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A trajetória da mulher negra no futebol brasileiro

Copa Além da Copa 13 de maio de 2022

O livro “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mário Filho, é considerado um clássico pelo seu retrato da questão racial nas primeiras décadas do esporte em nosso país. Mas pouco se fala da história da mulher negra no futebol brasileiro. 

Se hoje as mulheres negras são essenciais nos plantéis de clubes e da seleção, por muito tempo elas conviveram no esporte com uma espécie de soma de opressões: de raça, de gênero e de classe. Não foi uma trajetória sem luta e resistência.

Este texto é um complemento ao episódio 48 do podcast Copa Além da Copa, sobre o negro no futebol brasileiro. Para escutá-lo, basta clicar aqui.

No princípio, a clandestinidade

Os primeiros registros sobre futebol sendo praticado por mulheres no Brasil surgem na década de 20, quando o esporte ganhava espaço e estava cada vez mais consolidado em nosso país. Porém, ainda era uma modalidade excludente, voltada à elite e praticada quase exclusivamente por homens brancos.

O que não quer dizer que não houvesse focos de resistência, que foram crescendo, até que o recém-inaugurado estádio do Pacaembu sediasse jogos entre times femininos em 1940. Mas esse movimento seria combatido no ano seguinte, no centralizador Estado Novo de Getúlio Vargas: em 41, o Conselho Nacional de Desportos proibiu as mulheres de praticarem esportes “inadequados à sua natureza”. O futebol fazia parte do decreto.

Para a mulher, deveriam ser reservados os esportes sem contato, já que seu corpo era visto como mais “frágil” e “delicado”, além de que se esperava que ela o reservasse para a maternidade, cumprindo o papel social que se esperava dela. 

A proibição durou 38 anos, caindo apenas em 1979, já no ocaso da última ditadura militar. É claro que, durante esse tempo, houve quem desafiasse a lei e jogasse mesmo assim, mas essa proibição atrasou o desenvolvimento do futebol feminino em uma extensão que é até difícil calcular.

Dilma Mendes
Dilma Mendes, ex-jogadora e atual treinadora de futebol. Foto: Divulgação.

Entre as pioneiras, Dilma Mendes

Há muitas histórias notáveis que podem ser contadas sobre as mulheres que desafiaram a proibição. Aqui, vamos focar na baiana Dilma Mendes para representar todas elas. Nascida no interior do estado, numa família com uma irmã e outros cinco irmãos, ela jogou futebol desde cedo.

Em entrevista concedida à TV Bandeirantes em 2021, Dilma diz que não sabia por que era proibido que mulheres jogassem – e que, por isso, não sentia qualquer culpa em fazê-lo. Talvez pelo fato de o futebol feminino ser tão incipiente, nem mesmo a polícia a apreendia quando a via jogar, diz Dilma, apenas levavam-na para casa.

Na mesma entrevista, ela afirma que sonhou vestir a camisa da seleção brasileira, algo que infelizmente não pôde fazer como atleta por causa da lei. Mas, ao menos, ela recebeu algum reconhecimento como uma das pioneiras do futebol feminino: celebrada por suas jogadoras, hoje atua como técnica da seleção brasileira de futebol 7, uma modalidade alternativa ao futebol tradicional (também conhecida como “society”).

Fim da proibição: a era do fetiche

A queda do decreto que impedia mulheres de jogar futebol não significou uma transformação imediata da modalidade. Nesse momento, o futebol masculino tinha três títulos mundiais e já contava com uma estrutura profissional robusta, enquanto o futebol feminino se assemelhava mais ao que era a situação dos homens no esporte no início do século XX. O racismo no futebol masculino ainda existia (e persiste até hoje), mas o homem negro já estava bem integrado à prática esportiva.

O mesmo não se pode dizer da mulher negra. Nesse período, o futebol feminino passou a ser fetichizado sexualmente pelos homens: faziam sucesso jogadoras que correspondiam a um certo padrão de beleza e feminilidade. Em geral, elas eram brancas. O ápice desse processo talvez tenha sido Bel, atacante do Inter e da seleção brasileira, ter sido convidada para posar na capa da revista masculina Playboy. 

Em entrevista ao jornal gaúcho Zero Hora, Bel afirmou que o primeiro convite foi ainda nos anos 80, quando ela tinha só 17 anos. Mas ela só aceitou mesmo quando já tinha 29, em 1995. Nessa época, o Brasil já tinha uma seleção feminina disputando Copa do Mundo (a primeira foi organizada pela FIFA em 1991) e Olimpíadas (a primeira competição foi em Atlanta, em 1996). Ainda que tivesse grandes jogadoras negras, só ganhavam atenção midiática aquelas que correspondiam a um padrão estético.

Ainda em tempos mais recentes, o discurso da feminilidade e a busca por um futebol feminino que tinha como principal objetivo agradar aos olhos masculinos continuou aparecendo até em termos institucionais: em 2001, a Federação Paulista de Futebol exigiu cabelos compridos, corpo delicado e uniformes mais curtos em suas partidas.

Para o campeonato de 2001, a Federação Paulista criou uma espécie de “draft” de 200 jogadoras entre 12 clubes. A beleza era um dos principais critérios para a seleção. Em entrevista para o UOL, Liése Brancão, que disputou a competição, disse que as atletas sabiam que algumas mulheres ficaram de fora por características físicas.

Seleção feminina
Seleção brasileira feminina em 1988. Foto: Acervo Museu do Futebol/Suzana Cavalheiro.

Surgem as primeiras ídolas

Quando aconteceu a primeira Copa do Mundo de futebol feminino, em 1991, o esporte ainda era pouquíssimo organizado de maneira institucional no Brasil. A seleção viajou à China e ficou na primeira fase, perdendo duas das três partidas do seu grupo, incluindo um 5 a 0 para os Estados Unidos.

A entrada do futebol feminino nos Jogos Olímpicos, a partir de Atlanta 1996, é fundamental para que a mídia comece a dar atenção para a modalidade. Jogos e competições aparecem na televisão e isso leva ao reconhecimento das primeiras ídolas.

O primeiro nome que ganha destaque é o de Delma Gonçalves, a Pretinha. Ela já estava na Copa do Mundo de 1991, na época com apenas 16 anos de idade. Foi cria do Vasco da Gama e se estabilizou a ponto de jogar quatro Copas do Mundo e quatro Olimpíadas.

Pretinha atuou por um período de 23 anos na seleção brasileira, de 1991 a 2014. Jogou no Brasil, nos Estados Unidos, no Japão e na Coreia do Sul. Foi parte de uma primeira geração de atletas conhecidas, que estavam na tela da televisão nos anos 1990 e, por isso, eram lembradas por aqueles que acompanhavam a modalidade.

Junto com ela, outras atletas se destacaram no momento da chegada do futebol feminino ao grande público. Michael Jackson, como era chamada Mariléia dos Santos, já era mais veterana quando esse momento chegou. Nascida em 1963, ela tinha onze irmãos. Segundo a Federação Internacional de História e Estatística, foi a terceira melhor jogadora sul-americana do século XX.

Formiga
Formiga. Fonte: Fotos Públicas

Formiga: símbolo de luta e resistência

Talvez não exista um símbolo maior da mulher negra no futebol que Miraildes Maciel Mota, a Formiga. Aos doze anos de idade, em Salvador, ela começou a ter a bola como sua grande parceira. Antes disso, quando ganhava uma boneca, já arrancava a cabeça e dava seus chutes. A mãe a apoiava, mas o irmão tratava a situação com preconceito.

Aos quinze anos de idade, Formiga já estava na seleção brasileira. Ter apenas 1,62 de altura nunca impediu que a atleta aliasse um grande vigor físico à sua técnica. Durante uma trajetória que durou vinte e oito anos com a amarelinha, ela bateu o recorde de participações em Copas do Mundo, seja para homens ou mulheres: foram sete edições da competição mais importante do planeta.

A persistência de Formiga, que jogou na seleção brasileira até os 43 anos idade, vem da luta para poder jogar futebol. Se o irmão a agredia ao vê-la com os meninos, a mãe a incentivava no sonho, inclusive ajudando com o dinheiro de passagens. É uma história que demonstra a união entre mulheres para superar o machismo.

Formiga atravessou várias fases do futebol feminino no Brasil: da dificuldade de encontrar onde atuar ao boom inicial da década de 1990, da pressão estética à luta por reconhecimento dentro das quatro linhas, do desaparecimento ao ressurgimento. Sempre esteve lá, vestindo a amarelinha, como a própria representação de persistência que é.

Marta
Marta durante jogo do Brasil contra os Estados Unidos, 14 de Dezembro de 2014. Foto: Bruno Domingos/Mowa Press

A rainha do futebol

O Brasil apresentou para o mundo, em 1958, o rei do futebol: um menino negro de apenas 17 anos chamado Pelé. Nas décadas seguintes, ele ajudou sua terra a conquistar três Copas do Mundo e ficar conhecida como “o país do futebol”. Quase meio século depois, o Brasil também apresentou para o mundo a rainha do futebol.

Marta, coroada seis vezes como a melhor jogadora do mundo, tem uma história parecida com a de tantas outras mulheres brasileiras: nasceu em família humilde, em Dois Riachos, no interior de Alagoas. Com um ano de idade, foi abandonada pelo pai. Coube à mãe, Tereza, criar a futura craque e três irmãos.

Marta trabalhava desde cedo como carroceira para ajudar no sustento da família, mas tinha no futebol a sua grande paixão. Jogava entre os meninos e, claro, sofria com o machismo. Ela conseguia se destacar entre eles que, inconformados, ameaçavam machucá-la.

Com a ajuda de seu primeiro técnico, o Tota, Marta conseguiu testes no Rio de Janeiro. Tinha 14 anos de idade e embarcou sozinha para uma viagem de ônibus em direção ao sudeste. Foi aprovada no Vasco da Gama e, a partir daí, iniciou sua trajetória rumo a ser a melhor jogadora do mundo.

O auge da carreira de Marta aconteceu em um momento que o Brasil pouco investia no futebol feminino. Com isso, não houve condições para que todo o seu talento se transformasse em glórias para o país, ao contrário do que foi possível com Pelé.

Maior artilheira da seleção brasileira, superando o próprio Pelé, e maior artilheira das Copas do Mundo, Marta superou todas as adversidades para ser a rainha do futebol. Mas não há como não nos perguntarmos: quantas outras jogadoras geniais perdemos por machismo e descaso?

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Copa Além da Copa

Perfil oficial do Podcast Copa Além da Copa. A história, a geopolítica, a cultura e a arte que envolvem o mundo dos esportes.

Como citar

COPA, Copa Além da. A trajetória da mulher negra no futebol brasileiro. Ludopédio, São Paulo, v. 155, n. 14, 2022.
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