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Amor à camisa: mito ou realidade?

Ronaldo Helal 25 de março de 2011

Recentemente o empresário Leo Rabello, dono carteira número 1 de agente no Brasil, declarou em entrevista a globo.com o seguinte: “o futebol que o público vê é uma grande mentira. O jogador de futebol vê dinheiro. Esse carinho, esse amor não existe, é folclórico. Quem balança a camisa quando faz gol, beija escudo, é hipócrita.” A entrevista foi destaque no referido site e repercutiu em conversas de torcedores que lamentavam que o “futebol tivesse chegado a este ponto”, como se houvesse tido um tempo onde se jogava por “amor à camisa”.

De fato, nos acostumamos a escutar que o futebol do passado é que era bom, entre outras razões porque supunha-se que o atleta jogava por “amor à camisa”. Em um universo profissional, é bastante plausível que os atletas pratiquem esporte em busca de um melhor contrato. Esta busca tem regulado os interesses dos jogadores desde o advento do profissionalismo em 1933, ainda que a torcida, sempre amadora, queira acreditar na existência absoluta de um tempo em que se jogava por “amor à camisa”.

A questão que se impõe é a seguinte: amor e paixão podem conviver com profissionalismo? Podem. O mundo “frio” dos negócios não exclui sentimentos passionais. Ser profissional no futebol não exclui o amor do atleta por um clube. Dentre exemplos da atualidade, o de Rogério Ceni no São Paulo fala por todos. Não duvidamos que, em busca de um melhor contrato, Ceni possa um dia encerrar a carreira em outro clube. Isto não destruirá o amor que sente pelo São Paulo, apesar de, possivelmente, macular sua relação com a torcida.

Imagem: Junior 

Ronaldo “fenômeno” declarou diversas vezes, ao longo de sua carreira que seu sonho era vestir profissionalmente a camisa do Flamengo. Em 2008, diante da lesão do atacante, o clube abriu as portas para sua recuperação. No período, Ronaldo treinou com os atletas, vestiu a camisa do clube e ratificou seu sonho em muitas entrevistas. Principalmente no programa “Bem, amigos”, do SporTV, e em entrevista a Ana Maria Braga, as declarações foram explícitas, evidentes, claríssimas. Nesta entrevista, inclusive, o presidente do Flamengo, por telefone, disse que as portas do clube estavam abertas ao atacante. Ronaldo agradece o convite e diz que precisa ser merecedor de vestir a camisa de seu “clube de coração”.

Toda a imprensa dava como certa a ida de Ronaldo para o clube, assim que ele estivesse recuperado de sua lesão. O final da história é mais do que conhecido. Ronaldo assina com o Corinthians e ao ser indagado da razão pela qual não teria ido para o Flamengo, o atleta responde que passou quatro meses no clube e não recebeu nenhuma proposta. Parecia magoado, se fez de vítima e se utilizou de um código amador, sentimental. Ao mesmo tempo deu a entender que a proposta era irrecusável, utilizando-se de um código profissional. Tanto em sua atitude como em sua explicação, Ronaldo oscilou entre o profissional, em busca do melhor contrato, e o amador, que se queixou de não ter recebido proposta do “clube de seu coração”. Terminou não sendo uma coisa nem outra e ratificou a hipótese de Roberto DaMatta de que a raiz do dilema brasileiro estaria centrada nesta oscilação de códigos pessoais (amadores) e impessoais (profissionais).

Outro caso bastante conhecido foi a transferência do ex-jogador Bebeto do Flamengo para o Vasco em 1989. Bebeto também se utilizou de códigos amadores para explicar sua transferência, como se a explicação profissional (a busca por um melhor contrato) não fosse jamais aceita pelas torcidas. (Ver HELAL, Ronaldo; COELHO, Maria Claudia. Modernidade e tradição no futebol brasileiro: o “caso Bebeto”. Pesquisa de Campo. Rio de Janeiro, n.2, p.91-99, 1995)

Um pouco antes, no início da década de 1980,  Roberto Dinamite, maior ídolo do Vasco, quase veio parar no Flamengo. Isto teria feito dele um ex-vascaíno? Que declarações ele daria caso a transação com o rival se concretizasse?

O curioso é observar que o “amor à camisa” faz parte da mitologia do futebol desde o advento do profissionalismo em 1933. O primeiro capítulo de “O negro no futebol brasileiro”, livro clássico de Mário Filho, cuja primeira edição data de 1947, intitula-se “Raízes do saudosismo” e ali observamos que o mito do “amor à camisa” existe há mais de seis décadas. Mário Filho inicia o livro da seguinte maneira: “Há quem ache que o futebol do passado é que era bom”. Isto em 1947. A frase tem sido repetida exaustivamente desde então.

Claro que hoje o futebol movimenta muito mais dinheiro, mas será que existiu mesmo um tempo em que se jogava simplesmente por “amor à camisa”? Observemos que até Pelé declarou recentemente que jogou no Santos em 1974 sem receber nenhum centavo. Será verdade? A declaração de Pelé era uma crítica a Ronaldinho Gaúcho, ainda indefinido em relação ao clube brasileiro que iria jogar. Ainda que comprovemos a veracidade do dito por Pelé, talvez tenha sido uma exceção em meio a tantos outros casos onde o que se observa é o atleta em busca de um melhor contrato.

A entrevista do empresário Rabello desnudou o futebol atual ou o futebol que existe desde o advento do profissionalismo em 1933? A única certeza nestes tempos todos é a de que o torcedor foi, é e será sempre um apaixonado, que lutará contra todas as evidências que demonstrem que seus ídolos jogam por dinheiro, ainda que possam amar o clube pelo qual estão jogando.

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Ronaldo Helal

Possui graduação em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1980), graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1979), mestrado em Sociologia - New York University (1986) e doutorado em Sociologia - New York University (1994). É pesquisador 1-C do CNPq, Pós-Doutor em Ciências Sociais pela Universidad de Buenos Aires (2006). Em 2017, realizou estágio sênior na França no Institut National du Sport, de L'Expertise et de la Performance. É professor associado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Foi vice-diretor da Faculdade de Comunicação Social da Uerj (2000-2004) e coordenador do projeto de implantação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Uerj (PPGCom/Uerj), tendo sido seu primeiro coordenador (2002-2004).Foi chefe do Departamento de Teoria da Comunicação da FCS/Uerj diversas vezes e membro eleito do Consultivo da Sub-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da Uerj por duas vezes. Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Teoria da Comunicação, atuando principalmente nos seguintes temas: futebol, mídia, identidades nacionais, idolatria e cultura brasileira. É coordenador do grupo de pesquisa Esporte e Cultura (www.comunicacaoeesporte.com) e do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte - LEME. Publicou oito livros e mais de 120 artigos em capítulos de livros e em revistas acadêmicas da área, no Brasil e no exterior.

Como citar

HELAL, Ronaldo. Amor à camisa: mito ou realidade?. Ludopédio, São Paulo, v. 21, n. 8, 2011.
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