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A violência policial um dia chega até você

torcida Botafogo-PB
Torcedores da TJB são revistados pela polícia. Foto: Phelipe Caldas

– Vocês querem recomendação ou pau?

A frase era proferida num grito irado, num tom ameaçador e desnecessário, sugerindo que se as ordens não fossem obedecidas haveria sanções em forma de agressão física.

Não era permitido mexer minimamente de posição. E a qualquer nova mudança éramos chamados de “queixudos”.

A lei não valia ali. A violência era usada como ameaça, como argumento de negociação.

Fazia um calor infernal em Ceará-Mirim, no interior do Rio Grande do Norte. O sol era impactante. Desgastante. Tínhamos sido retirados do ônibus em que estávamos e éramos obrigados a ficar encostados numa parede, olhando para o concreto a nossa frente e com as mãos encostadas na cabeça.

Foi mais de uma hora nessa posição. E apesar das dores que a inércia prolongada provocava, os policiais militares nos obrigavam a ficar imóveis. Eles não recuavam. Continuavam nos xingando e nos intimidando.

– Vocês vêm lá da casa do caralho e querem dar trabalho para nós?

Pois é. A cena não se refere a nenhum ladrão ou algo do tipo. Refere-se a policiais militares que não perdiam uma oportunidade de nos humilhar e de nos interditar como cidadãos.

Assim se seguiu.

Os questionamentos continuavam agressivos e com a informação de que não aceitariam nada mais do que “sim senhor” e “não senhor” como resposta.

A sensação era a de que a qualquer momento poderíamos ser agredidos.

Rápida pausa.

Eu pesquiso as formas de torcer no futebol brasileiro. Já escrevi sobre violência policial, sobre preconceito contra torcidas organizadas e contra a periferia. Mas nunca tinha vivido o que vivi naquele 6 de fevereiro de 2022.

torcida Botafogo-PB
Revista aconteceu também depois do jogo pela Copa do Nordeste. Foto: Phelipe Caldas

Pesquisando a Torcida Jovem do Botafogo-PB (TJB), dessa vez viajando ao lado deles, fui imediatamente tratado e entendido como criminoso.

Não ligo. Quero sempre estar ao lado de meus interlocutores da TJB.

Mas é impossível não pensar em Tsoukala (2014).

É ela quem fala em “torcedores de risco”, quem fala em “estratégias de controle”, quem define que existe um tipo de torcedor que, por mais que esteja dentro da lei, vai sempre ser criminalizado pelas autoridades públicas.

Dia desses, eu senti na pele toda essa violência.

Referências

TSOUKALA, Anastassia. 2014. “Administrar a Violência nos Estádios da Europa: quais racionalidades?”. In: B. Hollanda e H. Reis (orgs.), Hooliganismo e Copa de 2014. Rio de Janeiro: 7Letras. pp. 21-35.

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Phelipe Caldas

Doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal de São Carlos, mestre em Antropologia pela Universidade Federal da Paraíba, graduado em Comunicação Social - Jornalismo pela UFPB. É escritor e cronista, com quatro livros já publicados. Integra o Laboratório de Estudos das Práticas Lúdicas e de Sociabilidade (LELuS/UFSCar) e o Grupo de Estudos e Pesquisas em Etnografias Urbanas (Guetu/UFPB). É membro-fundador da Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte (ReNEme).

Como citar

CALDAS, Phelipe. A violência policial um dia chega até você. Ludopédio, São Paulo, v. 152, n. 17, 2022.
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