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Argentina x México na Copa do Mundo do Catar 2022

Fabio Perina 25 de novembro de 2022

O confronto entre Argentina e México é o único latino-americano na fase de grupos da Copa do Mundo do Catar de 2022. Dividindo o grupo com Polônia e Arábia Saudita. Distinto do boxe, no futebol argentinos e mexicanos estão longe de significar alguma rivalidade, vide a vantagem argentina tão desparelha em confrontos diretos. Pelo menos traz à memória outros encontros. Ambos em oitavas de final, ambos com classificação argentina. Em 2006, na Alemanha, 2 a 1 com gols de Hernán Crespo e Maxi Rodríguez (na prorrogação e considerado por muitos um dos melhores gols mundialistas), inclusive com Scaloni parte do plantel. E em 2010, na África do Sul, 3 a 1 com dois gols de Carlitos Tevez e um de Gonzalo Higuaín (recém aposentado). Sendo que a partida mais importante que disputaram foi uma final de Copa América em 93: o estreante México fez uma campanha honrosa e perdeu para a vigente campeã e invicta por 2 anos Argentina do artilheiro Gabriel Batistuta e do treinador Alfio Basile. O fato de dividirem o mesmo idioma e até mesmo esses conflitos mundialistas recentes fazem com que logo após o sorteio houvesse um frenesi nas redes sociais e nos principais meios de comunicação dos dois países diante de provocações diversas conforme diversos critérios envolvendo dentro e fora de campo. Por exemplo, as acusações dos argentinos que os mexicanos buscam em qualquer garoto talentoso encontrar “um novo Messi” e que na seleção mexicana e em seus clubes a cobrança de dirigentes e torcedores é tão branda que incentiva jogadores “baladeiros” e pouco comprometidos. Já a réplica dos mexicanos é que os argentinos são uma potência decadente e já não impõe mais medo. Pensando em outros sentidos profundos, se a Argentina em copas possui um forte apelo de VITÓRIA (vide um verso de seu hino nacional tão agonicamente futbolero: “coronamos de gloria vivamos, o juremos con gloria morir”), por outro lado o México possui um forte apelo de FESTA (pois mais participam do que vencem).

Messi
Messi comemora gol na Copa do Mundo de 2018. Fonte: Wikipédia

Atualmente cada uma chega ao mundial em contrastes. A Argentina chega muito além de ter Messi como candidato a craque do torneio mas volta a ser candidata ao título, repetindo as conquistas históricas de 78 e 86. O pouco experiente treinador Lionel Scaloni construiu uma equipe com mais de 30 partidas de invencibilidade, atual campeã da Copa América, e completou o plantel com outros referentes como o goleiro Dibu Martinez, os meias Leandro Paredes e Rodrigo De Paul e o artilheiro Lautaro Martinez. Em suma, ao já chegar com uma equipe já formada e com a “Scaloneta” bastante azeitada, o otimismo é bem maior do que a equipe recém finalista em 2014 no Brasil que avançou aos trancos e barrancos treinada pelo recém falecido Alejandro Sabella. Além dessas credenciais objetivas, contam ainda com uma credencial subjetiva inimitável: a primeira Copa do Mundo sem Maradona nas tribunas mas agora junto aos deuses do futebol. Traçando um quadro mais amplo para além do futebol, atualmente a seleção argentina desperta muito mais otimismo do que o futebol argentino local com um torneio cada vez mais criticado e sobretudo com a esperança que ao menos por alguns dias a camisa albiceleste promova alguma trégua diante da eleição de 2023 que já está bastante antecipada e polarizada.

Enquanto por outro lado o México não consegue mais sequer ter hegemonia na zona da Concacaf seja em títulos de Copa Oro (o equivalente da Copa América) e seja em liderança das Eliminatórias (vide a atual surpresa do Canadá). Felizmente a vaga como sede para a próxima Copa do Mundo de 2026 já estará garantida, se livrando de mais vexames em Eliminatórias que se tornaram recorrentes. Ironicamente La Tri contará com alguns reforços albicelestes: o treinador Gerardo Martino (ex-Newell’s Old Boys e seleção paraguaia) e o atacante Gabriel Funes Mori (ex-River Plate). Além claro da presença recorrente do goleiro Guillermo “meme” Ochoa, já em seu 5o mundial. O que traz à memória o papel ambíguo das participações mundialistas mexicanas: o goleiro Carbajal bateu recorde de estar também em 5 edições nos anos 50 e 60, porém também bateu o recorde de gols sofridos. Além de ser a seleção com o maior número de derrotas em todas as copas. O que também remete a um problema histórico ainda mais profundo do México nunca ter superado uma 4a partida mundialista, padecendo de eliminações precoces, até mesmo nas edições que sediou em 70 e 86 em que respectivamente Pelé e Maradona se consagraram. Mas ao menos o país consagrou uma alegre torcida mexicana como presença marcante nos mundiais sempre com fantasias e bebidas.

Carbajal
Antonio Carbajal na Copa do Mundo de 1958. Fonte: Wikipédia

Por fim, deixando um pequeno comentário para o âmbito dos clubes, o fluxo de transferências de jogadores possui dois sentidos bem nítidos em dois períodos. Nos anos 90, com a paridade entre dólar e peso argentino foi possível que várias estrelas mexicanas como Garcia Aspe e Luis “Diablo” Hernández tivessem breves passagens frustradas por River e Boca. Enquanto dos anos 2000 em diante, passa a ocorrer a crescente desvalorização do peso argentino e a crescente cópia da liga mexicana conforme a liga estadunidense, e com isso tornando os clubes mexicanos uma espécie de reserva de mercado para o excedente de jogadores e até treinadores argentinos sub-aproveitados. Incluindo diversos que fizeram carreira por lá por longas temporadas. Essa mesma transição próxima dos anos 2000 também é marcada pela transição na cultura popular torcedora no México de “porras” a “barras”, sendo que a recém formada “La Rebel” dos Pumas buscou um estágio de aprimoramento com “La Doce” do Boca.

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Fabio Perina

Palmeirense. Graduado em Ciências Sociais e Educação Física. Ambas pela Unicamp. Nunca admiti ouvir que o futebol "é apenas um jogo sem importância". Sou contra pontos corridos, torcida única e árbitro de vídeo.

Como citar

PERINA, Fabio. Argentina x México na Copa do Mundo do Catar 2022. Ludopédio, São Paulo, v. 161, n. 25, 2022.
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