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A potência do encontro (ou o evento estádio como máquina de atualização da identidade torcedora)

André Rocha Rodrigues 25 de fevereiro de 2022

É lugar comum a ideia de uma identidade torcedora permanente, constante, imutável, eterna, que vai acompanhar a pessoa torcedora até a morte. Os hinos dos times reafirmam isso e em conversas informais do cotidiano, vez ou outra, repete-se que uma pessoa pode mudar tudo na sua vida, menos do time. Troca-se de família, cônjuge, posição política, orientação sexual, gênero, cidade, Estado, país, mas o time jamais muda. Há até quem diga que a pessoa que troca de time não inspira confiança e possui caráter duvidoso.

Embora sejam mais raros, há casos de pessoas que alteraram o clube do coração e, obviamente, de maneira nenhuma demonstraram falha de caráter. Contudo, o que pretendo trazer não é sobre a mudança de alvo da paixão torcedora, mas sobre a intensidade torcedora e de um mecanismo de atualização ou reforço da identidade torcedora que varia de acordo com o contexto e situações que a pessoa se envolve.

Especificamente vou considerar aqui o ato de ver jogos no estádio como uma máquina de atualização e reforço da identidade torcedora. Desde já, antecipo que não sou um especialista no assunto e para falar sobre isso vou compartilhar minha experiência pessoal de torcedor. Fiquei um tempo sem frequentar estádios de futebol em função de circunstâncias específicas e da pandemia, mas recentemente tenho retomado essa experiência. Isso gerou reflexões que estão em consonância com uma bibliografia já existente sobre o tema. Bibliografia esta que não vou revisar sistematicamente neste momento, apenas farei um diálogo subjetivo com o artigo “Amor (não) se explica: torcida, topofilia e estádio de futebol” de autoria de Phelipe Caldas.

Como dito, estive um tempo afastado dos estádios de futebol. Por razões pessoais, eu, paulista e corinthiano, morei por quatro anos na região do campo das vertentes em Minas Gerais. O acesso ao estádio era complicado, a televisão aberta transmitia poucos jogos do Corinthians e encontrar outros corinthianos para ver jogos juntos era um tanto trabalhoso. Neste cenário, a saída era acompanhar em casa pela internet ou gastar um bom dinheiro com serviços de pay-per-view.

Não bastasse isso tudo, a pandemia de covid-19 nos colocou diante de uma doença que nos fez enxergar os outros como ameaça sanitária e os encontros como burladas perigosas. Neste cenário, os campeonatos foram suspensos por tempo indeterminado e eu fiquei preocupado demais com a saúde e sobrevivência daqueles que amo para pensar em futebol.

Contudo, aos poucos os jogos foram voltando. Permissões controversas e discussões sem sentido se travaram. Comecei a ver os jogos pela televisão. As transmissões com os estádios vazios era como estar no ensino fundamental e assistir a aula de educação física dos alunos do terceiro ano do ensino médio. Havia entretenimento, mas uma ponta de tristeza.

corinthians final paulista
Foto: Divulgação Arena Corinthians

Assim que tomei todas as doses da vacina prometi que uma das coisas que faria assim que fosse possível era voltar a ver jogos do Corinthians no estádio. Acho que todo mundo fez alguma promessa para o pós-pandemia (que nunca vem), algo como os planos que traçamos no ano novo, mas com uma carga mais existencial e com flertes hedonísticos.

Pois bem, por motivos outros, após as doses da vacina e permissão de público nos jogos, calhou de eu voltar a morar em São Paulo. O que facilitou cumprir a promessa e reencontrar a sensação de torcer junto, torcer sem estar na frente de uma televisão, com desconhecidos, com amigos em no evento estádio de futebol.

Este evento envolve comprar ingresso, pegar transporte público, a cerveja nos arredores do estádio, os cheiros dos churrasquinhos e sanduíches, a decoração criada pelos ambulantes que junto com as camisetas dos outros torcedores pintam com as cores do clube uma região toda da cidade; os sons de anúncios de promoções dos vendedores, das  vaias, dos aplausos, dos gritos de gol e xingamentos, cantos, batucadas, análises táticas especializadas por um amigo que você acabou de fazer na arquibancada; os bandeirões das organizadas, o mar de gente saindo rapidamente para pegar o último metrô praguejando no puro suco do ódio por perder uma partida de virada e ainda ter que encarar a volta para casa e o próximo dia útil.

Este acontecimento é como uma máquina, um mecanismo de atualização ou reforço da identidade torcedora. Assim como relações com pessoas podem ser mais fortes ou mais fracas em função da constância, frequência e compartilhamento de experiências em comum, a experiência torcedora também oscila. É possível que não se troque de clube, mas se é mais ou menos torcedor em determinados momentos. Uma das coisas que potencializa, estreita a relação e intensifica a identidade torcedora é o evento estádio, ou melhor, assistir jogos no estádio.

Phelipe Caldas ao analisar a relação dos torcedores do Belo (Botafogo da Paraíba) com o Estádio José Américo de Almeida Filho, carinhosamente chamado pela torcida de Almeidão, mostra “como essa relação não segue nenhuma lógica aparente, nem considera questões práticas, supostamente racionais, como estética, modernidade e facilidades técnicas”. (Carvalho, 2021: 55). Além disso aciona o conceito de “topofilia” de Yi-Fu Tuan, para refletir sobre a relação afetiva que os seres humanos possuem com o meio ambiente material e, no caso, dos torcedores do Belo da Paraíba, com o Almeidão.

Considerando que a cidade não existe anterior às pessoas, mas que é nas relações, memórias, práticas e elaborações dos citadinos que a cidade é construída, é possível pensar em um movimento dialético dos torcedores que inventam um estádio e um estádio que inventa, atualiza e intensifica uma identidade torcedora.

Nesse sentido, Phelipe Caldas afirma

É no ritual de se ir ao estádio semana após semana, jogo após jogo, portanto, que as identidades torcedoras são retroalimentadas. […] É nesse ritual contínuo, insisto, que têm a oportunidade de exercerem essa coletividade em sua amplitude máxima.

É óbvio que o estádio não é o único desses lugares afetivos para o torcedor, mas em regra é aquele de maior potência coletiva. (Carvalho, 2021: 57).

Torcida
Foto: Fabio Soares/ Futebol de Campo

Os torcedores podem ressignificar e dar uma miríade de sentidos para os espaços de encontro e, sobretudo, para o estádio. Nesses processos os lugares e os estádios também criam identidades torcedoras. Mais do que um evento, ir ao estádio se apresenta como um ritual de retroalimentação torcedora, uma vez que o lugar estádio é, por excelência, o lugar afetivo de maior potência coletiva.

Em um raro momento de otimismo nessa quadra miserável da história em que estamos vivendo, é possível pensar que mesmo diante da arenização dos estádios, da propaganda de uma lógica individualizante e personalizada de torcer, ainda nos encontramos no coletivo, no compartilhamento de afetos, pois “não existe estádio sem torcida e não há torcida sem um “ambiente comum, de convergências, que os una em torno de afetos e dramas a serem compartilhados” (Carvalho, 2021: 61). Seguindo nessa dialética, podemos pensar de forma otimista na força dos encontros e na potência criativa e produtiva que eles apresentam.

Referência bibliográfica

Carvalho, P. C. P.. Amor (não) se explica: torcida, topofilia e estádio de futebol. FuLiA / UFMG, 5(2), 52–78, 2021 https://doi.org/10.35699/2526-4494.2020.22131

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André Rocha

Antropólogo e corintiano. Pesquisa apropriações de espaços, mobilidades urbanas, gênero e sexualidade. Integra o LELuS (UFSCar) e o GEPAC (UNESP).

Como citar

RODRIGUES, André Rocha. A potência do encontro (ou o evento estádio como máquina de atualização da identidade torcedora). Ludopédio, São Paulo, v. 152, n. 28, 2022.
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