150.12

África Foot-Ball Club

José Paulo Florenzano 9 de dezembro de 2021

No início de 1959 o jornal A Tribuna, de Santos, abriu espaço em suas páginas para uma série de artigos destinados a retratar a história da cidade litorânea. Assinados por Ary de Moraes Giani, os textos abordavam os principais marcos da formação da urbe, os episódios e personagens da epopeia praiana. No capítulo dedicado especificamente à abolição, o referido historiador resgatava dos periódicos da época imagens da celebração do 13 de Maio, sob todos os aspectos, emblemáticas das representações estereotipadas inscritas no imaginário social a respeito dos libertos:

Como hordas de invasores, com o “diabo no corpo”, sob os estridentes tabaques, pandeiros, chocalhos, reco-recos, negros de ambos os sexos, como que endoidecidos, foram se assenhoreando dos pontos centrais da cidade, onde ao chegar da noite, crepitavam madeiras nas enormes fogueiras de altas labaredas. Sob o clarão forte do fogo, corpos negros em bamboleios frenéticos, numa dança sem fim, ao ritmo maluco dos sambas e batucadas avançou pela noite adentro. E veio o dia e outra noite, e nas ruas e largos, sempre saracoteando, a malta dos quilombos, agora manchada aqui e acolá por um mestiço meio queimado ou um branco meio zonzo, foi regressando para o Jabaquara onde a festa continuou por alguns dias.[1]

Todavia, uma vez encerradas as festividades desencadeadas pela Abolição, e extinguidas as fogueiras acesas pela liberdade recém-conquistada, os negros se retiraram das áreas mais nobres e centrais da cidade, retornando ao quilombo do Jabaquara. Aos poucos, sobre as cinzas das esperanças consumidas em uma noite de loucura, elas voltaram a acolher os frequentadores habituais, isto é, as elites modernizadoras comprometidas com o processo de uma urbanização excludente e orientada pelos “cânones da europeização e do branqueamento”.[2]  

Por volta de 1902, quando os sons dos atabaques já não eram mais audíveis e os demônios já não possuíam mais os corpos, os jovens endinheirados puderam, sem sobressalto, dedicar-se à última moda importada do Velho Mundo. De acordo com a memória sedimentada pela narrativa de A Tribuna, a primeira partida de football teve lugar na praia da Barra, no Boqueirão, graças à iniciativa de Dick Martins – codinome de Henrique Porchat de Assis -, personagem aristocrática a qual se atribuía em Santos o mesmo papel de herói fundador reconhecido em São Paulo a Charles Miller.[3]

No entanto, apesar da euforia inicial refletida no advento, em 1903, de algumas agremiações locais dedicadas à nova modalidade lúdica, como, por exemplo, o Clube Atlético Internacional e o Esporte Clube Americano, o entusiasmo pela prática do futebol iria se arrefecer consideravelmente, embora não chegasse a se extinguir por completo. Ela voltaria a despertar a atenção somente na década seguinte, dez anos depois da realização da primeira partida, quando, em uma reunião promovida no Clube Concórdia, na noite de 14 de abril de 1912, seria fundada a instituição destinada a mudar os rumos do futebol, não apenas na cidade portuária, mas no país e no mundo, conforme a observação acurada do ensaísta José Miguel Wisnik.[4]

Santos em 1913
Equipe do Santos em 1913. Foto: Laire José Giraud – A Tribuna.

Detenhamo-nos, por um instante, na referida reunião. Vários nomes foram sugeridos para nomear a nova entidade. Dentre as inúmeras propostas então apresentadas, uma ainda hoje nos chama a atenção pelo fato de prefigurar o futuro do time da diáspora. Vejamos como a narrativa encarregada de cristalizar a memória oficial do clube descreve o inesperado clarão que alumiara aquele encontro situado nos primórdios do futebol praiano, para, logo em seguida, apagar-se sem quase deixar vestígio na história da agremiação. “Raimundo Marques abre os debates”, rememorava a reportagem de A Tribuna, “solicitando sugestões:”

_ “_´África F.C.`, diz alguém.”

“A proposição é submetida a votos.”

_ “´Rejeitada`, esclarece Raimundo Marques”.[5]

Quem exatamente, naquela reunião realizada no salão nobre do Clube Concórdia, propusera chamar a novel instituição com o nome de “África Foot-Ball Club”? E por que razão? Simples gosto pelo exótico? Talvez. Evocação da passagem pela cidade de São Paulo, em 1906, de um time de jovens ingleses da então colônia do Cabo, denominado pela imprensa paulista vaga e imprecisamente de South África? Provável.[6] Mas, fosse como fosse, sabemos que a proposta foi rechaçada de forma unânime e inconteste. O episódio, no futuro, receberia dos historiadores pouca atenção, nada mais do que uma nota de curiosidade na noite em que viera a lume o “Santos Foot-Ball Club”.[7] Vista em retrospecto, porém, e da perspectiva adotada no presente trabalho, ela soava até certo ponto profética, prenunciando um destino inscrito na ata de fundação do time que acabaria identificado de maneira mais estreita com as comunidades africanas da diáspora.


[1] Cf. “Santos de outrora”, Ary Moraes Giani, A Tribuna, 8 de janeiro de 1959.

[2] Machado, Maria Helena Pereira. Toledo. “De rebeldes a fura-greves: as experiências de liberdade dos quilombolas do Jabaquara na Santos pós-emancipação In: GOMES, Flávio dos Santos Gomes e CUNHA, Olívia M. G. da. Quase-cidadão. história e antropologias do Brasil pós-emancipação. Rio de Janeiro: Editora da FGV, 2007, p.247.

[3] Cf. “Surge Dick Martins”, A Tribuna, 31 de janeiro de 1959.

[4] Wisnik, José Miguel. “Veneno remédio: o futebol e o Brasil”, São Paulo, Companhia das Letras, 2008, p.31. Sobre a fundação do clube, ver Cunha, Odir; Unzelte, Celso. “Santos: 100 anos, 100 jogos, 100 ídolos.” Belo Horizonte, Editora Gutenberg, 2012.

[5] Cf. “África, Brasil, Concórdia ou Santos F.C.?”, A Tribuna, 3 de fevereiro de 1959. No título da matéria constam os nomes sugeridos no encontro. Raimundo Marques, citado no texto acima, foi um dos fundadores e primeiro presidente do clube, eleito na assembleia geral realizada em 13 de março de 1913.

[6] Sobre a passagem da equipe inglesa proveniente do Cabo, ver Florenzano, José Paulo, “Brasil e África do Sul: o futebol-arte no campo do apartheid”. In: Futebol: objeto das ciências humanas. Organização: Flávio de Campos e Daniela Alfonsi. São Paulo, Editora Leya, 2014.

[7] Sobre o Santos Futebol Clube, ver Oliveira, Alex Fernandes de. “A figuração política nas organizações esportivas do futebol brasileiro: estudo de caso”. Tese de Doutorado, Ciências Sociais, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2018.

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José Paulo Florenzano

Possui graduação em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1994), mestrado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (1997), doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da PUC-SP (2003), e pós-doutorado em Antropologia pelo Programa de Pós-Doutorado do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2012). Atualmente é coordenador do curso de Ciências Sociais e professor do departamento de antropologia da PUC-SP, membro do Conselho Consultivo, do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), do Museu do Futebol, em São Paulo, membro do Conselho Editorial das Edições Ludens, do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre o Futebol e Modalidades Lúdicas, da Universidade de São Paulo, e participa do Grupo de Estudos de Práticas Culturais Contemporâneas (GEPRACC), do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC-SP. Tem experiência na área de Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia Urbana, Sociologia do Esporte e História Política do Futebol, campo interdisciplinar no qual analisa a trajetória dos jogadores rebeldes, o desenvolvimento das práticas de liberdade, a significação cultural dos times da diáspora.

Como citar

FLORENZANO, José Paulo. África Foot-Ball Club. Ludopédio, São Paulo, v. 150, n. 12, 2021.
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