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A melancolia palmeirense em 2019

Gustavo Bonini Castellana 12 de dezembro de 2019

Assim como há exatos 10 anos, quando o Palmeiras terminava o Campeonato Brasileiro na quinta posição após liderar o campeonato até as ultimas 10 rodadas, novamente o clube deixa a taça nas mãos flamenguistas. Mas não somente o título rubro negro remete a 2009. Mesmo que a derrocada do primo palestrino Cruzeiro tenha ofuscado, não há dúvidas de que o final de 2019 foi tão melancólico para o palmeirense quanto em 2009. Naquele ano, o Palmeiras não só perdeu o título e a vaga na Libertadores após inúmeras rodadas na primeira posição como deu sinais visíveis e televisionados do clima emocional que domina o clube nestes momentos de tensão. Quem não se lembra dos jogadores Obina e Mauricio sendo demitidos pelo vice-presidente Gilberto Cipullo ainda nos vestiários após discussão transmitida ao vivo no intervalo de jogo?

Desta vez, toda a comissão técnica, que acumulava perto de 80% de aproveitamento quando ainda brigava pelo título, foi toda demitida após a derrota para o Flamengo no primeiro turno. Vale lembrar que antes de Mano Menezes era Felipão que acumulava um excelente desempenho até a pausa para a Copa América, mas foi demitido após a queda de rendimento e eliminação na Libertadores.

Em 2009, foi Muricy que não conseguiu levar o Palmeiras ao título apesar de estar com a taça na mão a poucas rodadas do final, com um grande elenco também naquela ocasião. Mas este mesmo técnico foi campeão em outros clubes em 2006, 2007, 2008 e 2010. Será que o problema são mesmo os técnicos? Ou haveria um clima negativo que domina o clube e atrapalha o desempenho dos técnicos e dos jogadores em momentos de maior pressão?

A melancolia é aquele sentimento de ter deixado algo no passado que nos faz falta no presente, de ter vivido algo melhor do que temos hoje. Quem já foi à Itália se lembrará da nostalgia que parece habitar a cidade, que ostenta seus símbolos históricos de glória em meio a um presente marcado por crises e degradação.

É o mesmo clima que parece habitar os jogos do Palmeiras, a despeito das conquistas importante em termos de gestão e desempenho dos últimos anos. Seja na nova e moderna arena ou no velho Parque Antartica a ameaça do fracasso parece congelar torcedores e jogadores em momentos de pressão no clube. É curioso notar que este clima domina o estádio seja quando o time lutando para não cair para a segunda divisão, seja quando está lutando para ser campeão – o espectro tensional do palmeirense é extenso.

Em outro texto defendi que o Palmeiras precisava de alguém com características fortes de personalidade que pudesse blindar os jogadores deste ambiente negativo que parece dominar o clube em momentos de tensão, e naquela época só Felipão apresentava estas características. Justamente ele foi contratado alguns meses depois e foi campeão da Copa do Brasil em 2012, mas deixou o clube em novo momento de grande tensão com a ameaça de rebaixamento no Brasileirão, que se concretizou em seguida.

Entre 2018 e 2019, Felipão comandou o Palmeiras em 77 jogos, com 46 vitórias, 21 empates e 10 derrotas. Foto: Cesar Greco/Ag. Palmeiras/Divulgação.

Agora, em 2019, o Palmeiras não lutava contra o rebaixamento, mas pelo título nacional em um ano que ficou bastante próximo das finais da Libertadores. Mas o clima no clube parece ser sempre o mesmo: a ameaça do fracasso iminente cria o ambiente propício para decisões intempestivas e irracionais na contratação e na demissão dos técnicos.

O ex-presidente Paulo Nobre também apresentava características de personalidade que fizeram diferença na autoestima do clube. Com seu estilo independente e autoconfiante em suas posições (financeiramente, inclusive) Nobre parecia trazer o clube uma boa dose de confiança que fazia bem aos técnicos e jogadores que por ali passaram nos últimos anos.

No momento atual, a presença onipotente de uma empresa que coloca o presidente em segundo plano traz uma pressão a mais pelos títulos e resultados que não se confirmaram neste ano. Nessas horas, as glórias do passado, que tanto orgulham o palmeirense, não garantem o sucesso no futuro, e o clima melancólico domina o clube, atrapalhando na tomada de decisões em momentos chave da temporada.

Seguindo ainda os preceitos de Hipócrates, o tratamento indicado para este caso seria a busca de um maior equilíbrio entre os humores. Em outros termos, o clube precisa equilibrar o peso do passado com os avanços do presente, e planejar seu futuro levando em conta essas características no planejamento e tomada de decisões na contratação da equipe técnica.

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Como citar

CASTELLANA, Gustavo Bonini. A melancolia palmeirense em 2019. Ludopédio, São Paulo, v. 126, n. 13, 2019.
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