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Afinal, pode ou não pode falar de política?

“[…] nunca nos foi permitido falar sobre política no esporte, e de repente agora é permitido. E agora que é permitido, espero que as pessoas também vejam a opressão em todo o mundo”.

A fala acima faz referência a um vídeo que circula nas redes sociais, em que o atleta egípcio Ali Farag, questiona o porquê de os atletas poderem falar abertamente sobre o conflito na Ucrânia, mas não sobre a Palestina: “Os palestinos têm passado por isso nos últimos 74 anos, mas acho que, porque não se encaixa na narrativa da mídia do Ocidente, não podíamos falar sobre isso. Então, agora que podemos falar sobre a Ucrânia, podemos falar sobre a Palestina.” Nesse sentido, é importante lembrar, por exemplo, que em 2009, o jogador Frédéric Kanouté foi multado pela Real Federação Espanhola de Futebol, após exibir uma camisa com dizeres em apoio à Palestina na comemoração de um gol anotado contra Deportivo de La Coruña em jogo válido pela Copa do Rei.

Frederic Oumar Kanoute
Frederic Oumar Kanoute. Fonte: kanoute.com

O questionamento de Ali Farag abre um importante debate sobre o que é e o que não é aceito como manifestação política no esporte. Recentemente, por exemplo, a brasileira Carol Solberg foi punida e proibida de falar o que todos nós temos vontade de dizer vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana: “Fora Bolsonaro!”. À época repercutimos o caso aqui no @memoriafutebolclube e questionamos: quando seria o julgamento do jogadores de vôlei Mauricio Souza e Wallace, que manifestaram-se em apoio à Jair Bolsonaro, naquele momento, candidato à presidência; ou de Diego Souza, que na comemoração de seu gol contra o Flamengo, em 2018, homenageou Bolsonaro; sem falar de Felipe Melo ou dos campeões da América de 2019 que, na comemoração do título, gritavam euforicamente “mito! mito!”; apenas para relembrar alguns episódios. Diante do caso Carol Solberg, das revoltas e contradições que ele gerou, Michelle Carreirão Gonçalves e Wagner Xavier de Camargo questionaram: “fala quem apoia e cala quem protesta?”. Seria essa a tônica das relações entre esportes e política? Quais são os critérios daquilo que é ou não permitido como manifestação? Quem os define? 

Carol Solberg
Carol Solberg. Foto: Divulgação/CBV

Ao analisar a atuação da Fifa em diferentes casos em que a política e o futebol trocaram passes, a historiadora Lívia Magalhães em sua tese Com a taça nas mãos: sociedade, Copa do Mundo e ditadura no Brasil e na Argentina não hesita em afirmar: “A questão é que tais entidades se posicionam apenas em determinadas situações, e a aceitação de outras, como eventos e membros de países ditatoriais, é justificada com o discurso do apolítico” (2013, p. 74). Dessa forma, a mesma entidade que recentemente suspendeu a Federação de Futebol da Rússia das Eliminatórias para a Copa do Mundo no Catar (por conta da invasão à Ucrânia), omitiu-se em relação a diversos outros conflitos, como bem lembrou a torcida do Estrela Vermelha. Em jogo válido pela Liga Europa, a torcida do clube sérvio exibiu faixas em alusão aos inúmeros conflitos e golpes da história recente do mundo contemporâneo.

Que fique claro, a intenção aqui não é desmerecer um conflito em razão do outro, mas sim, lançar luz sobre o hipócrita “jogo de neutralidade” das instituições esportivas. Se restringirmos nossa análise apenas ao futebol, por exemplo, como argumenta o historiador Luiz Carlos Ribeiro (2020) no texto “Futebol e política”, este esporte em seus primórdios, buscou afastar-se de tensões sociais, daí a ideia de que ele deveria ser praticado apenas entre pares, ou seja, entre membros da elite, assumindo assim um “lugar apolítico” e de defesa deste como puro “entretenimento”, do jogo “desinteressado”. Em outras palavras:

“é um discurso esportivo que pretende existir em um campo despolitizado, alienado de qualquer interesse que não exclusivamente o cumprimento das regras específicas do jogo” (RIBEIRO, 2020, p. 29). 

Esse discurso, contudo, desfaz-se quando depara-se com a realidade. Em diversos momentos, futebol e política andaram juntos, “para o bem ou para o mal”. Mais do que isso, é necessário frisar: “a mitificação do futebol como um lugar neutro, apolítico, é uma das mais eficazes estratégias de fazer política”. (RIBEIRO, 2020, p. 42);

Nesse sentido, por fim, nos resta questionar: a punição à seleção da Rússia é sinal dos “novos rumos” do futebol mundial? Ela será capaz de abrir um precedente para que as entidades esportivas posicionem-se contra as mais diversas violações contra os direitos humanos? Ou, irá configurar-se como um episódio hipócrita, correndo para o discurso “apolítico” quando for conveniente?

Referências

GONÇALVES, Michelle Carreirão; CAMARGO, Wagner Xavier de. Atletas e política: o caso Carol Solberg. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 2, 2020. Acesso em: 25 mar. 2022.

Kanouté é multado por exibir camiseta pró-Palestina. Trivela, Espanha, 9 jan. 2009. Acesso em: 25 mar. 2022.

MAGALHÃES, Lívia Gonçalves. Com a taça nas mãos: sociedade, Copa do Mundo e ditadura no Brasil e na Argentina. 2013. 238 f. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2013. Acesso em: 25 mar. 2022.

RIBEIRO , Luiz Carlos. Futebol e política. In: GIGLIO, Sérgio Settani; PRONI, Marcelo Weishaupt (org.). O futebol nas ciências humanas no Brasil. Campinas: Editora da Unicamp, 2020.

VECCHIOLI, Demétrio. STJD adverte Carol Solberg e a proíbe de repetir o “Fora, Bolsonaro”. Uol, 13 de outubro de 2020. Acesso em: 25 mar. 2022.

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Letícia Marcolan

Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais da Fundação Getúlio Vargas. Participa do FULIA/UFMG e do Memória FC.

Como citar

MARCOLAN, Letícia. Afinal, pode ou não pode falar de política?. Ludopédio, São Paulo, v. 154, n. 12, 2022.
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