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A missão da seleção francesa: jogar pela França, lutar pela nação

Gianluca Florenzano 23 de junho de 2024

Verdadeiros ídolos do esporte não se formam apenas pelas suas performances dentro das quadras e campos. Longe disso, são formados também por suas posturas sociais fora das arenas esportivas e pelo legado que procuram deixar para as gerações futuras.

Ao que tudo indica, Kylian Mbappé irá trilhar este caminho. Em uma entrevista coletiva durante a Eurocopa, a segunda competição de seleções mais assistida do planeta, ficando atrás somente da Copa do Mundo, o jovem atacante francês fez um chamado ao seu povo e demonstrou que lutará com unhas e dentes pelo seu país.

Kylian Mbappé
Fonte: Wikipedia

Seu chamado, no entanto, nada tem a ver com o futebol e sua luta se dará fora dos gramados. Mbappé convocou os franceses, especialmente os jovens, para participar ativamente das eleições que estão por vir e frear o avanço da extrema-direita na França.

O último pleito do Parlamento Europeu revelou um cenário preocupante para o campo progressista. A extrema-direita, liderada pelo partido de Marine Le Pen, o Reagrupamento Nacional (RN), antigo Front National (FN), ganhou ainda mais poder, alertando a todos que defendem os valores democráticos da Europa.

Diante disso, o presidente Emmanuel Macron dissolveu o Parlamento francês e antecipou as eleições legislativas. Uma manobra arriscada. Macron aposta em uma rápida mobilização popular, sobretudo dos setores progressistas, para conter o avanço reacionário e impedir que uma agenda ultraconservadora, que geraria retrocessos nas políticas de imigração, direitos humanos e integração europeia, seja implementada.

Não é de hoje, contudo, que as forças de extrema-direita vem conquistando espaço entre os franceses. Desde que assumiu o comando do RN, Marine Le Pen transformou a organização, colocando-a como uma verdadeira potência eleitoral.

O RN continua a levantar suas bandeiras tradicionais, com ideias nacionalistas e ultraconservadoras sendo a força motriz do partido, especialmente no que diz respeito ao controle da imigração. Em discursos de seus líderes, particularmente de Marine Le Pen, fica claro que, na visão da agremiação, um dos inimigos a ser combatido são os imigrantes, principalmente os muçulmanos, considerados, sem distinção alguma, como potenciais terroristas.

Dessa maneira, explorando o medo e a angústia de uma parcela significativa da população francesa, que se sente ameaçada pelo processo de globalização, tanto em termos econômicos como a perda de empregos, quanto em termos culturais relacionados à suposta perda da identidade nacional, a pauta anti-imigração vem conquistando cada vez mais adeptos.

Mais do que isso, o RN repaginou sua imagem e discurso, buscando expandir sua base eleitoral para além dos tradicionais votantes de extrema-direita. Se antigamente, devido a sua retórica bélica, caracterizada pelas falas polêmicas de Le Pen pai, o partido era visto como a antítese da democracia, afastando eleitores mais de centro-direita, agora, sob o comando de Marine, a agremiação tenta mudar o jogo.

Em diversos momentos, embora a sua agenda política aponte para uma direção contrária, a atual líder procura posicionar o RN como um defensor dos princípios democráticos. Na verdade, basicamente a nova estratégia de comunicação do partido consiste em rebater as acusações imputadas pelos seus opositores, criando a narrativa de que seriam seus adversários políticos, muitas vezes retratados como inimigos da nação, os que seriam antidemocráticos.

Assim, investindo no medo e na angústia de parte dos franceses e com seu discurso travestido de democrático, ao longo dos anos, o partido tem conseguido ampliar seu leque de votantes. Não à toa, Marine já bateu na trave para assumir a presidência da França.

Marine Le Pen
Campanha presidencial de Marine Le Pen em 2017. Fonte: Wikipedia

Uma extrema-direita fortalecida no Parlamento Europeu e com grandes chances de aumentar seu poder no Parlamento francês pode ser o impulso necessário para que ela conquiste o tão sonhado comando do país.

Consciente de que a vitória de Marine Le Pen representaria um retrocesso, além de Mbappé, Marcus Thuram também se posicionou para mobilizar o povo francês nas próximas eleições.

Marcus, filho de um dos melhores zagueiros franceses de todos os tempos, Lilian Thuram, importante salientar, segue os passos do legado de seu pai, demonstrando tanto enorme habilidade dentro de campo quanto ativismo fora dele, especialmente na luta antirracista.

Mbappé e Marcus compreendem que seus papéis vão além do campo. Eles sabem que têm a responsabilidade de inspirar as próximas gerações não apenas a serem grandes jogadores, mas também a se tornarem cidadãos conscientes e engajados. Ao fazerem isso, eles se estabelecem como verdadeiros líderes em um momento crítico pelo qual a França e o mundo estão passando.

Portanto, nesta Eurocopa, muito mais do que levantar a taça, a seleção francesa, ou ao menos os jogadores que se identificam com os valores progressistas, têm uma clara missão pela frente que pode selar o futuro de sua nação: conquistar os corações dos franceses dentro e fora de campo.

Resta saber se conseguirão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Ludopédio.
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Gianluca Florenzano

Escritor, mestre em ciências sociais, jornalista e pesquisador. Autor do livro "O jogo das ruas: movimento de atletas contra o racismo". Formado no curso de mestrado em Ciências Sociais pela PUC-SP em 2023 e no curso de jornalismo também na PUC-SP em 2019. Apaixonado por esportes e pela arte de escrever e ler.

Como citar

FLORENZANO, Gianluca. A missão da seleção francesa: jogar pela França, lutar pela nação. Ludopédio, São Paulo, v. 180, n. 23, 2024.
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