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A tristeza de Ramiro “Chocolatín” Castillo

Fábio Areias 14 de março de 2020

Domingo, 29 de junho de 1997. Dia da final da Copa America entre Brasil e Bolívia. Horas antes da partida que seria disputada em La Paz, a delegação boliviana recebeu uma terrível notícia: o filho de Ramiro Castillo, meio-campista titular da seleção, havia sido internado às pressas em virtude de uma hepatite grave.

“A notícia veio e eu tive que dar a ele. Interrompi o trabalho dele e disse: ‘Seu filho está em terapia intensiva’. Ele rapidamente tirou a camisa, jogou para mim e fugiu”, recordou o fisioterapeuta da seleção boliviana, Omar Rocha. Castillo abandonou imediatamente a concentração para ir ao hospital. O dia que prometia ser o melhor de sua carreira futebolística acabou sendo o pior de sua vida pessoal. O menino José Manuel acabou falecendo no dia seguinte.

O destino também conspirou contra a Bolívia naquele distante domingo de 1997. Após virar o primeiro tempo em 1 a 1 (com uma falha terrível do goleiro Taffarel no chute de Erwin Sanchez), a Bolívia realizou uma enorme pressão nos 25 minutos iniciais do segundo-tempo para ficar em vantagem na partida. Colocou três bolas na trave, mas não conseguiu marcar. O Brasil, mesmo com pouco fôlego, conseguiu fazer o segundo gol em uma tabela entre Denílson e Ronaldo (à época chamado de Ronaldinho). Nos acréscimos, Zé Roberto fez o terceiro e sacramentou o título. O primeiro da seleção canarinha em uma edição disputada fora do Brasil.  

Final de partida. O técnico Zagallo ofegante e com o rosto vermelho avisa para todo o país: “Vocês vão ter que me engolir”. Mas a Bolívia havia feito uma grande apresentação. Se existisse o VAR em 1997, o resultado poderia ter sido outro. Impedido, Edmundo desviou o chute do primeiro gol brasileiro. O mesmo Edmundo também deveria ter sido expulso apos um soco no volante Cristaldo. De qualquer forma, a seleção paceña não conquistou seu segundo título da Copa America. O primeiro (e único) troféu continental havia sido conquistado em 1963.

A derrota impediu a consagração de uma geração de ouro boliviana. Talvez a melhor da história do país. Quem acompanhou os duelos entre Bolívia e Brasil nos anos 1990 deve se lembrar de nomes como Marco “El Diablo” Etcheverry, Erwin “Platini” Sánchez, Carlos Trucco, Marco Sandy, Julio Cesar Baldivieso, Jaime Moreno, Luis Cristaldo e… Ramiro Castillo. Juntos eles conquistaram a classificação para a Copa do Mundo de 1994 e esperavam o título em casa da Copa America de 1997, diante de um estádio Hernando Silles lotado. Seria o final perfeito de uma nação não exatamente destinada à felicidade.

A figurinha de Marco Etcheverry e Ramiro Castillo, convocados pela seleção boliviana, no álbum da Copa do Mundo de 1994. Foto: Reprodução.

Negro, magro, humilde e… talentoso

Em um país dividido entre indígenas e brancos, Ramiro Castillo era um raro negro boliviano. De acordo com o censo nacional de 2012, apenas 16 mil pessoas se declararam afro-bolivianas. Pouquíssimos para um país de 10 milhões de habitantes.

Ramiro Castillo posa para antes de uma partida. Foto: Wikipedia.

Castillo ganhou o apelido de “Chocolatín”. O jogador era um magro meia-atacante com habilidade e um potente chute. Em 1985, iniciou a carreira no The Strongest. Dois anos depois foi contratado pelo Instituto de Corboba (1987-88, 27 partidas, 1 gol)  e iniciou uma bem-sucedida sequência pelo futebol argentino. Ao longo de sete anos, passou também pelo Argentino Junior (1988-90, 69 partidas, 8 gols), River Plate (1990/91, 10 partidas, 1 gol), Rosário Central (1991-92, 16 partidas) e Platense (1993-94, 23 partidas, 1 gol). Foram 146 partidas e 10 gols marcados por clubes argentinos. Recorde boliviano não superado até os dias atuais.

Nito Veiga, treinador de Castillo no Argentino Juniors, afirmou em uma ocasião: “Se Chocolatín vestisse a camisa da Argentina ou do Brasil, valeria milhões de dólares”. Fazia algum sentido. O futebol boliviano, tão menosprezado no cenário internacional, não é somente altitude. Havia muito talento paceño nos gramados. Especialmente a geração dos anos 1990. 

O auge de Castillo já havia passado quando foi disputada a Copa América de 1997. Aos 31 anos, jogava no Bolívar (apesar de ser torcedor e ex-jogador do The Strongest) e começou o torneio continental na reserva. No entanto, uma grande atuação nas semifinais contra o México, com direito a um gol na vitória por 3 a 1, garantiu sua presença entre os titulares na final contra o Brasil. Até a terrível notícia.

Seguir. Até sucumbir

Ramiro seguiu jogando após a morte de seu filho, mas alguns vazios são difíceis de preencher. Em 18 de outubro de 1997, aproximadamente três meses e meio após a morte de seu filho, Ramiro Castillo cometeu suicídio em sua casa. Amarrou uma gravata no pescoço e resolveu dar um fim ao seu sofrimento. O ato ocorreu na véspera de uma partida entre Bolívar e The Strongest. Clássico imediatamente cancelado após a notícia da morte de Ramiro. Em uma triste manhã de sábado, a Bolívia lamentava a perda de um dos seus ídolos.

A data da morte de Ramiro Castillo ocorreu um dia após o que seria o aniversário de 8 anos de José Manuel. A depressão que o acometeu nem o futebol conseguiu diminuir. Foi enterrado ao lado do filho. De alguma forma, estavam juntos novamente.

Ramiro Castillo ao lado dos filhos. Foto: Reprodução/Futebolistas y DT Bolivianos.
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Fábio Areias

Formado em Comunicação Social pela ESPM , cocriador do site Extracampo, projeto que busca apresentar as entrelinhas do futebol e seu impacto na sociedade e vida das pessoas.

Como citar

AREIAS, Fábio. A tristeza de Ramiro “Chocolatín” Castillo. Ludopédio, São Paulo, v. 129, n. 14, 2020.
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