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Abordagens da literatura esportiva sobre corrupção no futebol

Wesley Barbosa Machado 24 de julho de 2020

O ex-jogador de Fluminense, Flamengo, Americano e Goytacaz, entre outros clubes, José Roberto Padilha, o Zé Roberto, publicou em 1987 o livro “Futebol: a dor de uma paixão”, onde o título por si só expressa o sentimento de desilusão com o esporte mais propagandeado do mundo. No trecho a seguir, o autor demonstra que o problema do futebol pode estar relacionado à questão dos dirigentes esportivos.

“O afastamento da figura do cartola me parece o primeiro passo a ser dado em busca da reformulação do nosso futebol. Porque antes de qualquer medida técnica ou tática, precisamos recuperar a dignidade de sua estrutura. E nada como começar por cima, afastando do comando da CBF figuras que só utilizam o futebol como suporte político”. (PADILHA, 1987: 66)

Este trecho está incluído no capítulo “Política: Um estranho no ninho”, em que Zé Roberto, que estava no fim da carreira de jogador, afirma que o jogador de futebol em geral é uma pessoa alienada. Zé Roberto afirma que era uma exceção à regra.

Continuando a abordar os prováveis “culpados” – sem cair em juízo moral – pela corrupção no futebol, trago à baila um trecho do clássico livro do intelectual uruguaio Eduardo Galeano, “Futebol ao Sol e à Sombra”:

“O árbitro é arbitrário por definição (…) Seu trabalho consiste em se fazer odiar. Única unanimidade do futebol: todos o odeiam. É vaiado sempre, jamais aplaudido” (GALEANO, 2002).

Capa do livro “Futebol Empresa: a nova dimensão para o futebol brasileiro”, de Roberto Mackv (1980)

Apesar de generalizar, Galeano, em nenhum momento toca na questão de uma possível desonestidade do árbitro de futebol, que é muito estigmatizado por isto, tendo em vista que o árbitro costumeiramente desagrada ambos os times envolvidos numa partida e quando um time perde, o torcedor do time perdedor vai procurar geralmente o culpado se não no seu próprio time, no fator externo, que seria no caso o árbitro, que tem o poder de tomar decisões que podem influenciar no resultado do jogo.

Em 1987, o jornalista e ex-técnico de futebol, João Saldanha, que foi demitido da seleção brasileira por questões políticas durante a ditadura militar no Brasil – afinal Saldanha era assumidamente opositor ao regime militar; pois bem, ele publicou o livro “Meus amigos”, que tem um capítulo denominado “Jogo Sujo”, o mesmo título em Português do livro de Andrew Jennings publicado no Brasil em 2011 e o primeiro de uma série a explicitar a questão da corrupção na FIFA.

Pois voltando ao livro de João Saldanha, destacamos a seguir um trecho onde ele comenta sobre alguns escândalos de corrupção na Europa:

“Não lembro bem em que ano, mas acho que foi em 1971, chegando à Europa, em trânsito de Madri a Paris que peguei, ao acaso, um jornal inglês que falava em escândalo no futebol europeu na manchete da primeira página. O escândalo não era um só. Um na Alemanha e outro na Inglaterra. O escândalo inglês envolvia apenas um jogador de terceira ou quarta divisão num caso de suborno. Mas o da Alemanha envolvia cinco jogadores e a notícia afirmava que, pelo menos, mais dois certamente apareceriam, o presidente e um diretor do Schalke 04 (…) (…) Um ano antes, X, estava no meio de uma turma de jogadores alemães que amoleceram jogos por causa de apostas”. (SALDANHA, 1987: 144)

A percepção de corrupção de João Saldanha está correlacionada ao fenômeno das apostas esportivas, que podemos perceber é antigo. O relato de João Saldanha é do início da década de 1970. O fenômeno da aposta esportiva se profissionalizou com o advento dos sites de apostas esportivas, um novo fenômeno, que inclusive tem injetado dinheiro nos clubes de futebol, que têm conseguido patrocínios desses sites de apostas esportivas.

Neste relato de João Saldanha percebemos a ação do jogador de futebol, que pode estar envolvido com corrupção no futebol, afinal ele está dentro de campo e tem a possibilidade de interferir num lance decisivo que pode resultar num gol por exemplo. Destaco que não estou fazendo juízo de valor dos participantes sociais do futebol, só estou levantando questões que são comentadas no senso comum.

No livro “Jogo Roubado”, do jornalista Brett Forrest, publicado em 2014, o autor, que entrevistou o homem que é considerado um dos maiores manipuladores de resultados do mundo, Wilson Perumal, revela que os jogadores que estão mais suscetíveis a serem subornados para entregar uma partida são os goleiros e zagueiros, afinal, segundo o autor, de acordo com o entrevistado, é mais fácil corromper um ou mais jogadores para perder o jogo (“mala preta”) do que corromper um ou mais jogadores para ganhar uma partida (“mala branca”).

O livro “O lado sujo do futebol”, de quatro autores, publicado em 2014, trata, como o título da publicação explicita, dos bastidores do meandro do futebol, abordando relações suspeitas entre organizações. A obra cita o crescimento das empresas de marketing esportivo, que intermedeiam os direitos de transmissões televisivas dos eventos esportivos da FIFA, um dos pontos centrais para o desencadeamento do escândalo “FIFAgate” em 2015, que também incluía no processo a provável venda de votos para a escolha do Catar como sede da Copa de 2022. (CHADE, 2015)

O politizado jornalista Juca Kfouri publicou, em 2017, o livro de memórias “Confesso que perdi”, em que trata de alguns temas ligados à corrupção no futebol, como nos capítulos “A Máfia da Loteria” e “A Fifa, seus chefões e chefinhos”.

Em 2020, este autor, Wesley Machado, lança o livro “Corrupção no futebol”, resultado de sua pesquisa de dissertação para o mestrado em Sociologia Política na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF).

Referências Bibliográficas

CHADE, Jamil. Política, propina e futebol: Como o ‘Padrão Fifa’ ameaça o esporte mais popular do planeta. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.

FORREST, Brett. Jogo Roubado: A caça aos responsáveis pela manipulação de resultados de partidas de futebol. São Paulo: Paralela, 2015.

GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra. Porto Alegre: L&PM, 2002.

JENNINGS, Andrew. Jogo sujo: o mundo secreto da Fifa: compra de votos e escândalo de ingressos. São Paulo: Panda Books, 2011.

KFOURI, Juca. Confesso que perdi. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

LIMA, Paulo Cézar. Estou torcendo para a Bélgica”, diz Paulo Cezar Caju, campeão mundial em 1970. Entrevista concedida a Bruno Mateus. Seção Super F. C. do jornal online O Tempo. Belo Horizonte, 05 de julho de 2018.  Acessado no dia 12 de setembro de 2019.

MACHADO, Wesley. Corrupção no futebol. Campos dos Goytacazes-RJ: Edição do Autor, 2020. (no prelo)

RIBEIRO JÚNIOR, Amaury; CIPOLINI, Leandro; AZENHA, Luis Carlos; CHASTINET, Tony. O lado sujo do futebol: a trama de propinas, negociatas e traições que abalou o esporte mais popular do mundo. São Paulo: Planeta, 2014.

PADILHA José Roberto. Futebol: A dor de uma paixão. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.

SALDANHA, João. Meus amigos. Rio de Janeiro: Nova Mitavaí, 1987.


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Wesley Barbosa Machado

Nascido no dia 23 de junho de 1981 em Campos dos Goytacazes-RJ Jornalista, Escritor e Compositor. Torcedor do Botafogo do Rio de Janeiro, do Roxinho de Campos dos Goytacazes-RJ e do Arsenal da Inglaterra. Co-Autor do Livro de Crônicas do Botafogo, "A Magia do 7" (Editora Livros Ilimitados, 2011) e Autor dos Livros "Saudosas Pelejas: A História Centenária do Campos Athletic Association" (Edição do Autor, 2012), "Botafogo, Roxinho e Outros Textos Sobre Futebol" (Edição do Autor, 2020) e "Corrupção no Futebol" (Edição do Autor, 2020). Autor das Músicas sobre Futebol: "Oração do Futebol", "Samba do Senta" e "Gol do Maurício"; e do Hino Oficial do Campos Atlético Associação (Roxinho). Criador e Administrador dos Projetos Campos OnLine (@campos.online no Instagram); Campos de Bola (@camposdebola no Instagram); Bola Carioca (@bolacarioca no Instagram e /bolacarioca2020 no Facebook), Coleção Botafogo(/colecaobotafogo no Facebook); Blog Campos Fichas Técnicas (camposfichastecnicas.blogspot.com.br); Blog Pérolas Futebol e Causos (perolasfc.blogspot.com.br); e Blog Estrela Solitária no Coração (estrelasolitarianocoracao.blogspot.com). Fundador, Autor e Editor do Site Viva La Resenha (vivalaresenha.wordpress.com). Produtor do Podcast Camisa Oito (@camisaoito no Twitter).

Como citar

MACHADO, Wesley Barbosa. Abordagens da literatura esportiva sobre corrupção no futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 133, n. 55, 2020.
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