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Argentina campeã mundial sub-20: 20 anos depois

Fabio Perina 8 de julho de 2021

O ano de 2001 na Argentina foi marcado por forte crise econômica e social no mês de dezembro com a renúncia do presidente Fernando de la Rua e a implosão do sistema político sob o conhecido mote: “que se vayan todos”. Cabe apenas mencionar que foi um ano muito movimentado, não somente pelo atentado de 11 de setembro com suas diversas conspirações mirabolantes. Mas a realidade concreta daqui do chamado “Sul global” teve a primeira edição do Fórum Social Mundial de Porto Alegre como um manifesto contra a globalização excludente. Estava em jogo derrubar a infame afirmação do “fim da história” que tanto sustentou a despolitização e o neoliberalismo. Sem entrar em detalhes da Argentina, a revolta contra o sistema financeiro mundial era tão grande que uma surpreendente pesquisa de opinião popular apontou que na Copa do Mundo de 2002 quem mais os argentinos torceriam contra não eram nem brasileiros ou ingleses, mas sim estadunidenses!

Já no futebol o país vivia uma situação oposta de grandes momentos. A começar pela emocionante despedida de Maradona na Bombonera no final do ano com seu inesquecível discurso: “la pelota no se mancha”. O River Plate tinha os melhores talentos individuais, sobretudo jovens revelados nas ‘canteras’ (categorias de base) pelo brasileiro Delem, porém não os melhores resultados coletivos. O Boca Juniors naquele momento era bicampeão da Libertadores e atual campeão intercontinental contra o Real Madri. O pouco lembrado Rosário Central era semifinalista da Libertadores. A ascensão do melhor San Lorenzo que mais enfileirou torneios nacionais e continentais em curto prazo. Mas o fato mais impactante foi o final da fila do Racing de 35 anos, ocorrida justamente nos últimos dias do ano em meio à grande convulsão social. Já para a seleção argentina, mesmo com a desistência de jogar a Copa América na Colômbia alegando falta de segurança, o treinador Marcelo Bielsa armou uma equipe líder de ponta a ponta das Eliminatórias e que um ano antes da Copa do Mundo no oriente se credenciava como uma das favoritas por desempenho e resultado invejáveis. Foram 13 vitórias em 18 partidas e apenas uma derrota, para o Brasil no Morumbi.

Foi nesse pano de fundo que a Argentina sediou o Mundial sub-20. Um torneio que se inseriu na virada das duas décadas em que a seleção venceu a maioria dos títulos da categoria: 95, 97, 2001, 2005 e 2007). Jogando todas as partidas no estádio José Amalfitani, a cancha do Velez Sarsfield, a equipe local imitava a seleção principal e repetiu uma campanha arrasadora com 7 vitórias em 7 partidas que levaram ao título: Finlândia, Egito, Jamaica, China, França, Paraguai e Gana foram sucumbindo a um futebol bastante ofensivo. O ótimo treinador José Pékerman formou a espinha dorsal com jogadores do Newell’s Old Boys (Leo Ponzio, Mauro Rosales e Maxi Lopez) e do River Plate (D’Alessandro, ‘Chori’ Domínguez e Saviola). Jogadores que assim como os goleiros Caballero e Lux e os zagueiros Burdisso e Coloccini pouco tempo depois formaram a base de outra conquista histórica do futebol argentino na categoria de base: a medalha de ouro em Atenas 2004. E logo depois, já com Messi liderando uma geração mais nova, venceu novamente a mesma categoria sub-20, em 2005. Aliás, é importante o papel discreto, mas dedicado e eficaz de Pékerman como “olheiro” profissional de categorias de base. Pois teve o seu primeiro trabalho mais duradouro no Argentinos Jrs., clube chamado de “semillero del mundo”, ajudando na formação de jovens talentos como Redondo e Riquelme. E depois foi uma peça estratégica para observar Messi nas categorias de base do Barcelona e exigir uma rápida convocação para a Argentina antes que viesse primeiro uma pela Espanha e ele se naturalizasse!

Em uma espécie de “que fim levou”, dos jogadores destacados a maioria teve em comum nos anos seguintes passagens discretas pela seleção principal e carreiras sólidas em clubes europeus. As frequentes desvalorizações do peso argentino em relação ao dólar de 20 anos para cá, somadas com as várias conquistas da seleção argentina nas categorias de base, fazem com que as boas revelações sejam vendidas cada vez mais cedo para a Europa e seja improvável chegarem ao seu auge em algum clube local. Alguns destaques para os repatriados pelo River Plate já veteranos: Domínguez para disputar o Ascenso (segunda divisão) em 2011/12 e Ponzio como um dos principais jogadores da última meia década no ciclo do treinador Marcelo Gallardo. Assim como o veterano goleiro Lux que retornou ao clube que o formou embora seja reserva de Armani. Assim como outro jogador fundamental naquela campanha de 2001, Leandro Romagnoli, camisa 10 do San Lorenzo e daquela seleção sub-20, que retornou ao clube que é ídolo para outra grande fase do clube com grandes títulos em 2013/14 (sobretudo a tão sonhada Libertadores por ser o último clube grande que faltava conquista-la) assim como em 2001/02.

Algumas exceções ao caminho da maioria que atinge seu auge na Europa: a conhecida idolatria de D’Alessandro em mais de uma década no Inter de Porto Alegre e a decepção de Saviola. Pois quando jovem despontou como uma das melhores revelações do clube de Nuñez e o artilheiro desse torneio sub-20, “la rompia todo”, porém com o passar dos anos evoluiu bem menos do que se esperava para consolidar um lugar na seleção argentina, mesmo com vários títulos pelo Real Madri e principalmente pelo Benfica onde era titular. Por fim, uma clara evolução foi notada com o treinador Pékerman, pois assumiu a seleção principal em 2004 e armou uma forte equipe para a Copa do Mundo de 2006 na Alemanha, perdendo apenas para os donos da casa nos pênaltis. E sobretudo depois quando fez a Colômbia voltar às Copas do Mundo de 2014 e 2018.

Vale mencionar que a seleção brasileira esteve sediada em Córdoba (por coincidência assim como na Copa América 2011) e parou nas quartas-de-final ao perder de virada na prorrogação para a ótima equipe de Gana e futura finalista. Em uma época entre os anos 90 e 2000 quando os africanos eram presença constante nas finais de olimpíadas e outros torneios juvenis, essa equipe tinha jogadores como Essien, Mensah e Boateng que mais tarde se destacariam na Copa do Mundo de 2010. Pela seleção brasileira foram convocados pelo pouco conhecido treinador Carlos Cesar alguns jogadores com ótimas passagens pela seleção principal no restante da década que se iniciava: Maicon, Luisão, Júlio Baptista, Kaká e Adriano.

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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. Argentina campeã mundial sub-20: 20 anos depois. Ludopédio, São Paulo, v. 145, n. 13, 2021.
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