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Amaral: zagueiro clássico em tempos de transição

Em 10 de fevereiro de 1980 foi fundado no Colégio Nossa Senhora de Sion, São Paulo, o Partido dos Trabalhadores. Findo o bipartidarismo que criara os dois partidos oficiais que vigoraram durante a maior parte da ditadura – a Aliança Renovadora Nacional, ARENA, dos generais e seus asseclas, e o Movimento Democrático Brasileiro, MDB, que reunia a oposição – sindicalistas, intelectuais, trotskistas, políticos de orientação socialista, entre outros atores do teatro de operações daqueles anos, assinaram a ata de fundação de um partido fundamental para a reconstrução da democracia brasileira. Aventura, sonho e esperança que se realizou, às vezes, de forma alquebrada, como costuma acontecer com as grandes idealizações.

A pouco mais de dez quilômetros do edifício projetado por Ramos de Azevedo, no bairro de Higienópolis, sede do tradicional colégio paulistano, disputava-se a final do Campeonato Paulista de Futebol referente ao ano anterior, opondo, no Morumbi, Corinthians e Ponte Preta. O ataque do Timão tinha Sócrates, que desde 1978 atuava no Parque São Jorge, vindo do Botafogo de Ribeirão Preto, e Palhinha, contratado em 1977 junto ao Cruzeiro, pelo qual fora campeão da Libertadores no ano anterior.

A estreia de Palhinha pelo Alvinegro foi em um domingo de manhã, contra o Guarani, de Campinas, também no Morumbi. Era final de março de 1977 e eu acompanhava meu irmão, que jogava futebol de salão em uma quadra em Coqueiros, bairro vizinho ao que morávamos, em Florianópolis. Chegamos em casa a tempo de ver o atacante concluindo o aquecimento e presenciamos, pela TV, a fragorosa derrota por três a zero. Na zaga bugrina, marcando o atacante corintiano, jogava o melhor zagueiro do futebol brasileiro à época, Amaral. No ano seguinte ele trocaria de lado e seria a meta do Corinthians que ele passaria a defender, garantindo a retaguarda necessária para que o mesmo Palhinha e o craque Sócrates marcassem os gols que trariam o título de 1979. Antes da vitória contra a Ponte, o Corinthians eliminou nas semifinais o poderoso Palmeiras, treinado por Telê Santana, e Amaral anulou nada menos que César Maluco, um dos grandes ídolos do Palestra Itália.

Amaral zagueiro
Foto: Reprodução Pinterest.

“É assim que se faz, pai?”, perguntou meu irmão enquanto assistíamos a uma partida da seleção brasileira, no final da década de 1970. Meu pai nos havia contado de um zagueiro muito habilidoso, Mauro Ramos de Oliveira, o capitão do bicampeonato mundial, vencido no Chile, em 1962, que, na pequena área, matava a bola no peito para que o goleiro a agarrasse. Ainda era permitido atrasar a bola para o arqueiro. “Assim mesmo”, respondeu meu pai, ele que também foi zagueiro, mas na várzea do Tietê, em sua juventude paulista. Pois bem, o beque do time que víamos em campo, número 4 do escrete nacional, acabara de repetir o gesto tão valorizado, parando no próprio peito a pelota próxima ao arco, permitindo que Emerson Leão ficasse tranquilamente com ela. Era Amaral.

Amaral era técnico, habilidoso e rápido. Podia sair atrás dos atacantes, mas os alcançava e os desarmava sem violência, sendo raramente expulso. Ainda no Guarani, chegou à seleção brasileira sob o comando de Oswaldo Brandão, em 1975, para compor um time alternativo que disputou a Copa América e, no ano seguinte, foi campeão do Torneio Bicentenário dos Estados Unidos da América. Desta vez, a equipe estava completa, com Zico e Rivellino, e o zagueiro foi titular na partida final, com vitória frente à Itália por 4 x 1. Na seleção, ficou até 1980, jogando uma Copa do Mundo, a de 1978, com excelente atuação. O Brasil, apesar do terceiro lugar, saiu invicto da competição, e isso muito se deve à dupla de zaga segura, formada por ele e Oscar, ídolo na Ponte Preta e no São Paulo. Ficou famosa a atuação contra a Espanha, quando Amaral salvou dois gols sobre a linha da meta brasileira.

A mitologia do futebol brasileiro valoriza pouco os zagueiros, em comparação com os sempre celebrados atacantes, exceção feita a Domingos da Guia. Mas, tivemos muitos defensores técnicos e habilidosos, como Djalma Dias, Joel Camargo, Luís Pereira, Mauro Galvão, Aldair, Valber, os laterais tornados beques, Carlos Alberto Torres e Leandro. Amaral brilha nessa constelação de zagueiros e foi nosso grande destaque na posição naqueles anos de transição para a democracia. Não chegou a compor a Democracia Corintiana, movimento que lutou pela liberdade e pelo poder popular no interior do futebol e para além dele. Antes, o beque desceu a Serra e foi atuar no Santos, uma estadia intermediária para as muitas temporadas que depois jogou no México. Em tempos de supervalorização da preparação física, quando certa crise da tradição se abatia sobre o futebol brasileiro, foi esse zagueiro, um dos bons representantes da arte no interior do campo. Era como uma esperança que se atualizava para os amantes do jogo. Também fora do campo a expectativa se colocava: um partido nacional-popular nascia, enquanto a ditadura encolhia seus tentáculos, pressionada pelos novos tempos. Que tudo isso possa se renovar.

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Alexandre Fernandez Vaz

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Como citar

VAZ, Alexandre Fernandez. Amaral: zagueiro clássico em tempos de transição. Ludopédio, São Paulo, v. 159, n. 12, 2022.
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