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A retirada das cadeiras no estádio: um processo de redemocratização do estádio ou o mais do mesmo?

No final do mês de março, os veículos de comunicação noticiaram que as cadeiras do setor Buenos Aires inferior da Arena da Baixada seriam retiradas. No início do mês de abril, foi noticiado que as cadeiras localizadas no setor norte inferior da Fonte Nova começaram a ser retiradas. Em terras mineiras, o América havia anunciado a retirada das cadeiras do portão 6 da Arena Independência no início do ano e a Arena MRV, ainda em construção, anunciou que os torcedores que comprarem os ingressos para o setor que leva o nome Brahma Sul, irão assistir aos jogos em pé ou sentados no cimento.

Na esteira dos acontecimentos, o Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas – GEFuT/UFMG foi procurado para se pronunciar sobre o assunto e eu fui escalada para conceder uma entrevista para o programa regional, “Meio de Campo”.

De bate pronto, me perguntaram se era o início do fim do processo de elitização dos estádios. Pergunta complexa para se responder no tempo de uma entrevista de uma reportagem de programa esportivo. Então, resolvi trazer essa reflexão para essa coluna.

Os pesquisadores de estádio partem da premissa que estudar esse espaço é lançar um olhar, também, para a sociedade na qual estão inseridos. Quando os estádios brasileiros foram reformados e reformulados (CAMPOS, 2016) e renomeados de arenas havia a Copa do Mundo de Futebol Masculino da FIFA como catalizador desse interesse. Como já foi amplamente discutido, os megaeventos são estratégias para reposicionamento de um país dentro do cenário internacional (BRITO-HENRIQUES, 2013), no caso do Brasil, no período entre 2003 – 2012, havia a intenção de ressaltar o crescimento econômico e social do país, sendo a Copa uma excelente vitrine de oportunidades de investimento.

Como se sabe, a FIFA a cada evento por ela realizado, revê as suas normatizações criando, excluindo e mantendo certas normativas em relação a todos os aspectos do evento. Assim, possui um guia de estádios no qual os países que irão sediar o mundial deverão cumprir as normas ali estabelecidas. O Stadiumbook (Estádios de Futebol: recomendações e normas) tem por objetivo “[…] ajudar a todos os envolvidos em projeto, construção e administração de estádios de futebol e a criar instalações que permitam assistir aos jogos com segurança e conforto” (FIFA, 2011, p. 10). Esse documento tornou-se uma referência para a construção de novos estádios e a reforma e reformulação dos já existentes. A FIFA torna-se, nesse cenário, uma das grandes difusoras dos chamados estádios pós-modernos (PARAMIO, BURAIMO e CAMPOS, 2008) que, no Brasil, receberam a denominação de arena.

As arenas têm como características em comum a preocupação com estética e funcionalidade, apresentando, portanto, um desenho inovador, segurança, conforto, hospitalidade, acessibilidade a todo tipo de usuário, multifuncionalidade e aumento do desenvolvimento comercial, tanto em dias de jogos, quanto em dias sem jogo (PARAMIO, BURAIMO e CAMPOS, 2008).

Mineirão
Mineirão em partida da Copa do Mundo 2014. Fonte: Wikipédia

Entre o desejo, o direito e o dever de sediar uma Copa do Mundo no Brasil (DAMO, 2012), várias transformações ocorreram nos estádios brasileiros e nas formas de manifestação do torcer. A própria realização desse megaevento se torna uma passagem para novos tempos.

Esse novo estádio teve a geral retirada, com isso, as pessoas com baixo poder econômico foram excluídas desse equipamento de lazer, uma vez que os preços cobrados nesse setor eram bem menores dos que os cobrados nas arquibancadas superiores e inferiores e nas cadeiras. Ao mesmo tempo, os preços dos ingressos, que antes apresentavam uma relativa estabilidade entres os diferentes momentos da competição, sofreram precificação dinâmica, na medida em que o valor do ingresso passou a sofrer variações de curto prazo, influenciados pela expectativa de público do jogo ou da competição (QUEIROZ, SILVA, 2022). A implementação do programa de sócio torcedor também interferiu na dinâmica dos torcedores de ida à campo.

Vale a pena chamar a atenção para o fato de que, com a reformulação do estádio, se, por um lado, houve um processo de exclusão a partir das questões econômicas, por outro, houve a inclusão e a visibilidade de grupos sociais invisíveis até então: deficientes, crianças, LGBTQIA+ e mulheres. Como apontado na pesquisa de Campos (2010), as mulheres sempre estiveram presentes no estádio, porém, antes da reforma, a sua visibilidade era menor, já que muitas vezes estavam camufladas por uma performatividade masculina. Após a reforma, houve uma mudança nesse processo, com a diminuição da valorização da performatividade masculina hegemônica nesse espaço (CAMPOS, 2016).

Apesar de todas as críticas, o estádio pré-Copa estava sendo preparado para o megaevento e com a crença de que as arenas seriam “o novo eldorado” (LAGES, 2012). Os estádios durante a Copa do Mundo tiveram pouca autonomia em sua gestão, pois todas as operações e condutas eram justificadas pelo “padrão FIFA”. Diga-se de passagem, que muitos estádios levaram essa norma à risca e se tornaram mais exigentes do que a própria FIFA. Entretanto, o estádio pós-Copa não obteve o sucesso de público e renda como foi estimado. Além dos motivos já mencionados, o Brasil viveu, durante o período de 2015 a 2022 uma forte retração econômica e social, potencializada pela pandemia de Covid-19, repercutindo no poder de consumo da população.

Chama atenção que a Lei Estadual que permitiu a retirada das cadeiras na Arena Independência foi assinada em 06 de janeiro de 2021. A Lei Nº 23.772/2021, permite a ausência de até 20% das cadeiras dos estádios de Minas Gerais. Nesse setor, os valores cobrados pelos ingressos deverão ser inferiores aos valores dos demais setores do estádio. Fica a pergunta, se foi sancionado em 2021, porque só em 2023 foi efetuado? Quais interesses estariam presentes?

A permanência / retirada das cadeiras dos estádios não é uma reivindicação brasileira, apenas. Na Alemanha, anfitriã da Copa do Mundo de 2006 e pioneira no chamado “padrão FIFA”, há o início dessa discussão, encampada pelos torcedores organizados. De acordo com o perfil desses torcedores, eles preferem abrir mão do conforto em detrimento de um ambiente mais quente e de pressão no estádio. Nesse ponto, as cadeiras atrapalham a movimentação e as coreografias. Ao mesmo tempo, os prejuízos causados à administradora dos estádios pelos danos às cadeiras são grandes.

No Brasil, essa reivindicação surge com o nascimento das arenas. Entretanto, as vozes solicitantes parecem estar sendo ouvidas apenas nesse momento. E o que poderia ter mudado?

Desde o dia 01 de janeiro de 2023 retomamos o governo Lula e o olhar e as ações estão voltados para as políticas de inclusão social e, depois de um período sombrio na história desse país, isso se torna mais necessário.

A ANATORG – Associação Nacional das Torcidas Organizadas – tem ganhado visibilidade acadêmica e política, o que faz com que as pautas referentes as manifestações do torcer sejam debatidas. Ao mesmo tempo, em todos os exemplos citados, a retirada das cadeiras se deu nos locais destinados às torcidas organizadas dos clubes mandantes. Seria mesmo um processo de redemocratização do espaço?

Além da exclusão financeira, as arenas trouxeram a exclusão ética e comportamental, já que não permitem atitudes outrora aceitas dentro desse espaço em um processo atrelado às dinâmicas sociais. Durante muito tempo, vinculou-se a ideia de que o estádio seria um equipamento de lazer em que as pessoas pudessem manifestar as suas emoções em contraponto ao controle e impessoalidade da vida cotidiana. Tornou-se, assim, um espaço de permissividade para violências simbólicas que, em determinados momentos, poderiam desencadear a violência física. Atitudes como manifestações sexistas, homofóbicas e raciais, que seriam reprovadas pela dinâmica social fora do estádio, foram, durante muito tempo, relativizadas no seu interior (ELIAS, 1992; DAOLIO, 1997; PIMENTA, 1997).

Fonte Nova
Arena Fonte Nova inaugurada com jogo entre Bahia x Vitória. Foto: Haroldo Abrantes/GOVBA em 07/04/2013

Evocar à memória o estádio raiz é uma forma de trazer de volta o sentido de pertencimento do torcedor ao espaço. O próprio nome “estádio raiz” poderia ser uma forma de oposição às arenas futebolísticas se umas das características das arenas não fosse recriar novas e antigas experiências para atender a um público mais vasto, em uma perspectiva, ao mesmo tempo, futurista e museológica (PARAMIO, BURAIMO e CAMPOS, 2008). Assim, as retiradas das cadeiras não contribuiriam para o processo de desarenização, mas sim de fazer esse amálgama entre passado, presente e futuro.

Nesse sentido, a retirada das cadeiras é rememorar um modelo antigo de estádio. Haverá a tentativa de recuperar o sentido da festa na arquibancada que marcou gerações, os torcedores juntos e misturados formando uma figura amorfa e contrastante com a retidão e controle dos corpos promovido pelas cadeiras. Entretanto, isso não é a premissa da inclusão do público outrora excluído.

O marketing por trás dessas ações sugere que novos tempos virão para essas arenas, entretanto a forma de uso e apropriação dos torcedores deverá ser observada no longo prazo. Afinal, poderá haver um conflito de intencionalidades e modus operandi entre os frequentadores desse setor, inclusive, na disputa pela aquisição do ingresso, já que tende a ser mais barato e em menor quantidade, em relação a outros setores do estádio.

Assim, a retirada das cadeiras das áreas atrás do gol seria a redemocratização dos estádios ou apenas mais uma economia aos cofres dos administradores desse equipamento? Seria o pontapé inicial de uma revisão dos processos de exclusões que tomaram conta do futebol brasileiro ou apenas uma jogada de marketing? Só o tempo e novos estudos nos dirão.

Referências

BRITO-HENRIQUES, Eduardo. Política simbólica, megaeventos e urbanismo. In: PAES, Maria T. D., SILVA, Charlei A., MATIAS, Lindon F. (Orgs). Geografias, políticas públicas e dinâmicas territoriais. Dourados: Ed. UFGD, 2013, e-book.

CAMPOS, Priscila Augusta Ferreira. As formas de uso e apropriação do estádio Mineirão após a reforma. 2016. Tese (Doutorado em Educação Física). Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2016.

CAMPOS, Priscila A. F. Mulheres torcedoras do Cruzeiro Esporte Clube presentes no Mineirão. 2010, 142f. Dissertação (Mestrado em Lazer) ─ Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

DAMO, Arlei S. O desejo, o direito e o dever – A trama que trouxe a Copa ao Brasil. Movimento, Porto Alegre, v. 18, n. 02, p. 41-81, abr./jun. 2012.

DAÓLIO, Jocimar. A violência no futebol brasileiro. In: ______. Cultura, educação física e futebol. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997, p.111-8.

ELIAS, Norbert; DUNNING, Erik. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992.

FIFA. Estádios de futebol: recomendações e requisitos técnicos. 5.ed. 2011. Disponível em: http://pt.fifa.com/mm/document/tournament/competition/01/37/17/76/p_sb2010_ stadiumbook_ganz.pdf. Acesso em: 20 jul. 2012.

LAGES, Carlos E. D. M.; SILVA, Silvio R.; SILVA, Luciano P.; MASCARENHAS, Fernando. A copa do mundo de futebol em Belo Horizonte: impactos e legados. Motrivivência, Florianópolis, v. 27, n. 44, p. 79-92, maio/2015

PARAMIO Juan Luis; BURAIMO, Babatunde; CAMPOS, Carlos. From modern to postmodern: the development of football stadia in Europe. Sport in Society: Cultures, Commerce, Media, Politics, v. 11, n. 5, p.517-34, set. 2008.

PIMENTA, Carlos A. M. Torcidas organizadas de futebol: violência e auto-afirmação. Taubaté: Vogal, 1997

QUEIROZ, Felipe Pereira de; SILVA, Silvio Ricardo. Lazer, economia e futebol: as mudanças na precificação do ingresso no estádio Mineirão entre 1994-2018. Revista Brasileira de Estudos do Lazer, v. 8, p. 1-18, 2021.

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Priscila Augusta Ferreira Campos

Professora do Centro Desportivo da Universidade Federal de Ouro Preto - CEDUFOP; Doutora em Educação Física/UNICAMP, Mestre em Lazer/UFMG; Graduada em Educação Física/UFMG, Membro do Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas - GEFuT/UFMG; torcedora do Cruzeiro Esporte Clube e frequentadora de estádios.

Como citar

CAMPOS, Priscila Augusta Ferreira. A retirada das cadeiras no estádio: um processo de redemocratização do estádio ou o mais do mesmo?. Ludopédio, São Paulo, v. 166, n. 24, 2023.
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