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A partida da paz – Irã e Estados Unidos juntos em uma Copa do Mundo

A Copa do Mundo sempre atraiu os olhares do mundo, muito por conta dos seus craques dentro de campo, mas também por representar situações geopolíticas tensas além das quatro linhas. Os exemplos são vastos: a Itália de Mussolini, o jogo entre as duas Alemanhas, na Copa de 1974, a campeã Argentina jogando em casa em plena ditadura de Jorge Videla.

Deu para perceber que existem histórias para todos os gostos. Porém, eu preferi contar o fato que aconteceu na Copa de 1998 – por sinal, o ano que nasci – na partida entre E.U.A e Irã, válida pelo grupo F. Quando o sorteio mostrou que os dois se enfrentariam dentro de campo, os dirigentes da FIFA ficaram preocupados.

E essa preocupação tinha uma lógica compreensível pelo que tinha acontecido há quase 20 anos. Numa revolução que até hoje os efeitos vigora na sociedade iraniana. Por isso, uma explicação rápida.

Revolução Islâmica (1979)

No ano de 1979, o Irã era governado por um monarquista – que era denominado de “Xá”- chamado Reza Pahlavi e tinha uma aproximação muito grande com o ocidente, principalmente pelos Estados Unidos.

No entanto, o monarquista fez uma série de reformas que atrapalharam o desenvolvimento social do país. Ao mesmo tempo que acelerou o abismo social entre a população.

Por conta disso, o político tinha uma oposição grande do Aiatolá Khomeini – uma personalidade que defendia os valores islâmicos atrelados à política local.

Depois de muitas revoltas, protestos, uma forte crise econômica arrefeceu os ânimos sociais. Xá Reza Pahlavi então se exilou. E com apoio de vários setores, o Aiatolá Khomeini conseguiu chegar ao poder e impôs uma teocracia com os valores islâmicos.

Isso em plena guerra fria gerou muitas dúvidas sobre o novo papel do Irã no mundo bipolar. Porém, um episódio diplomático foi o estopim para a quebra da relação entre os dois países: a crise dos reféns americanos no Teerã, em 1979.

Quando estudantes iranianos radicais – simpatizantes do novo regime imposto – fizeram de reféns 52 norte-americanos na embaixada americana durante 444 dias. Depois de soltos, os Estados Unidos viram como inimigos o país do Oriente Médio.

O Jogo

A partida aconteceu no dia 21 de junho de 1998, no Estade de Gerland, em Lyon, pela segunda fase do torneio. As duas equipes eram as mais fracas do grupo, já que dividiam com a tradicionalíssima Alemanha e a forte seleção da Iugoslávia. Ou seja, a chance de conseguir sair da França com pontos somados era nesse confronto direto.

No entanto, era impossível esse certame ficar apenas no campo, sendo que a diplomacia entre o oriente e o ocidente estava muito abalada, os ânimos à flor da pele – por conta do apoio norte-americano ao Iraque na guerra Irã e Iraque -, e a ideia de perda de controle parecia iminente. Só que ao invés de agressividade vimos paz e respeito.

O governo iraniano queria que os jogadores entrassem numa guerra em campo, todavia, os atletas persas eram contra as atitudes do regime ditatorial do Aiatolá Khamenei. O detalhe é que em 1984, o capitão Habib Khabiri foi morto por ser supostamente um informante do ocidente. Esse incidente fez muitos dos jogadores usarem a Copa para ir na contramão do regime.

Os asiáticos entraram com flores na mão e entregaram para os americanos, que aceitaram. A foto oficial dessa partida histórica foi a união dos jogadores persas com os ianques, juntos. Reflexo inverso do que acontece até hoje entre as nações.

Estados Unidos e Irã 1998
Irã e Estados Unidos na Copa de 1998.

A confraternização vista antes do espetáculo foi a maior prova de que o esporte tem o poder de apaziguar relações tão problemáticas na diplomacia. Nas arquibancadas as duas torcidas estavam assistindo juntas, em alguns casos até houve troca de bandeiras. A solidariedade venceu a tensão, no Stade de Gerland.

Voltando ao jogo, os persas começaram melhor, atacando mais, mas o que se observou foi uma partida alegre e sem brilho tecnicamente, apesar do esforço dos jogadores durante os noventa minutos. A principal atração americana foi o goleiro Kasey Keller. Com ótimas intervenções, ele parou o ímpeto persa. Só que no final do primeiro tempo, o atacante iraniano Estili subiu mais que todo mundo e assinalou o primeiro gol.

No segundo tempo, os ianques acordaram e foram para a ofensiva, tentando igualar as forças dentro das quatro linhas. Então, apareceu o goleiro iraniano Reza Abedzadeh, mostrando grande reflexo no chute à queima roupa de Maisonneuve. Minutos depois, o meio campista Mehdi Mahdavikia – curioso que ele usava a camisa de número dois – apareceu sozinho no campo adversário e, de bico, marcou o segundo tento. O detalhe é que Mahdavikia foi o melhor em campo, o meia dava passes como ninguém e destoava da maioria ali presente.

Já os Estados Unidos diminuíram com o atacante Brian MaCbride, de cabeça, durante a comemoração houve um estranhamento entre Earnie Stewart e Mohmmad Khakpour, mas nada que comprometesse o fato marcante dentro de campo.

Além do feito dentro do gramado, foi a primeira vez que o Irã vencia um jogo no maior torneio de seleções do mundo. A segunda vez foi em 2018, na Rússia, contra a seleção do Marrocos.

Escalação

IRÃ: Abedzadeh; Khakpour, Pashazadeh e Zarincheh (Sadavi Sad); Estili, Mohammadkhani (Peyrovani), Bagheri, Mahdavikia, Azizi (Mansourian), Ali Daei e Minavand. Técnico: Jalal Talebi

ESTADOS UNIDOS: Keller; Regis, Kejduk e Pope; Ramos (Radosavljevic), Jones, Dooley (Maisonneuve), Moore e Reyna; McBride, Wegerle (Stewart). Técnico: Steve Sampson

Pós Jogo

O simbolismo dessa partida na França não foi seguido adiante. Os americanos ainda estão com uma sanção econômica sobre o Irã. A disputa geopolítica se acirra quando os dois governantes trocam farpas, principalmente quando se trata do projeto nuclear do Oriente Médio, que não é bem visto pelo ocidente.

As coisas voltaram a ficarem tensas quando o então presidente Donald Trump autorizou um drone a atacar um comboio perto do Aeroporto Internacional de Bagdá, causando a morte de 10 passageiros, entre eles o famoso general Qasem Soleimani. O governo autocrata do Irã respondeu com ataques aéreos nas bases americanas no Iraque, que não deixou feridos.

Historicamente, parece que as animosidades entre Irã e Estados Unidos se arrastam por mais décadas e sem um fim, mas o jogo do dia 21 de Junho de 1998 mostra que há um fio de esperança para o respeito e a paz. Aliás, foi a primeira vez que os países entraram em disputa sem as armas do lado, e sim com a bola nos pés.


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Pedro Henrique Andrade Dias

Estudante de jornalismo, cinéfilo e amante de esportes

Como citar

DIAS, Pedro Henrique Andrade. A partida da paz – Irã e Estados Unidos juntos em uma Copa do Mundo. Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 27, 2021.
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