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Amarga Copa do Mundo

[1] Chama a atenção o silêncio político e acadêmico que no Uruguai paira sobre a Copa do Mundo que vem sendo disputada no Qatar. As vozes críticas são poucas e dispersas, enquanto a maquinaria econômica e espetacular impõe seu ritmo frenético. O impulso das paixões identitárias parece tornar opaca e mesmo suspender a crítica: o Vamo’ arriba la Celeste é o eclipse que não temos coragem de encarar. O falecimento de milhares de trabalhadores na construção da infraestrutura necessária para o Mundial é algo que circula sotto voce. Teremos nos acostumado, triste e obscuramente, à ideia de que as mortes pelas mãos do capital são o inelutável destino dos párias deste mundo? Já lá se vão décadas desde que foi dito que vivemos na sociedade do espetáculo – e este hoje parece não ter limites.

O caráter lúdico do futebol pode gerar emoção, regozijo, aquele entusiasmo sorridente nos que o praticam ou o acompanham com fervor. Nos estádios se escuta os cantos que enaltecem o lado festivo e recreativo do jogo, ou, como bem expressa o poeta e futebolista Agustín Lucas, “para beijar o troféu, não é preciso conquista-lo”. O esporte pode ser motivo de celebração, já que nele reside a possibilidade do enfrentamento e da digna superação de um obstáculo, sabendo-se que a recompensa não está apenas no resultado, mas naquilo que é vivido junto a outros e outras que estão em nosso time. Eles e elas reconhecem o adversário como o vizinho que se nutre, na outra margem, das águas do mesmo rio.

Copa Qatar
Fonte: Wikipédia

As festividades coletivas foram e são importantes, mas não seria certo dizer que vale tudo: a Copa jogada no Qatar não é uma festa. Não se pode celebrar alegremente sobre o sangue derramado de milhares de trabalhadores, como se suas vidas fossem simplesmente descartáveis. Tampouco é legítimo dançar sem preocupações, quando se sabe que as diversidades sexuais, culturais e políticas são perseguidas e a elas não se permite que ingressem no salão de baile. Os partidos uruguaios deveriam expressar-se claramente e sem ambiguidades sobre o assunto, ainda que a compulsão eleitoral provavelmente não permita, nem à direita, nem à esquerda, que isso aconteça.

No campo da Educação Física há uma enorme dificuldade em reconhecer as consequências econômicas, sociais, culturais e políticas do alto rendimento; a blindagem ideológica quase sempre chega pelo caminho do voluntarismo individualista. Ainda está por se explorar com mais consistência, por meio de estudos sistemáticos, a relação entre o esporte competitivo e as posições de seus agentes. É quase impossível encontrar pronunciamentos críticos professados pelos próprios atletas, membros dos corpos técnicos, árbitros, dirigentes ou jornalistas esportivos. Nas ocasiões em que raramente acontecem, a resposta é tão violenta quanto necessária para que tais posições sejam apagadas, a exemplo do recente caso do Villa Española.[2] A posição de João Havelange, presidente da FIFA entre 1974 e 1998, parece ser a que prevalece: ao ser consultado sobre a relação entre o Mundialito organizado no Uruguai em 1980 e a ditadura civil-militar (1973-1985), respondeu imediatamente que o que lhe interessava era o esporte, não a política[3].

João Havelange
João Havelange como presidente da FIFA em 1982. Foto: Wikipédia

O que chamamos de realidade sempre apresenta muitos matizes, mas há um momento em que a coloração é inequívoca: pronunciamentos acadêmicos e políticos sérios e claros sobre os efeitos do mainstream esportivo sobre a sociedade, do futebol em particular, são urgentes. Não podemos seguir desviando do problema, como se nada tivéssemos a ver com ele, evitando encará-lo para não gerar incômodos.

Não somos contra o esporte, mas a favor de práticas esportivas que possam, para existir, não ser cúmplices de tantas atrocidades.

Notas

[1] Uma versão em castelhano deste texto foi publicada em la diaria, em 14/11/2022:  https://ladiaria.com.uy/opinion/articulo/2022/11/mundial-amargo/. Tradução de Alexandre Fernandez Vaz.

[2] O Club Social y Deportivo Villa Española foi fundado em 1940, com sede em Montevidéu, capital do Uruguai. Desde 2018 seus dirigentes vinham promovendo ações culturais e políticas importantes, algo bastante incomum no futebol do país. Em maio deste ano, por exemplo, os jogadores do Villa, como é popularmente conhecido, vestiram camisetas com a foto de Luisa Cuesta – ativista de direitos humanos, mãe de Nébio Melo Cuesta, desaparecido durante a ditadura cívico-militar em 1976 – e no peito uma imagem representando mães e familiares de uruguaios detidos e desaparecidos durante o mesmo período. Também aconteceram várias manifestações políticas, sempre desvinculadas de partidos, nas redes sociais oficiais do clube. A diretoria do clube foi alvo de vários questionamentos, até que, em junho passado, o Ministério da Educação e Cultura interveio na agremiação, o que resultou na renúncia de seus dirigentes.

[3] Vale a pena assistir o ótimo documentário Mundialito (2007), de Sebastián Bednarik.

 

* Camilo Rodríguez Antúnez e Raumar Rodríguez Giménez são professores da Universidad de La República, Uruguai.

Uma versão em castelhano deste texto foi publicada em la diaria, em 14/11/2022:  https://ladiaria.com.uy/opinion/articulo/2022/11/mundial-amargo/. Tradução de Alexandre Fernandez Vaz

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Como citar

ANTúNEZ, Camilo Rodríguez; GIMéNEZ, Raumar Rodríguez. Amarga Copa do Mundo. Ludopédio, São Paulo, v. 162, n. 1, 2022.
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