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A tristeza da Alegria do Povo (1a. parte)

Denaldo Alchorne de Souza 29 de setembro de 2022

O filme Garrincha, Alegria do Povo, de Joaquim Pedro de Andrade, foi filmado em 1962 e lançado nos cinemas brasileiros em 1963.[1] No enredo, para mostrar o craque fora dos gramados, os cinegrafistas resolveram acompanhá-lo anonimamente pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro, onde tiveram que “driblar” a curiosidade dos fãs. Para apresentá-lo na intimidade do lar, foram à vila natal de Pau Grande onde os espectadores conheceram sua mulher Nair, presenciaram o craque dançado com as filhas, bebendo num bar com os amigos Pincel e Swing e jogando um “racha” descalço e sem camisa. Finalmente, para filmá-lo em ação no Maracanã, resolveram tirar a câmera de sua posição clássica, na altura das arquibancadas, e colocaram-na no nível do gramado, ou até mesmo do fosso. Os primeiros planos dos seus dribles, os closes dos pés e o entusiasmo do simples torcedor eram capturados pelas lentes dos cinegrafistas, trazendo para dentro do cinema toda intimidade e magia do futebol.[2]

Entretanto, apesar de atualmente ser considerado um importante referencial da história do cinema brasileiro, na época não fez tanto sucesso. Podemos buscar diversas explicações para o baixo público: problemas na distribuição, a sua linguagem inovadora dificultando a aproximação com o espectador comum e deficiência na divulgação. Todos esses fatores tiveram sua parcela de contribuição; mas, as razões talvez sejam mais singelas.

Garrincha Alegria do Povo
Fonte: divulgação

O ano de 1962 terminou com muita popularidade para Garrincha. Depois de toda a glória conquistada na Copa do Mundo do Chile; em dezembro, na decisão do campeonato carioca, foi novamente o destaque na vitória do Botafogo contra o Flamengo, por 3 a 0. Infernizou com seus dribles os zagueiros adversários, fez dois gols e deu o passe para mais um. Quando acabou a partida, a torcida do Botafogo invadiu o campo e carregou Garrincha nos ombros.[3] Entretanto… Apenas três meses depois…

Essa foi a distância entre o “céu” e o “inferno” para Garrincha.

Em março, o craque se desentendeu com os dirigentes do Botafogo exigindo uma remuneração condizente com a sua importância. O impasse foi desencadeado no final do ano anterior, quando o clube fez a renovação de contrato do jogador Amarildo, um dos destaques na Copa. Amarildo estava ganhando um salário igual ao de Garrincha, 150 mil cruzeiros. Mas suas luvas eram de 10 milhões, enquanto as de Garrincha eram de 3 milhões. Este passou a exigir o mesmo valor. E chegou a ameaçar não jogar a última partida do campeonato carioca.

Garrincha não sabia, nem os torcedores e dirigentes, mas aquela final contra o Flamengo foi o seu último grande momento no futebol profissional. Nos meses e anos seguintes desenvolveram-se de forma cada vez mais aguda as dores que sentia no joelho. Sofria de artrose, que consiste no irreversível apodrecimento dos tecidos ósseos. A morfologia de suas pernas tortas agravava ainda mais a situação do joelho direito já que o seu peso era sustentado por ele.

Muitos achavam que era apenas uma simples dor muscular que, com o tratamento adequado, Garrincha se recuperaria rapidamente. Se não recuperava, era porque faltava às sessões de tratamento indicadas pelo médico Lídio Toledo.

No início de 1963, não havia como saber da gravidade do problema. Era um dos atletas mais requisitados do mundo. Não aceitava que Amarildo pudesse ganhar mais do que ele. Alguns dirigentes começavam a acusá-lo de falta de profissionalismo quando, pela segunda vez em uma semana, abandonou a concentração. Para o diretor de futebol do clube, Renato Estelita: “– Na minha opinião, Garrincha é um displicente, mas não um indisciplinado, e espero que agora ele tome jeito”.[4]

Os jornalistas queriam saber a posição de Garrincha. Disse que estava decepcionado com muitas coisas. Que estava contundido e, se não ficava no Botafogo, era porque o que ele fazia lá poderia fazer na sua casa. Ao ser perguntado sobre as reivindicações salariais, respondeu: “– Em primeiro lugar, um aumento. Antes da Copa do Mundo, eu era o jogador que mais ganhava no Botafogo”. E, “após a Copa do Mundo, em que me valorizei imensamente, deixei de ser o melhor pago. Não quero ganhar mais do que os outros, mas quero ganhar a mesma coisa”.[5] Alguns jornais do Rio começaram a mostrar outra imagem do ídolo. Para Ricardo Serrai, de O Globo: “Porque foi promovido de personagem de anedotas a figura de novela, Garrincha anda dominando o noticiário, infelizmente em capítulos não muito esportivos”.[6]

Sentindo-se pressionado, no dia 18 de março, Garrincha concedeu uma entrevista à Rádio Mauá: “– Nunca mais visto a camisa do Botafogo se eles não derem os Cr$ 10 milhões que exijo, em minhas mãos”. E continuou: “É preciso que todos saibam, o Botafogo não costuma pagar seus compromissos e posso citar vários casos concretos que provem isso”. Disse que os dirigentes prometeram pagá-lo à parte, por jogo, no exterior, mas nunca mais voltaram ao assunto. Ao lado, estava a cantora Elza Soares apoiando as atitudes do jogador “como amiga e desinteressada”.[7]

Os ouvintes da Rádio Mauá deviam ter ficado atônitos. Nunca viram algo parecido. As relações entre dirigentes e jogadores no futebol brasileiro sempre foram muito paternalistas e hierarquizantes, não admitindo contestações públicas. O caso ganhava uma dimensão ainda maior porque quem as fazia era um dos maiores craques nacionais, um jogador reconhecidamente pacato e muito querido não somente pelos botafoguenses, mas pelos brasileiros de todas as regiões do país. A diretoria do Botafogo, quando tomou conhecimento das declarações, decidiu aplicar uma multa de sessenta por cento sobre seus vencimentos, suspender seu contrato, bem como exigir uma retratação pública. Otávio Pinto Guimarães, diretor e conselheiro do clube, declarou que estava surpreso com a impressionante modificação operada em Garrincha. Durante dez anos manteve conduta exemplar, um modelo de candura, de disciplina e de dedicação. Entretanto, naquele momento, estavam na presença de um Garrincha inconsequente, inteiramente diverso do outro. Passou a fazer exigências descabidas, inclusive negando-se a procurar o clube. E concluiu dizendo que se Garrincha não viesse apresentar-se à diretoria, disposto a cumprir o seu contrato, a sua carreira estaria encerrada.[8]

Luiz Murgel, aliado de Havelange e representante brasileiro junto à FIFA, disse que Garrincha não ia participar do jogo comemorativo do centenário da federação inglesa de futebol, onde se reuniria os melhores jogadores do mundo. Garrincha respondeu: “– Não me importo. Com a FIFA ou sem a FIFA, dizem que sou o melhor do mundo. De qualquer maneira sou o Mané de Pau Grande”.[9]

Garrincha
Fonte: Reprodução Facebook

Além dos problemas físicos e profissionais, Garrincha estava tendo um relacionamento afetivo com a cantora Elza Soares. Segundo o seu biógrafo, Ruy Castro, todas as pessoas mais próximas – jogadores, dirigentes e jornalistas – conheciam a sua fama de mulherengo, apesar de casado com Nair, com quem já tinha sete filhas e grávida da oitava. Desde que estreou no Botafogo em 1953, foram inúmeras as mulheres em sua vida, Angelita Martinez foi somente a mais famosa entre elas. Em Pau Grande, todos sabiam de sua fama. Um dos relacionamentos extraconjugais de maior duração foi com Iraci. Sustentaram um caso mais ou menos secreto até Garrincha conhecer Elza Soares. Tiveram dois filhos. A mais velha chegou a ser registrada em cartório. Ainda havia os boatos de filhos na Suécia e no México. A imprensa não costumava noticiar os seus relacionamentos. Aliás, era uma prática comum dos jornalistas esportivos pouparem os jogadores desses escândalos. Muitos chegavam a ser “companheiros de aventura”.

Entretanto, o relacionamento com Elza se tornou público justamente no período que iniciava as desavenças com o Botafogo. Alguns dirigentes e repórteres começaram a associar o novo comportamento do craque, geralmente passivo em relação aos contratos, como resultado da influência da cantora.

Dois dias após as declarações de Garrincha na Rádio Mauá, os repórteres Roberto Garófalo Faria e Pietro Fantappié, de O Globo, publicaram uma matéria abordando a situação de abandono da esposa grávida e das sete filhas. Os repórteres foram recebidos por Nair em Pau Grande. Segundo os jornalistas, Nair tentou sorrir, mas não conseguiu. Lágrimas surgiram de seus olhos. “– Ele nunca foi assim. Alguém está mudando a cabeça de Mané, que, há duas semanas, não dorme em casa”. Como no último sábado, quando ficou em casa até às 18 horas. “Depois, disse que ia à padaria e até agora não apareceu”. Em relação ao clube, declarou: “– Estou ao lado do Botafogo. […] Entretanto, tem outra pessoa por trás de tudo isso, ditando os seus atos. Mané seria incapaz de proceder dessa forma”. E as lágrimas voltaram a surgir de seus olhos.

Após terem terminado a primeira parte da reportagem, os repórteres foram para a casa de Elza Soares, na Urca. Segundo a matéria: “gastamos mais uma hora, mas fomos na certa. Apesar de tudo o que aconteceu, o craque ainda desconhecia a suspensão de seu contrato e sua multa de sessenta por cento”. Os jornalistas perguntaram: “– Mas Garrincha, o Botafogo afirmou que não lhe deve nada”. E este respondeu: “– Todas as promessas foram feitas de homem para homem. Conversei com Renato Estelita, que me prometeu o dinheiro. Realmente, no papel está tudo certo, mas na palavra o Botafogo está errado”. Enquanto isso, Elza Soares ouvia tudo e também chorou. Finalmente, a matéria concluía: “Seus súditos não estavam contentes e o trono de Mané estava vago, à frente de 7 meninas e de uma mulher que lhe é totalmente dedicada”.[10]

Os jornalistas de O Globo prepararam a reportagem no meio de outras equipes que estavam à espera de notícias. Aparentemente ocorreu alguma troca de informações, pois no mesmo dia, os periódicos cariocas O Dia, Última Hora e Jornal dos Sports também publicaram matérias sobre Nair e sobre a “amizade” do jogador com Elza Soares.[11] Estas não possuíam a mesma profundidade que a de Garófalo e Fantappié, mas aproveitaram o conhecimento que já tinham deste e de outros relacionamentos de Garrincha e resolveram quebrar “o pacto de silêncio”.

Nos dias seguintes, jornais, revistas, rádios e canais de televisão buscaram avidamente por mais novidades sobre o romance. As manchetes de capa de O Dia, por exemplo, foram, no dia 20, “Elza Soares virou a cabeça do craque. Garrincha abandonou o lar pelos carinhos da cantora”; no dia 22, “Elza Soares (irritada) mostra-se disposta a largar tudo e sumir”; no dia 24, “D. Nair esposa de Garrincha adverte: ‘se a cantora vier a Pau Grande sairá de cabeça rapada a zero!’”; no dia 26, “Esposa de Garrincha quebrou todos os discos de Elza Soares”.[12]

De tanto a imprensa insistir, o casal acabou dando uma entrevista coletiva, nas ruas da Urca. Garrincha declarou: “– Nunca disse a ninguém que ia abandonar minha família. Meus rendimentos são suficientes para lhes assegurar conforto e bom futuro”. Mas “preciso também viver minha vida. Estarei sempre do lado de minhas filhas”. Falou que estava disposto a jogar na Europa e que Elza iria com ele. Elza confirmou e fez a seguinte confissão: “– Bem sei que grande parte dos que me admiram como cantora agora estão fazendo mau juízo de mim. Por favor, não pensem assim. Nunca soube o que é a felicidade”. E acrescentou: “– Casei aos 12 anos e só tive maus tratos. Cheguei ao estrelato e só conheci homens falsos, interesseiros, exploradores. Agora vejo em Mané, tudo aquilo que faltou nos outros. Devo renunciar?” Em relação ao dinheiro do jogador, disse: “– Dele nada quero”. E “com o que ganho sustento 28 pessoas. Ninguém desconhece que tenho os meus rendimentos e que não temo trabalho. Por que então iria eu atrás de Mané simplesmente pelo seu dinheiro?”[13]

Elza Garrincha
Foto: reprodução

Da noite para o dia Garrincha e Elza Soares passaram a ser pessoas malquistas por parte da sociedade carioca. Até em Pau Grande, mudaram o tratamento. Agora, muitos estavam dispostos em esquecer as glórias e a fama do craque caso ele não escutasse os apelos da família e dos amigos, largando tudo e voltando de vez para Pau Grande.[14]

Outros atletas resolveram opinar sobre o assunto. Nilton Santos disse: “– Eu não queria entrar na questão, mas quando li o apelo feito pela minha comadre Nair, achei que era hora de colaborar”.[15] Pelé, em conversa com Nilton Santos, comentou: “– Olhe Nilton, o Mané deve estar mesmo transtornado. Quando chegar ao Rio diga a ele para deixar de ser bobo, que não estrague sua carreira”.[16]

Retornando ao conflito do jogador com o clube, o banqueiro José Luís de Magalhães Lins predispôs-se a ser o mediador. Aconselhou Garrincha a ficar em Santa Cruz, bairro afastado do Rio, e a escrever uma carta se retratando com o clube.[17]

Cronistas como Armando Nogueira, do Jornal do Brasil, tentaram defender o craque: “O Botafogo, quando o conheci em 1944, era um clube triste, era um time neurastênico. A torcida do Botafogo tinha um grito amargo, frustrado”. O Botafogo vivia de relações cortadas com a vitória. “Era brigão, imaturo”. A imagem do clube era a de Heleno de Freitas, “imagem do herói sem infância, para quem o futebol era uma guerra, e o gol, uma maldição”. O Botafogo somente descobriu a alegria no futebol quando conheceu Garrincha. O botafoguense, que era um neurótico, acabou se tornado o torcedor mais descontraído do Maracanã. De tão alegre, chegou a ser debochado no seu canto de “Olé”. Quanto tudo isso vale? “Que dinheiro pode pagar o milagre de alguém que conseguiu dar ao futebol a ingenuidade e a pureza de uma brincadeira de roda?”[18]

Para o Botafogo, o que emperrava a negociação era a carta que Garrincha deveria escrever. Ele deveria fazer uma acatando todas as exigências dos dirigentes. Depois de cinco cartas, o presidente Paulo Azeredo e o diretor de futebol Renato Estelita deram o caso por encerrado.[19]

Finalmente, Garrincha estava em paz com o Botafogo, mas não com a imprensa.

[Continua …]

Notas

[1] O atual texto está dividido em duas partes e é baseado no sétimo capítulo do livro do mesmo autor, intitulado Pra frente Brasil! Ver: SOUZA, Denaldo Alchorne de. Pra frente, Brasil! Do Maracanazo aos mitos de Pelé e Garrincha, a dialética da ordem e da desordem (1950-1983). São Paulo: Intermeios, 2018, p. 175-189.

[2] Ver: Garrincha, Alegria do Povo (1963), filme longa-metragem de Joaquim Pedro de Andrade.

[3] Jornal do Brasil, 17 dez. 1962, p.1.

[4] Jornal do Brasil, 16 mar. 1963, p. 12.

[5] Jornal do Brasil, 18 mar. 1963, p. 27.

[6] SERRAI, Ricardo. De assunto de anedotas a personagem de novelas. O Globo, 18 mar. 1963, p. 24.

[7] Jornal do Brasil, 19 mar. 1963, p. 14.

[8] O Globo, 20 mar. 1963, p. 16.

[9] Última Hora, Rio de Janeiro, 20 mar. 1963, p. 13.

[10] FARIA, Roberto Garófalo; FANTAPPIÉ, Pietro. Agitado o pequeno mundo de Garrincha. O Globo, 20 mar. 1963, p. 16.

[11] Ver: O Dia, 20 mar. 1963, p. 1, 7; Última Hora, Rio de Janeiro, 20 mar. 1963, p. 1; Jornal dos Sports, 20 mar. 1963, p. 10.

[12] O Dia, 20 mar. 1963, p. 1; O Dia, 22 mar. 1963, p.1; O Dia, 24 mar. 1963, p.1; O Dia, 26 mar. 1963, p. 1.

[13] Última Hora, Rio de Janeiro, 21 mar. 1963, p. 11.

[14] Última Hora, Rio de Janeiro, 20 mar. 1963, p. 13.

[15] Folha de S. Paulo, 23 mar. 1963, p. 10.

[16] Folha de S. Paulo, 22 mar. 1963, p. 14.

[17] Jornal do Brasil, 25 mar. 1963, p. 28.

[18] NOGUEIRA, Armando. Na grande área. Jornal do Brasil, 25 mar. 1963, p. 27.

[19] NOGUEIRA, Armando. Na grande área. Jornal do Brasil, 26 mar. 1963, p. 15.

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Denaldo Alchorne de Souza

Denaldo Alchorne de Souza fez pós-doutorado em História pela USP, doutorado em História pela PUC-SP e mestrado, especialização e graduação em História pela UFF. É autor dos livros Pra Frente, Brasil! Do Maracanazo aos mitos de Pelé e Garrincha, 1950-1983 (Ed. Intermeios, 2018) e O Brasil Entra em Campo! Construções e reconstruções da identidade nacional, 1930-1947 (Ed. Annablume, 2008), além de diversos artigos publicados em revistas, jornais e sites. Atualmente é pesquisador do LUDENS/USP e Professor Titular do Instituto Federal Fluminense, onde leciona disciplinas na Graduação em História.

Como citar

SOUZA, Denaldo Alchorne de. A tristeza da Alegria do Povo (1a. parte). Ludopédio, São Paulo, v. 159, n. 31, 2022.
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