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A primeira vez do Brasil

O Brasil é considerado o país do futebol. Constantemente, o esporte é relacionado a uma tal identidade brasileira, que mais parece um estereótipo, mas, a maioria dos brasileiros, de fato, é apaixonada por esse esporte que une, sob muitas circunstâncias, as mais diferentes pessoas que põem em prática o verbo torcer. Ainda que o brasileiro seja aficionado por uma peleja desde muito antes de ser campeão mundial, a fama de ser “a pátria de chuteiras” tem relação direta com o fato de ostentar o maior número de conquistas em Copas do Mundo. Um domínio que começou há 63 anos com a primeira taça e o fim do “complexo de vira-latas”.

Em junho de 1958, o futebol do Brasil não teve cor nem camisa que não fossem verdes e amarelas. A Suécia, país sede da Copa do Mundo daquele ano, pareceu mais um palco, que apresentou ao globo o poder dos pés da dupla Pelé-Garrincha. Entretanto, até que a Seleção Canarinho ganhasse a confiança de seu próprio país – a desconfiança era grande em razão da decepção na edição anterior, em 1954, a seleção deu adeus à disputa ainda nas oitavas de final – o elenco comandado por Vicente Feola precisaria fazer muito nos gramados suecos.

Quando o Brasil mostrou suas raízes ao mundo. Foto: Wikipédia.

A Copa havia começado em 10 de junho e no primeiro confronto, a Seleção Brasileira venceu a Áustria, por 3 a 0, e apesar do que sugere o placar, a história poderia ser outra se não fosse uma situação inusitada que envolveu Nílton Santos. O experiente lateral-esquerdo anotou o segundo gol do jogo, fato que, segundo uma dessas lendas que rondam o futebol, enlouqueceu o técnico Vicente Feola e comprovadamente deixou o Brasil mais próximo da classificação.

O boato que virou quase uma verdade absoluta dá conta de que Feola não teria gostado de ver seu lateral atacando, quando a função quase exclusiva dessa posição era defender e com Nílton no campo ofensivo, o time poderia ser surpreendido num contra ataque austríaco. Entretanto, a Enciclopédia do Futebol tinha um entrosamento antigo com Zagallo em razão dos tempos de Botafogo e sempre que o lateral subia ao ataque o Formiguinha fazia a cobertura num posicionamento pouco comum na época. Seguro pelo companheiro de time na retaguarda e distante da folclórica e inexistente bronca de Feola, Nílton Santos avançou e fez o gol que fincou um marco revolucionário na posição que a partir daquele momento também atacava.

Em seguida, veio um empate sem gols diante da Inglaterra. Apesar de ter pressionado os inventores do futebol, o 0 a 0 foi um ponto de mudança no time titular. Vicente Feola não chegou na Suécia com 11 insubstituíveis, e o fato de não conseguir furar a defesa inglesa despertou o olhar do treinador para dois garotos que estavam no banco de reservas, nada menos do que Pelé e Garrincha. Com a dupla em campo, a Seleção Brasileira jamais seria derrotada, mas foi na terceira rodada daquela Copa que a invencível parceria debutaria.

Para encerrar a fase de grupos, o Brasil encontrou a União Soviética, seleção conhecida pelo seu futebol científico baseado no alto controle de bola, segurança defensiva e preparo físico digno de um exército. O que não sabiam os soviéticos era que a dupla Pelé-Garrincha entraria como titular naquela partida e que, nos primeiros três minutos de pelota rolando, a URSS não saberia a sensação de tê-la nos pés. Lev Yashin, em 13 de junho de 58, declarou: “Isto é arte executada com os pés, mas idealizada previamente com a cabeça… Eu nunca vi um time melhor em minha vida”. A Seleção Canarinho levou a melhor por 2 a 0, com dois de gols de Vavá contra uma atordoada União Soviética.

Banner oficial da Copa do Mundo de 1958. Foto? Wikipédia

Não apenas pela estreia de Pelé e Garrincha, a vitória sobre a URSS foi também a desmoralização do futebol científico imposta por um elenco composto por atletas miscigenados e negros e no caso de Garrincha, alguém com uma evidente deformidade nas pernas tortas mais talentosas da história. Enquanto Garrincha enfileirava seus “Joões” e deixava os soviéticos no chão, o mundo conhecia a qualidade do futebol brasileiro, que marcou aquela Copa pela arte, mas também porque ninguém imaginaria que europeus seriam desbancados por uma equipe mestiça.

Contra País de Gales, nas quartas de final, o nome do jogo foi o de quem nasceu para reinar. Com apenas 17 anos, Pelé entrou como titular, vestindo a camisa 10. Apesar da enorme responsabilidade que repousou em suas costas, o jovem a tomou para si e decidiu: marcou o único gol da partida e levou o Brasil à semifinal.

Na fase seguinte, a França do goleador Just Fontaine foi a adversária, no tradicional Estádio Rasunda. Era a segunda vez na história que os brasileiros enfrentavam os franceses e, naquela ocasião, bem como na primeira, a vitória ficou com a equipe verde e amarela. Depois de aplicar um sonoro 5 a 2 – com três gols de Pelé quase feitos em sequência –, o Brasil estava, mais uma vez, em uma final de Copa do Mundo.

Há um questionamento que ronda esse “mais uma vez”, isso porque oito anos antes, lá estava a Seleção Canarinho em um quadrangular final, situação que muitos não consideram como uma final de fato, entretanto, considerarei por aqui.

Na Copa do Mundo de 1950, diante do Uruguai precisando apenas de um empate para que pudesse erguer a taça, o Brasil viu a Celeste Olímpica desbancar seu favoritismo. Então, o Maracanazzo aconteceu e a seleção foi vice em sua própria casa, enquanto vestia o famoso uniforme branco. Resquícios de vergonha e raiva, oito anos depois, ainda se fizeram presentes no torcedor. Ingenuamente, mal sabiam os brasileiros que 43 anos depois, o grande Romário calaria o canto uruguaio com seus pés, mas isso é assunto para outro texto.

Elenco brasileiro para a final de 58. Foto: Werner Haberkorn – José Rosael/Hélio Nobre/Museu Paulista da USP/Wikipédia

Indo parcialmente contra os dados da Revista France Football, a qual elencou as seleções da Alemanha, Hungria, Inglaterra, Suécia e Tchecoslováquia como favoritas ao título, a final do Mundial de 1958 teve de um lado a dona da casa, como previsto, e do outro, o Brasil.

Dois dias antes da decisão houve um sorteio para definir quem vestiria seu uniforme principal, uma vez que tanto o elenco brasileiro quanto o sueco usavam amarelo e azul para representarem suas nações. O Brasil, porém, considerou a ação como uma descortesia e achou injusto o fato do time visitante, que a época viajava com poucos jogos de camisas, não poder usar suas cores principais e, por isso, não compareceu ao sorteio, que definiu que a Suécia defenderia seu primeiro uniforme.

Quando o calendário marcou 29 de junho de 1958, o Brasil foi escalado com Gilmar, Djalma Santos, Orlando, Bellini, Nílton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Zagallo, Vavá e Pelé, todos vestindo o uniforme azul, que de acordo com Paulo Machado de Carvalho, simbolizava a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida, padroeira brasileira. Apesar de bonito e pioneiro, o branco havia sido reprovado por lembrar o episódio do Maracanazzo.

O Estádio Rasunda recebeu novamente o elenco brasileiro que encantou as quase 50 mil pessoas que se fizeram presentes por lá. Logo aos quatro minutos, Liedholm marcou para a Suécia, mas Vavá não deixou barato: empatou aos seis e virou aos 32. A Seleção Canarinho foi ao intervalo com a vantagem no placar e com fome de bola. No segundo tempo, Pelé balançou as redes aos 10 minutos e, aos 28, foi a vez de Zagallo, mas quando parecia que tudo estava sob controle, a Suécia ensaiou uma reação.

Simonsson marcou aos 35 minutos e diminuiu o placar. Apesar do marcador apontar 4 a 2 para o Brasil, a torcida dos donos da casa empurrava a todo o momento o elenco sueco, que procurou, de qualquer jeito, avançar no marcador. Porém, os incentivos entoados das arquibancadas do Rasunda não foram o suficiente para deter Pelé. Aos 90 minutos, o Rei do futebol dividiu uma bola com a zaga sueca, cabeceou e marcou o gol que decretou o Brasil como campeão mundial pela primeira vez.

Pelé e seus dribles finais contra a Suécia. Foto: Wikipédia

O título de campeão foi consequência da visível melhora da qualidade técnica e tática do elenco verde e amarelo, proporcionada por um planejamento meticuloso da preparação dos atletas. Superioridade essa amplamente reconhecida pelos gringos e, principalmente, pelos próprios brasileiros. A Seleção Canarinho usou aquela competição como vitrine para mostrar ao globo seu tamanho e, devido a isso, se firmou como “o país do futebol”. Foi a primeira vez que um representante europeu enfrentou um sul-americano, também a única vez que um time europeu não comemorou o título em seu continente e a primeira vez que uma seleção comemorou o título fora de seu continente.

Aquela que foi a sexta edição do Mundial não contou com mascote – o qual só foi adotado a partir da competição de 1966 –, mas nas terras brasileiras, o canarinho, era, sem dúvidas, o símbolo que todos já haviam adotado. Aquela Copa foi a prova de que o futebol, independentemente do momento, une todos sem distinguir qualquer natureza.

Quando o capitão Bellini ergueu a taça, em solo brasileiro, o torcedor respirou aliviado, todas as incertezas se desfizeram, a alegria tomou conta das ruas e, novamente, o futebol abraçou mais uma nação.

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Lúcia Oliveira

Amante da comunicação, da escrita, da fotografia, do futebol, da literatura, do jornalismo, entre outras coisas. Escrevo para eternizar e vivo para escrever.

Como citar

OLIVEIRA, Lúcia. A primeira vez do Brasil. Ludopédio, São Paulo, v. 132, n. 30, 2020.
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