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“A voz”: Patrícia Castro é a primeira mulher a narrar jogo oficial de futebol no Ceará

Crisneive Silveira 25 de novembro de 2021

Quando nasceu, em 18 de outubro de 1978, Patrícia Castro sequer imaginava, mas as mulheres ainda estavam proibidas de praticar futebol naquele Brasil ditatorial. Mais de quatro décadas depois, no mês em que celebrou 43 anos, tornou-se a primeira mulher a narrar uma partida oficial do esporte no Ceará. A abertura do Campeonato Cearense Feminino entre Fortaleza e Guarany de Sobral, realizada na capital, teve a história contada pela radialista na web tv da Federação Cearense de Futebol (FCF). Conhecida entre amigos de profissão como “A voz”, realizou o sonho antigo. Para tanto, enfrentou inúmeras camadas de discriminação e as consequentes inseguranças: pelo gênero, pela idade e pelo corpo.

Patrícia Castro, narradora cearense
Inédito trio de transmissão esportiva formado somente por mulheres, no Ceará. Da esquerda para a direita: a repórter Josie Freitas, a narradora Patrícia Castro e a comentarista Paula Barroso. Foto: Cortesia de Jorge Brunno.

Natural de Fortaleza, Patrícia recebe felicitações pelo aniversário durante a conversa. A alegria da nova idade brilha no batom encarnado. O passado também moldou o sorriso. O apego ao esporte vem de quando via o pai jogar em campos amadores, na infância. Ela se divertia enquanto José defendia o gol. Entretanto, a menina insistia em conhecer um “estádio de verdade”. Assim, a recordação mais viva é de ver o Ferroviário ao lado dele, nas idas ao Presidente Vargas (PV) – arena erguida em 1941 e que leva o nome do presidente que impediu a participação feminina na modalidade, com o decreto-lei 3.199 do mesmo ano.

O interesse pelo rádio amadureceu na frequência do tempo. Em 2008, concluiu o curso do Sindicato dos Radialistas do Ceará. Na companhia do irmão, o narrador J Filho, apresentador na Maranguape FM, fez participações e acabou efetivada na função.

“O pessoal gostou da minha voz. Eu não tinha nenhuma noção de rádio, e passei a fazer o programa aos finais de semana.”

A entrada no esporte veio por influência de Jaime Sena, radialista da Metropolitana à época. Nem imaginava atuar na área e ainda assim abraçou a oportunidade. Eles se conheciam de trabalhos anteriores. E num carnaval, após noticiar dos corredores da folia, um encontrou o outro na mesma sintonia. Estão juntos há 21 anos. Felizes. Tomado o gosto e a paixão pela radiodifusão, ela tornou-se cronista e a primeira na diretoria da APCDEC (Associação Profissional dos Cronistas Desportivos do Estado do Ceará), convidada por Edilson Alves, antigo presidente. Hoje segue na entidade, agora dirigida por Alano Maia.

Atuou em várias emissoras, porém, escolheu dedicar-se ao novo projeto com Jaime. A JP Esportes nasceu na esteira crescente das transmissões esportivas via internet. A iniciativa cavou a chance na FCF, no ano de 2013. Jogou nas 11, como: cinegrafista, repórter de campo, produtora… O olhar no radinho de pilha a faz lembrar de um episódio. No Castelão, num tempo em que mulher só era vista em atividade na beira do campo se fosse líder de torcida ou repórter televisiva, ela teve a presença questionada por um homem. Apesar do microfone e anotações em mãos, calmamente respondeu estar a trabalho. Ameaçada de ser retirada do local, logo entendeu o motivo: machismo.

“Ele disse: ‘você não está aqui para trabalhar, veio ver pernas bonitas.’ E respondi: Se eu quisesse curtir, estaria em casa. Vim trabalhar e vou ficar. Ele ficou dizendo que não, e o tom nas alturas. O povo se aproximou, e ele vendo aquilo disse: ‘fique, fique’. Eu não ia sair. Depois quis ser meu amigo.”

Patrícia ao lado do noivo Jaime Sena, que também é radialista, no estádio Presidente Vargas, em Fortaleza. Foto: Arquivo Pessoal

Imaginava narrar enquanto, da cabine, fazia imagens de jogo e corria até o campo a fim de reportar. O nascimento da FCF TV aumentou o querer. E incomodou muitos. Ergueu-se um muro com o receio da rejeição. Desistiu. Em 2018, o canal Esporte Interativo lança o programa Narradora Lay’s, para descobrir um novo talento feminino. A cearense Débora Brito participou. Incentivada a fazer o mesmo, Patrícia se vê presa num obstáculo invisível: o padrão físico condicionante para mulheres aparecerem na televisão. Essa herança patriarcal, aos poucos, começa a decair. Agora, mais experiente e sabedora do quanto é desnecessário se encaixar num modelo de corpo, narrar significou furar a bolha dessa estrutura opressora, inclusive na comunicação esportiva.

“Por ser tv, eu sei que conta rosto bonito e estar bem feita. Por estar fora do nível que pediam, pesou. Era medo. Mas a gente tem que continuar. De lá pra cá, tanta coisa eu fiz e agora estou aqui. Se sou a pioneira, vou encarar isso. Não vamos tomar espaço dos homens. Nós temos nossas vozes. O importante é passar a emoção do jogo, os detalhes… A gente também entende e gosta de futebol.”

O desejo de narrar adormeceu por anos. Ao ver outras atuarem na tv aberta, veio o despertar. O anúncio de Renata Silveira como a primeira narradora esportiva da Globo, em 2020, era o empurrãozinho esperado. Juntou o apoio da família, do companheiro e dos colegas e decidiu tentar. Com a pandemia, ficou mais tempo em casa e voltou a praticar. “A voz”, apelido dado pelo comentarista Hugo do Vale, logo enfrentaria o maior desafio: narrar todo o confronto de estreia do Cearense Feminno. Fortaleza e Guarany se enfrentaram no CT Ribamar Bezerra, dia 9 de outubro. Além da narração pioneira, o trio de transmissão era igualmente inédito, formado só por mulheres. Estavam também Josie Freitas (reportagem) e Paula Barroso (análise). Deu certo do jeito que a narradora pediu a Deus.

“Fiquei uma semana só pensando nisso, até sonhei. Eu disse: gente, vou esquecer as posições, nomes dos clubes… No decorrer da transmissão, fui aperfeiçoando. Vi que o pessoal do chat estava gostando. E mesmo que não estivessem, eu iria continuar. Não vou parar como em 2013. Pensar em fazer algo que eu queria e deixar por preconceito de muitos. Foi prazeroso. Errei? errei. Estamos aí para aprender.”

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O timbre poderoso também entrega carisma. Teve experiências rápidas na Série B do Cearense 2008, ao narrar alguns minutos de Limoeiro x Maracanã porque o irmão passou mal pelo calor. Em fevereiro, fez Aliança x Cariri pela Série C. Sozinha, filmou e narrou. Partidas completas, só no Feminino 2021. Fortaleza x Guarany, Guarany x Ceará e o Clássico-Rainha entre Leoas e Meninas do Vozão, atual campeão estadual e vice. Até ensaia alguns bordões: “Amantes do futebol”, “eita menino, eita menina!”. A espontaneidade conduz. Entre as referências, nomes nacionalmente conhecidos e outros de perto.

“Muita gente diz Galvão Bueno porque assistiu futebol somente com homens trabalhando. Daqui do Ceará, gosto da repórter Cláudia Andrade. De narrador, o Cesar Luis, do Futebolês, e do meu irmão, J Filho. Mas o Galvão é um ícone. Quando surgiu o nome da Renata (Silveira), pensei: nossa, que voz legal. Ela não vai no ritmo masculino, tem o diferencial dela. Gosto muito.”

Patrícia Castro
Patrícia Castro, ainda como repórter, no primeiro jogo em que atuou na Arena Castelão, em 2008. Foto: Arquivo Pessoal.

O decreto-lei da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) afastou mulheres não só da prática do futebol e de outras modalidades. Ele também construiu um muro de desprezo ao feminino. Em 2021, 80 anos após a proibição, vê-se emissoras de tv, rádio e web transmitindo mais jogos, e a participação feminina se expandir com narradoras, comentaristas, árbitras e uma audiência maior. No Audioguia Mulheres do Futebol, produzido pelo Museu do Futebol, parte dessa história é contada. Zuleide Ranieri, a primeira mulher a narrar o esporte no Brasil, relata a experiência vivida na Rádio Mulher ainda nos anos 1970. O espaço é desbravado a várias mãos, falas e escutas. Patrícia vê nela mesma, na Renata Silveira e nas demais, o espelho de um futuro sedimentado na coragem das antecessoras. E as nordestinas ainda são raras. Entre as referências, a baiana Manuela Avena. 

“É importante assumirmos protagonismo nesse campo. A mulher narrando e conseguindo se fixar, e aparecendo outras narradoras é uma das coisas mais importantes que aconteceram para nós no futebol nessa década. A gente teve, por tantos anos, vários fatos históricos dos times sendo guardados na memória do torcedor só com voz de homem. E agora temos a oportunidade de nos colocarmos enquanto mulheres na memória do torcedor”, comenta Iara Costa, jornalista do O Povo e autora do livro Um Novo Grito de Gol.

No Brasil, as mulheres já narram Brasileirão, Champions League, Copa do Mundo, Olimpíadas… É preciso mais! Democratizar os sotaques, corpos, abrir portas e mostrar a caminhada delas. Isso é compreender a representatividade não só como agente transformadora, mas registro de uma luta que deve ser lembrada em nome do que ainda há de ser conquistado. Sem planejar enveredar pelo meio esportivo, Patrícia deixa o nome cravado no segmento: é a primeira voz feminina a narrar uma partida oficial de futebol no Ceará. A pioneira entende a importância de quem sempre acreditou no seu potencial e faz um pedido.

“Eu senti pra caramba (o preconceito). Nós estamos ocupando cada vez mais espaços. Nós queremos somar. Mulheres, não desistam. Seja qual profissão for: no futebol, na saúde, na segurança… Mulheres sofrem em todas as áreas. Tudo que vocês quiserem, persistam. Vocês vão alcançar seus objetivos. Os obstáculos estão aí, é muita negatividade. Ultrapassem que vocês vão alcançar seu sucesso almejado. As dificuldades estão aí pra gente enfrentar e a vitória é nosso sucesso.”

Seis equipes participaram do Cearense Feminino. As quatro melhores disputam a fase semifinal: Ceará, Fortaleza, Menina Olímpica e Guarany de Sobral. Os jogos de volta serão realizados nesta sexta-feira (26), às 15 horas. É possível conferir o trabalho de Patrícia nas transmissões realizadas no YouTube da FCF. O estadual tem previsão de término para o dia 4 de dezembro, quando deve ser realizada a grande final. 

Confira a narração de Patrícia Castro no Clássico-Rainha.

Confira a primeira narração de Patrícia Castro na estreia do Cearense Feminino.

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Crisneive Silveira

Gosto do futebol jogado e do futebol vivido. Jornalista formada pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

Como citar

SILVEIRA, Crisneive. “A voz”: Patrícia Castro é a primeira mulher a narrar jogo oficial de futebol no Ceará. Ludopédio, São Paulo, v. 149, n. 28, 2021.
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