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A Tuna Luso Brasileira: um patrimônio esportivo da Amazônia Paraense

1. A trajetória da Tuna

Durante o período de exploração da borracha na Amazônia, datado de meados do século XIX até o início do século XX, o fluxo migratório na região foi extremamente intenso. De acordo com o censo brasileiro do ano de 1872, tem-se a chegada de 6.529 estrangeiros no Pará, sendo a maioria de europeus, com proeminência para os portugueses, os espanhóis, os franceses, os ingleses, os alemães, os italianos e os austríacos. Dentre os cinco grupos migratórios supras citados, os portugueses formam os primeiros, chegando ao Pará principalmente homens sem família, que, além da esperança de ter um trabalho trouxeram na bagagem vivências culturais, como a do futebol (EMMI, 2013).

Apesar do futebol já se encontrar em terras brasileiras, destacamos a relevante contribuição com a fundação de clubes de futebol pelos lusos: o Clube de Regatas Vasco da Gama (Rio de Janeiro), a Associação Atlética Portuguesa (Santos), a Associação Portuguesa de Desportos (São Paulo) e a Tuna Luso Brasileira (Belém). Este último foi fundado com o nome Real Tuna Luso Caixeiral, em 01 de janeiro de 1903 em Belém do Pará, nome este que fazia referência a uma orquestra popular local com forte participação dos comerciantes portugueses.

Tuna Luso Brasileira
Fonte: Wikipédia

O time é detentor dos seguintes títulos de campeão paraense nos anos de 1937, 1938, 1941, 1948, 1951, 1955, 1958, 1970, 1983, 1988; vencedor da Taça Cidade de Belém, do Campeonato Centenário da Federação Paraense de Futebol e do Torneio Início do Paraense em 1985. Em âmbito nacional foi campeão do Brasileiro da Série B em 1985 e do Brasileiro da Série C em 1992 (TUNA LUSO BRASILEIRA, 2023).

A sua primeira sede do clube não existe mais, pois ela não conseguiu acompanhar as possibilidades múltiplas das práticas esportivas da Tuna. Desta forma, em 7 de julho de 1935 foi inaugurada a nova sede. O estádio denominado como Francisco Vasques, conhecido popularmente como “Souza”, tem capacidade para 6.500 torcedores e apesar das inúmeras conquistas no remo, futsal e natação, o futebol é o grande responsável por seu reconhecimento da Tuna no cenário esportivo nacional. O futebol tunante iniciou na década de 1930, quando o clube deixou a prática no largo do Batista Campo e passou a competir nos campeonatos locais e nacionais, consagrando-o como parte da tríade do futebol paraense, juntamente com o Clube do Remo e Paysandu Sport Club (MEMORIA TUNANTE, 2023: sem página).

“Já em 1957, a partir do desenvolvimento de outras atividades esportivas no clube, viu-se a necessidade de transformar o Estádio do Souza em cidade olímpica, criando, para tanto, um complexo de edifícios e equipamentos que seria a Sede Campestre da Tuna” (ARAÚJO, 2011: 06). Nesse complexo, destaca-se o edifício administrativo, no qual está inserido a diretoria, o restaurante, o bar e a boate. Em uma análise arquitetônica, pode-se afirmar que as composições volumétricas revelam uma linguagem próxima à Le Corbusier, mas com a interface regional típica do movimento moderno de Belém (GRIBEL e SANJAD, 2016).

Tuna Luso
Foto: Reprodução Facebook

2. O reconhecimento como Patrimônio Cultural Imaterial 

Não obstante a sua importância referência arquitetônica, que poderia caminhar para a tradicional ideia de salvaguarda do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a Tuna Luso Brasileira recebeu o reconhecimento como Patrimônio cultural de natureza imaterial do Estado do Pará de acordo com a lei n° 7.693, de 3 de janeiro de 2013. “Esta Lei declara o Castanhal Esporte Clube (japiim), Águia de Marabá Futebol Clube, São Raimundo Esporte Clube, Cametá Sport Club e Tuna Luso Brasileira integrantes do patrimônio cultural de natureza imaterial do Estado do Pará, nos termos do art. 286 da Constituição Estadual” (PARA, 2013: art. 1º).

Tal reconhecimento, que vai ao encontro da ampliação do conceito de Patrimônio Cultural citado na Constituição de 1988, que deixa de focar apenas nos bens patrimoniais de natureza material e abre para a valorização dos bens de natureza imaterial. Ora, o Estado do Pará, ao optar pelo reconhecimento do futebol como manifestação de lazer, esporte e cultura, dá uma guinda na tradicional linha que prioriza o tombamento de estádios de futebol. No entanto, ao procurarmos pelo inventário e/ou processo de registro dos clubes paraenses, este não foi localizado.

A dúvida que permeia é: a valorização foi apenas uma citação na legislação ou houve um estudo para o registro dos clubes? A ação de preservação é de suma relevância, mas esta não completa o ciclo efetivo para tal. Para o reconhecimento de um Patrimônio Cultural pelo Estado, se faz necessária seguir os procedimentos da instauração e instrução do processo administrativo de Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial do IPHAN datado de 2006, que, por sua vez, orienta as legislações estaduais.

Segundo essa legislação “para iniciar o processo administrativo é necessária a apresentação de um requerimento, que pode ser feita pelo ministro da Cultura, pelas instituições vinculadas ao Ministério da Cultura, pelas Secretarias Estaduais, Municipais e do Distrito Federal, e por associações da sociedade civil. Além da justificativa, dentre outras exigências, esse documento deverá conter a descrição sumária do bem proposto para o Registro, as informações históricas, e uma declaração formal de representante da comunidade produtora do bem ou de seus membros, expressando o interesse e anuência com a instauração do processo de Registro” (IPHAN, 2023:01). Assim sendo, apesar da Tuna ter recebido o reconhecimento local de Patrimônio Cultural acreditamos que devido sua grande importância no cenário esportivo paraense, se faz necessária a efetiva inserção do time nos Livros de Registro.

Referências

ARAÚJO, Camilla Leandra da Costa; FLORENZANO, Luciana da Silva; GRIBEL, Renata Lucena; HOHLENWERGER, Samia Salim; SETTON, Raquel Paiva Arquitetura moderna na sede campestre da Tuna Luso Brasileira em Belém do Pará 9º Seminário Docomomo Brasil: interdisciplinaridade e experiências em documentação e preservação do patrimônio recente. Brasília: Docomomo, junho de 2011. Disponível em https://docomomo.org.br/wp-content/uploads/2016/01/123_PB_OR-ArquiteturaModernaNaSede-ART_renata_gribel.pdf Acesso dia 16/01/2023.

EMMI, Marília Ferreira Um século de imigrações internacionais na Amazônia brasileira (1850-1950) Belém: Editora do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará, 2013.

GRIBEL, Renata e SANJAD, Thais A. B. Caminha O corredor de arquitetura moderna de Belém e os desafios teóricos e conceituais de sua preservação In.: TEIXEIRA, Rubenilson Brazão e DANTAS, George Alexandre Ferreira (orgs.) Arquitetura em cidades “sempre novas”: modernismo, projeto e patrimônio Natal: EDUFRN, 2016.

GONÇALVES, J. R Autenticidade, memória e ideologias nacionais: o problema dos patrimônios culturais. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, 1996.

IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional Registro de Bens Culturais 2023 Disponível em http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Registro%20de%20Bens%20Culturai1.pdf  Acesso dia 16/01/2023.

MEMÓRIA TUNANTE A Tuna Disponível em  https://memoriatunante.tumblr.com/tagged/tuna Acesso dia 16/01/2023.

PARÁ. Lei nº. 7.693, de 03 de janeiro de 2013. Declara o Castanhal Esporte Clube (japiim), Águia de Marabá Futebol Clube, São Raimundo Esporte Clube, Cametá Sport Club e Tuna Luso Brasileira integrantes do patrimônio cultural de natureza imaterial do Estado do Pará. Diário Oficial do Estado do Pará, Belém, 4 jan. 2013.

TUNA LUSO BRASILEIRO Títulos Disponível em  https://www.tunalusobrasileira.com.br/institucional/titulos Acesso dia 16/01/2023.

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Como citar

GOMES, Danielle da Silva; LOTT, Wanessa Pires. A Tuna Luso Brasileira: um patrimônio esportivo da Amazônia Paraense. Ludopédio, São Paulo, v. 163, n. 22, 2023.
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