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Anatomia de uma rivalidade: o Clássico do Pacífico entre Peru e Chile

Fabio Perina 13 de novembro de 2020
Bandeira mapuche criada em 1992 pela organização indigenista denominada Consejo de Todas las Tierras. Imagem: Wikipédia

Antes mesmo da invasão espanhola, o império inca se expandiu desde Cuzco, no Peru, até grande parte da América do Sul até finalmente encontrar um limite no centro-sul do Chile diante dos valentes mapuches. Algo que marcou a influência peruana em várias partes do Chile até hoje como na gastronomia. Depois como países independentes tiveram como principal disputa territorial a Guerra do Pacífico, entre 1879 e 1883, quando os chilenos deram o troco tomando do Peru ricas zonas minerais e tomando da Bolívia sua saída para o mar. Em suma, uma guerra que selou o destino de ambos os países pelas décadas de virada do século XIX ao XX: decadência peruana e ascensão chilena. Infelizmente, esse mesmo exercito chileno nessa época impôs grandes derrotas aos mapuches. Embora não chegando a serem extintos, lhes tiraram a ‘invencibilidade’ que tanto se orgulham de que eram o único povo originário que não foi derrotado pelos colonizadores espanhóis.

Povo mapuche em 1897. Foto: Wikipédia

Em tempos recentes a convergência de se integrarem à economia norte-americana acalmou as disputas geopolíticas e as restringiram à disputa cultural de decidir quem inventou o pisco (bebida destilada). Porém nas últimas décadas com o futebol foi o contrário: o clássico do Pacífico acirrou sua rivalidade, sem deixar nada a desejar para os clássicos mais notáveis do Atlântico. O torneio amistoso “Copa do Pacífico” jogado nos anos 50 e 60 foi incitando uma rivalidade que logo subiu de patamar. Ao longo dos anos 70, Chile e Peru alternaram eliminações mútuas em Copa América e Eliminatórias.

No primeiro embate, vitória do Chile nas eliminatórias de 74. A “geração dourada” peruana naquela década ao vencer sua terceira Copa América, em 75, teve um gostinho a mais justamente deixando o rival Chile pelo caminho. E repetiu a dose das eliminatórias de 78. Porém em 79 o Chile teve a revanche ao eliminar o Peru na Copa América, porém perdeu para o Paraguai a final e a chance de seu primeiro título. O que poucos sabem que nessa época a rivalidade no futebol esteve prestes a desembocar em uma nova Guerra do Pacífico exatamente um século depois. Por conta de disputas territoriais entre as ditaduras militares: a ‘neoliberal’ de Pinochet no Chile e a ‘nacionalista’ de Morales Bermúdez no Peru.

Dez anos depois, em 87, um fato insólito que marcou o futebol dos dois lados foi a tragédia da queda do avião do Alianza Lima seguido de uma surpreendente integração com o Colo-Colo do Chile. Sendo até hoje certamente a união de hinchadas mais intensa do continente. Quis o destino que são justamente dois clubes e duas hinchadas tendo em comum desde os anos 20 uma forte identificação com setores nacionais e populares (inclusive étnicos como negros e indígenas mapuches, respectivamente) para difundir o esporte profissional – em contraponto às elites oligárquicas com seus valores europeus e uma defesa do esporte amador (ESCUDERO e CONSTELA, 2020). Naquele final de década os chilenos estavam mais empolgados por terem equipes melhores, embora passaram raspando e não se classificaram nas eliminatórias de 86 e de 90.

Foto: Reprodução Facebook

Mais dez anos depois, o sistema de Eliminatórias de todos contra todos, ao invés de sistemas anteriores em grupos, permitiu encontros mais regulares. E foi justamente em 97 que essa rivalidade chegou a seu momento mais explosivo dentro e fora de campo em uma disputa direta pela última vaga para a Copa de 98. Os peruanos vinham com a confiança diante de uma boa Copa América naquele ano e até mesmo de uma recente goleada por 6 a 0 em amistoso em Lima como a maior na historia do clássico. Além da tranquilidade de uma melhor posição na tabela. Porém o embate teria que ser em Santiago, aonde os donos da casa tinham uma grande pressão depois das suspensões que passaram nas eliminatórias de 90 e 94 diante do caso Rojas. Para ambos, um jejum desde 82 sem jogar uma Copa do Mundo. Por isso minha hipótese sobre a dinâmica de uma rivalidade: na pior fase dos rivais andinos, sem poderem jogar de igual pra igual com Brasil e Argentina, foi quando de certa forma encurtaram suas distâncias e deram mais importância à sua rivalidade doméstica.

É forte a tese que o favoritismo peruano começou a ser derrotado assim que desembarcou em solo chileno. Os registros de cenas lamentables foram com pacote completo do que se podia esperar pela decisão de 97: foguetórios no hotel visitante, ônibus apedrejado, jogadores agredidos por torcedores, provocações xenofóbicas, e sobretudo vaias ao hino peruano. Mesmo sem um estudo detalhado dessa última questão de vaias, é provável que com o episódio esse tema alcançou seu momento mais polêmico diante do argumento de tentar prevenir essas deselegâncias não tocando um hino em um clima já notavelmente tenso.(O que hoje pareceria inconcebível já que tanto se toca os dois hinos como as duas equipes entram em campo pelo mesmo túnel para tentar atenuar a sensação de guerra inerente ao futebol).

Dentro de campo, duas gerações de qualidade e ofensivas de ambos os lados. Pelo Chile, o experiente meia Sierra e os atacantes Salas e Zamorano no seu auge. Pelo Peru, craques distribuídos pelo campo como Solano na lateral, Palacios na meia e Maestri de centroavante. A guerra psicológica já descrita foi crucial para a boa equipe peruana ir se entregando durante a partida e ver o rival carimbar a vaga mundialista com um 4 a 0. A versão futebolística para a “segunda guerra do pacífico”, teve a sua revanche separada exatamente por 4 anos. Em 2001, em Lima, as campanhas de ambos os países nas eliminatórias eram péssimas e sem chances de classificação, porém os peruanos não deixaram barato e venceram dentro de campo por 3 a 1 e fora revidaram com as ameaças e agressões.

Jorge Sampaoli na seleção chilena. Foto: Wikipédia

Vindo para nossos tempos mais recentes, o atual ciclo Gareca na seleção peruana teve dois embates fundamentais em semifinais de Copa América contra o Chile justamente durante a sua “geração dourada”. Era o momento que o clássico voltava a ser jogado por instâncias decisivas. Em 2015, em Santiago, assim como em 97, os chilenos decidiram em casa, porém com grande pressão: no caso para ver se finalmente ganhariam seu primeiro título. Venceram um jogo duro por 2 a 1, com dois gols de Eduardo Vargas, que turbinou a confiança rumo ao título contra a Argentina. Até hoje o principal trabalho do treinador Sampaoli. Ainda naquele ano, no início das eliminatórias o Chile teve a sua ‘cereja do bolo’ ao vencer em Lima por 4 a 3 (com mais dois gols de Vargas). Se em um clássico de clubes já é difícil vencer o rival em sua casa, com seleções é mais difícil ainda pelos encontros menos frequentes.

Se a guerra não dá revanche, o futebol sim. Em 2019, em Porto Alegre, os peruanos deram o troco em um inquestionável 3 a 0 também em uma semifinal. O Peru não teve mais expulsões precoces como em clássicos recentes e o nervosismo mudou de lado. Em uma partida próxima da perfeição de quase toda a equipe principalmente com Gallese lá atrás e com Guerrero lá na frente. Um prato cheio para a maioria dos comentaristas esportivos: a continuidade do trabalho no Peru com Gareca foi superior à roratividade de treinadores no Chile. Mesmo que na final não conseguiram vencer o Brasil, essa vaga foi tão comemorada quanto ter tomado do Chile a vaga na Copa de 2018 na Rússia. Se em 2021 com a volta da Copa América peruanos e chilenos aguardam possível um tira-teima, antes precisam se enfrentar em Santiago em 13 de novembro de 2020 pelas Eliminatórias lutando para saírem do fundo da tabela após duas rodadas ruins e fortes alegações de prejudicados pela arbitragem.

 

Referências

https://globoesporte.globo.com/blogs/meia-encarnada/post/2019/07/02/geografia-rivalidade-e-pisco-assim-pulsa-o-classico-do-pacifico.ghtml

https://peru21.pe/deportes/seleccion-peruana-diario-chile-recordo-episodio-triste-clasico-pacifico-186223-noticia/

ESCUDERO, Carolina Cabello; CONSTELA, Carlos Vergara. (Orgs.).Gol o penal: claves para comprender y disputar el deporte en el Chile actual. Buenos Aires: CLACSO, 2020.


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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. Anatomia de uma rivalidade: o Clássico do Pacífico entre Peru e Chile. Ludopédio, São Paulo, v. 137, n. 25, 2020.
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