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A suposta neutralidade política do Esporte – parte 2

O apolitismo das instituições esportivas não é algo que nos impeça de analisar as suas tomadas de posições – que mesmo tentando ser supostamente neutras, são políticas. Essa posição tomada, de se afastar da política e se apresentar como neutra é uma forma de se colocar na esfera pública e traz consequências diversas.

Na primeira parte do texto analisamos como o Campo do Esporte constrói a sua autonomia em relação a outras esferas sociais. Agora, na segunda parte, vamos ver como essa busca por autonomia também é de certa forma um posicionamento político.

Para entendermos como a organização esportiva é vista dentro da sociedade, podemos olhá-la por dois ângulos diferentes. Sob um ponto de vista social, o Esporte é uma instância que organiza a socialização e as bases para percepções a longo prazo, e estão ligadas a estratégias para a busca de autonomia, como foi visto na primeira parte do texto. Politicamente, as instituições esportivas se relacionam com outras organizações e diferentes esferas de poder, assim como estabelece para si uma posição de negação da política, tentando assumir uma posição de neutralidade.

Presidenta Dilma visita Blatter em Zurique, na Suíça. Foto: Roberto Stuckert Filho – Presidência da República.

Historicamente, nem sempre foi essa a posição assumida. No início do século passado, as organizações esportivas tinham grande pendor social e político, a partir dos quais era possível notar claramente as diferenças entre grupos e associações esportivas formadas por filhos da elite e outras formada por trabalhadores das fábricas. Notadamente, podem-se destacar as Olimpíadas Operárias – que reuniam uma série de grupos de esquerda e socialistas, organizando competições que enfatizavam a união entre os povos, para isso não se tocavam os hinos dos países para retirar o caráter nacionalista da competição.

Defensores de um esporte “mais puro” acreditavam que as motivações políticas acabavam por prejudicar o desempenho esportivo. Aos poucos, essa foi a mentalidade que acabou prevalecendo, enquanto aqueles que viam o esporte como uma ferramenta para alcançar outros objetivos acabaram por diminuir em número e em importância.

Dessa oposição surge uma nova posição política: uma que negue a política dentro do Esporte. Isso requer o estabelecimento de um código de conduta “neutro” dentro da prática esportiva, e que acaba por fechar certas áreas de interesses, pois alguns dirigentes, e mesmo atletas, possuem interesses e ligações diretas com o mundo da política, mas quando estão presentes no campo esportivo, as suas declarações devem ser neutras. É esse tipo de comportamento que vemos ainda hoje quando alguns atletas tentam assumir um posicionamento mais politizado em torno de causas como a discriminação contra as causas GLBT, e como já foi falado sobre o posicionamento de atletas ativistas.

João Havelange que foi presidente da FIFA (1974-1998). Foto: Mowa Press.

A neutralidade política não quer dizer uma adoção de práticas laicas e republicanas, pois essas também foram negadas. No entanto, é preciso ter em conta que a posição “neutra” é por definição relativa, pois ela escolhe alguns elementos a serem negados, mas não outros. Por exemplo, uma associação pode declarar-se acima das diferenças religiosas, aceitando católicos e protestantes, mas acabar por assumir posições antissemitas.

Nota-se ainda mais o caráter ambíguo dessa suposta neutralidade quando analisamos a biografia de certas lideranças esportivas. Internacionalmente, era possível ver essas figuras defendendo posicionamentos políticos neutros, enquanto dentro de seus países havia uma clara proximidade com uma corrente política. As ligações entre o antigo presidente do Comitê Olímpico Internacional, Juan Antonio Samaranch, e o Franquismo, assim como a proximidade entre o ex-presidente da FIFA, João Havelange, e ditaduras da América Latina são bastante conhecidas.

Além disso, com a crescente autonomia do Campo Esportivo, mesmo internamente podemos falar de uma grande importância da política. Toda a organização da FIFA e suas confederações continentais, por exemplo, é feita com base em votações e muito jogo político, como a cada nova eleição, ou escolha para sedes das Copas do Mundo, fica provado. É um jogo político codificado, que possui um conjunto de regras próprias e internas, com seus conselhos, comitês, sistemas de justiça, mas mesmo assim é sempre um jogo político, apesar de um discurso de neutralidade.

 

Este texto foi feito com base no artigo “La politique de l’apolitisme. Sur l’autonomisation du champ sportif” de Jacques Defrance, publicado na revista Politix, vol. 13, nº 50, em 2000.

 

Esse texto foi originalmente publicado no blog Versão Beta do Esporte e cedido para publicação nesse espaço.

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Fernando Borges

Formado em Comunicação Social – Jornalismo pela UFRJ, mestre em Comunicação e Jornalismo pela Universidade de Coimbra e doutorando em Comunicação na Universidade Pantheon-Assas, em Paris, fez do esporte – principalmente o futebol – parte importante da sua trajetória profssional, porque acredita que é preciso gostar do que se faz.

Como citar

BORGES, Fernando. A suposta neutralidade política do Esporte – parte 2. Ludopédio, São Paulo, v. 59, n. 2, 2014.
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