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A palavra é de prata, o silêncio é de ouro

Lúcio Humberto Saretta 14 de outubro de 2021

Na vida, amiúde somos induzidos à palavra. No afã das ruas e das redes sociais, onde números determinam o sucesso de alguém, quanto mais postagens e conteúdo produzido melhor. No pátio do colégio, se você for um tímido, do tipo introvertido e quieto, talvez seja visto com desdém pela maioria da turma.

Se entendermos a palavra como uma espécie de arma ou golpe, veremos que essa lógica vale também para o boxe. Na hora da verdade sobre o ringue, é preciso acertar socos no queixo ou no estômago do rival, e quanto mais agressiva for a atitude do lutador mais chances de vitória ele terá. Entretanto, essa lógica abre espaço a um contraponto interessante e necessário.

Willie Pep
Willie Pep. Foto: Wikipédia

Permitam-me resgatar o caso do campeão dos pesos-pena Willie Pep. Além de infligir vários nocautes, Pep ficou famoso por ser um exímio “esquiva”. Em 1946, Pep enfrentou Jackie Graves em Minneapolis. Segundo Pep, antes de nocautear Graves ele teria passado um assalto inteiro apenas bailando e fintando sobre o ringue. Imaginemos por um instante a silhueta esquálida de Pep evitando impassivelmente os socos de Graves, ganchos e cruzados passando a centímetros do alvo. A postura científica e algo poética de Pep acabou desmoralizando o rival, e, embora não tenha aplicado nenhum golpe, ele foi declarado pelos juízes como vencedor do assalto.

A controvérsia em torno do episódio sobrevive até os dias de hoje. Para alguns, tudo não passa de uma lorota ardilosamente construída por Pep. O fato é que até mesmo o renomado jornalista Bert Sugar reverberou a história em livro, e a cada dia que passa parece mais difícil precisar o que houve realmente.

Boxeadores de outras eras e pesos, como Wilfred Benitez e Pernell Whitaker, também ficaram famosos pelo seu estilo defensivo. As lutas desses corajosos e ágeis indivíduos eram garantia de espetáculo, uma mistura de comédia e tragédia iminente, o atônito agressor buscando em vão acertar o rival que dança e foge com maestria.

Contudo, ao lembrar de grandes boxeadores defensivos, não podemos esquecer de Nicolino Locche. Durante a década de 1960, Nicolino arrastou multidões ao lendário Luna Park, espécie de meca do boxe argentino, em Buenos Aires. É sábado à noite, e Nicolino senta no banquinho colocado por seu treinador no canto do ringue no intervalo entre os assaltos. Apesar de ofegante, “El Intocable” não dispensa uma tragada no cigarro amigo. Quando soa o gongo, o audaz lutador descortina o seu repertório de fintas desconcertantes, oferecendo o rosto de grossas sobrancelhas e precoce calva ao rival.

Nicolino Locche
Nicolino Locche. Foto: Wikipédia

Esse verdadeiro mestre dos reflexos, fumante compulsivo, era na verdade um talento atávico, alguém mais boêmio do que propriamente atleta. Para o jornalista Victor Hugo Morales, Nicolino era o espelho do artista que repousa sob a pele do povo argentino, algo que Carlos Monzón, por exemplo, não representava tão nitidamente. Embora sem ter alcançado a mesma hierarquia que Monzón no âmbito do boxe internacional, Nicolino atravessou mares e montanhas até amealhar o cinturão mundial da categoria meio-médio ligeiro. O combate contra o havaiano Pauli Fuji, em Tóquio, no ano de 1968, permanece como o ponto alto da trajetória de Nicolino.

Após defender o título por cinco vezes, uma delas contra o brasileiro João Henrique, em 1972 Nicolino perdeu o cinturão para o panamenho Alfonso Frazier. O fim estava próximo, e em 1976 Nicolino sobe ao ringue pela última vez. Nos seus dias dourados, Nicolino havia sido uma espécie de sombra, um ser etéreo que os rivais perseguiam inutilmente no espaço diminuto do tablado. Agora, com a ascensão dos militares ao poder, sombras de outra natureza pairavam densas sobre as ruas, e as exibições de Nicolino passaram a ser apenas uma saudade distante.

Tal como Willie Pep, Nicolino tinha ascendência italiana. É provável que ele tenha ouvido alguma vez o provérbio “la parola è d’argento, il silenzio è d’oro”. E foi assim, através de silêncios e de uma estranha passividade sobre o ringue, que Nicolino escreveu o seu nome na história, cativando corações ávidos pelo drama e pela beleza do boxe.

“El Intocable” faleceu em 2005, aos 66 anos, em Mendoza, sua terra natal.

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Lúcio Humberto Saretta

Autor dos livros "Alicate contra diamante", "Crônicas douradas", "Lições da barbearia", "O louco no espelho" e "O cão e o violão".

Como citar

SARETTA, Lúcio Humberto. A palavra é de prata, o silêncio é de ouro. Ludopédio, São Paulo, v. 148, n. 23, 2021.
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