia.

Seja um dos 27 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Copa Além da Copa

Perfil oficial do Podcast Copa Além da Copa. A história, a geopolítica, a cultura e a arte que envolvem o mundo dos esportes.

Como citar

COPA, Copa Além da. A Hungria de Viktor Orbán e os tentáculos da extrema-direita no futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 147, n. 35, 2021.
Leia também:
  • 147.48

    Ep. 2 – Na boca do túnel | Indiscutível, é?

    Guilherme Trucco, Raul Andreucci
  • 147.47

    “Se juega como se vive”: o futebol colombiano nos anos 90

    Fabio Perina
  • 147.46

    A Superliga Europeia: O clube de exclusividade do futebol europeu e as suas implicações territoriais

    Amanda Trovó, Leandro Luís Lino dos Santos, Jonathan Ferreira, João Paulo Rosalin