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A riqueza das pessoas e a riqueza das coisas

Nunca fui um cara esotérico. Sempre achei um porre as pessoas que falam a todo momento de energia, de amor, de “good vibes”. Pessoas que colocam o ódio como antagônico ao amor. Sempre achei um imenso lenga-lenga. No entanto, há alguns lugares que nos provocam sensações tão particulares que aos olhos desavisados podem parecer o mesmo esoterismo dessas pessoas descoladas.

Boxe
Fonte: divulgação/Academia MM Boxe

Há um certo tempo frequento uma academia de boxe que anteriormente foi um galpão abandonado da estação de trem de Rio Claro-SP. Hoje o local abriga um projeto social que visa, mais do que formar atletas, ajudar na educação dos jovens que o frequentam. Se olharmos para cima da academia de boxe veremos teias de aranha e um teto sem forro, para baixo veremos um cimento queimado. As paredes carregam inúmeras fotos de boxeadores e também imagens de Dandara, Zumbi e Marighella. No batente da porta veremos escrito “racistas, fascistas, não passarão!”. Nessa academia de boxe acontece sarais e festas acessíveis à todos. Lá a riqueza está nas pessoas e não nas coisas.

Quem já frequentou estádios de futebol sabe as excentricidades que lhe são próprias. Assistir jogos pendurado ao alambrado, podendo dar uns xingos no ouvido do bandeirinha e ele ouvir, não ter outra opção que não a arquibancada de cimento para se sentar, poder assistir jogos ao lado de torcedores históricos de cada clube, essas são experiências que arena nenhuma proporcionará ao torcedor. As arenas podem ser imponentes como as seculares igrejas, ter banheiros com cheiro de lavanda e cadeiras personalizadas para cada glúteo, mas jamais será frequentada pelo grosso da torcida de um time. Um ingresso à mais de 100 reais impossibilita o verdadeiro torcedor trabalhador de frequentar os jogos de seu time. Não adianta se dizer time do povo e barrar o povo através do preço do ingresso. Trabalhador só frequenta arena para trabalhar. Nas arenas a riqueza está nas coisas, não nas pessoas.

Uma vez vi um documentário que mostrava o dia em que pessoas de favelas, ocupações e moradores de rua do Rio de Janeiro resolveram visitar um shopping frequentado por pessoas com grana. Quando os pobres começam a entrar no shopping as lojas instantaneamente se fecham com medo de assaltos, os vendedores fazem cara feia e os seguranças ficam alvoroçados impedindo os indesejados visitantes de passearem. Todos naquele luxuoso shopping ficam com medo do que os pobres, quase todos pretos, possam fazer. No shopping a riqueza está nas coisas. Nas ocupações e nas favelas a riqueza está nas pessoas.

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Como citar

BARCIELA, Francisco Galvão do Amaral Pinto. A riqueza das pessoas e a riqueza das coisas. Ludopédio, São Paulo, v. 153, n. 4, 2022.
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