151.9

Argos Panoptes e Mozer, o urubu-rei em devir pavão real de 100 olhos

Fabio Zoboli, Elder Silva Correia 10 de janeiro de 2022

“O Flamengo é diferente,
ele tem uma moldura humana enorme em torno de si que é a sua torcida,
que tem um amor enorme pelo seu clube.”
(Mozer)

Os “monstros” Argos Panoptes e Mozer são imagens míticas de vigilância e guarda – cada um em seu devido panteão e ocupando respectivas temporalidades. Fiéis a seus empregadores, estavam sempre dispostos a morrer por eles. Nossa crônica de hoje confabula com o guardião Argos, personagem da mitologia grega, e com o zagueiro Mozer, um dos maiores jogadores da história do Flamengo.

Na mitologia grega Argos Panoptes era um gigante abominável que possuía um corpo repleto de olhos. Para ser mais preciso, o monstro tinha exatos 100 olhos. O “Panoptes” que carrega em seu nome significa “o que tudo vê”. Ele ficou conhecido nos contos gregos por ser o guardião da imponente deusa Hera.

Argos
Fábula de Mercúrio e Argos, por Diego Velázquez. Fonte: Wikipédia

Na endeusada escrete rubro-negra de 1981 havia um gigante defensor chamado José Carlos Nepomuceno Mozer. Seu corpo de zagueiro era repleto de atributos que o consagraram como o deus da vigilância, um colosso da zaga rubro-negra. Ele foi o guardião do mais poderoso time que o Flamengo teve em sua história: a esquadra campeã mundial de 1981.

Os contos mitológicos gregos são fábulas extremamente machistas, e isso explica, em parte, a “civilização” patriarcal ocidental na qual, do ponto de vista histórico, a mulher foi erroneamente subjugada a uma condição de inferioridade. Em uma de suas inúmeras aventuras extraconjugais, Zeus foi “quase flagrado” por sua esposa Hera quando estava a ter um caso com a ninfa Io. Sentindo a aproximação de Hera, Zeus transformou rapidamente a bela ninfa em uma vaca branca. Quando Hera aparece diante de Zeus, surpreendeu-se em encontrá-lo com um animal, pois estava certa de que o apanharia em adultério. Fingindo não ter se dado conta do truque do marido, Hera pediu a ele de prenda a linda novilha, pois desconfiava que “dentro dela” estava escondida uma de suas amantes. Zeus, sem muita opção frente ao pedido da esposa, concedeu o presente a ela.

Hera levou a vaca para casa e a entregou ao gigante Argos Panoptes, solicitando que ele a levasse para longe e nunca tirasse os olhos dela. A missão que Hera deu a Argos era simples; afinal, vigiar para ele era fácil demais, uma vez que ostentava 100 olhos. O descomunal Argos levou a vaca para o Egito e lá passou a vigiá-la 24 horas por dia. Surpreendentemente, quando Argos dormia, apenas o fazia com dois olhos de cada vez.

Oriundo do futsal, Mozer chegou ao Flamengo em 1975 (ainda com 15 anos) para jogar nas categorias de base do clube. Em 1979, além de jogar na base, ele também começou a atuar pelo profissional sob a batuta de Cláudio Coutinho. Porém, de 1980 a 1987 não tinha para ninguém na zaga do Flamengo, era ele e mais um. Com 292 jogos pelo mengão ganhou o mundial de clubes e a libertadores de 1981, o tricampeonato brasileiro (1980-1982-1983) e os cariocas de 1981 e 1986. Pelo Flamengo compôs várias duplas de zaga memoráveis, Mozer com: Rondinelli, Manguito, Marinho, Figueiredo, Leandro, Aldair e outros. Na verdade, no Flamengo qualquer dupla de defesa que tivesse Mozer como um dos zagueiros seria imbatível e inesquecível.

Mozer realmente era colosso; com seus quase 1,90 m de altura era implacável nos cortes pelo alto na defesa, um vigilante que sabia guardar muito bem a meta do Flamengo dos ataques dos adversários. Como zagueiro também era muito preciso nos cortes por baixo. Talvez o carrinho tenha sido uma de suas maiores habilidades, pois com suas pernas compridas os carrinhos de Mozer eram como metáforas de um taco de sinuca pela precisão e elegância. Paulo Cézar Carpegiani confiou a Mozer a zaga do Flamengo no idílico ano de 1981, e ele com Marinho se eternizaram como a dupla da conquista do título mundial daquele ano. Dois monstros gigantes na vigília da defesa rubro-negra.

Retomando o conto de Argos, Zeus não podia deixar sua ninfa eternamente presa ao corpo de uma novilha e, então, preparou um plano para capturá-la da atenção daquele que tudo via. Ele chamou seu filho Hermes, escudeiro e cúmplice de suas artimanhas amorosas, e pediu a ele que matasse Argos. Hermes (o deus da astúcia), desta forma, pegou sua flauta, aproximou-se de Argos e começou a tocar uma música de ninar. Os olhos de Argos começaram a se fechar, um a um, e quando o último deles cerrou-se, Hermes cortou vigorosamente a cabeça do vigilante. No entanto, Io ainda permanecia na forma animalizada de vaca. Hera, zangada com o assassinado de seu vigia, mandou uma nuvem de moscas mutucas atormentar a vida de Io. Até que um dia Zeus suplicou a Hera que devolvesse Io a sua forma original com a promessa de que ele não mais a procuraria. Deste modo, Io resgatou sua forma humana e deu à luz ao seu filho com Zeus. Os egípcios, ao visualizarem a transformação da vaca em mulher, passaram a adorar a mesma como uma deusa. E, assim, Io passou a ser reverenciada como a deusa Ísis, e seu filho Épafo, primogênito de Zeus, tornou-se adorado como deus Ápis.

Mozer jogou no Flamengo até o início de 1987 quando foi vendido para o Benfica de Portugal, onde também foi tricampeão nacional. Nesse clube português, Mozer e Ricardo Gomes foram eleitos a melhor dupla de zaga da Europa na temporada 1988/1989. Como se não bastasse, o habilidoso jogador ainda repetiu a façanha de ser tri na França, jogando pelo Olympique de Marseille. Além disso, ganhou o campeonato japonês no último ano de sua carreira como atleta do Kashima Antlers, em 1996. O Hermes da vida de Mozer foram as lesões no joelho. Em 1996 ele deixou os gramados, pois já sentia muitas dores para treinar devido a todo um histórico acumulado de lesões na carreira. Os joelhos de Mozer tiraram-no de campo e agora apenas resta aos torcedores fechar os olhos e sonhar com o gigante zagueiro que um dia ele foi.

Por ser gigante a maioria de seus 21 gols com a camisa do Flamengo foram anotados de cabeça, mas Mozer também sabia fazer gols com os pés. Na libertadores de 1984 Mozer marcou dois lindos gols em cima do arqueiro Rodolfo Rodrigues, do Santos, no majestoso Maracanã (Flamengo 4 x 1 Santos). O segundo deles, inclusive, é considerado por Mozer seu gol mais bonito. Mozer era e é tão fã de Zico que no Brasileiro daquele mesmo ano fez um gol de falta contra o Internacional (RS) na vitória do Fla por “2 x 0”, o qual foi, praticamente, um duplo dos gols de falta de Zico, um clone perfeito, um gol “alter ego”. A palavra alter ego é formada pela palavra latina alter, que significa outro; e ego, que significa “o eu”. Desta forma, seu significado pode ser entendido como “o meu outro eu”. Assim, pode-se dizer, “um gol de Zico feito pelos pés de Mozer”, ou “um gol do Galinho Mozer”.

Mozer
Foto: reprodução

Quando soube da morte de seu ciclópico monstro guardião, Hera demasiada triste pegou cada um dos 100 olhos de Argos e os colocou na cauda de seu pássaro símbolo, o pavão real. Desde então os pavões nascem com os olhos de Argos Panoptes estampados na plumagem de sua cauda.

Se o urubu-rei já voou tão alto em sua história é porque suas plumas são feitas de monstros geniais como Mozer. Um guardião da zaga que para sempre será visto com carinho e gratidão pelos “olhos” dos 40 milhões de torcedores que compõe a Nação.

Jogando futebol era belo e elegante como o pavão. Como ídolo eterno da Gávea voou alto como o urubu-rei. Obrigado Mozer, você levou nossa torcida a tocar o mais alto dos céus com sua guarda vigilante. Urubu-rei em devir Pavão Real de 100 olhos.

Seja um dos 27 apoiadores do Ludopédio e faça parte desse time! APOIAR AGORA

Fabio Zoboli

Professor do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe - UFS. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e política".

Elder Silva Correia

Mestre em Educação Física pela Universidade Federal do Espírito Santo - UFES. Membro do Grupo de pesquisa "Corpo e Política" da Universidade Federal de Sergipe - UFS.

Como citar

ZOBOLI, Fabio; CORREIA, Elder Silva. Argos Panoptes e Mozer, o urubu-rei em devir pavão real de 100 olhos. Ludopédio, São Paulo, v. 151, n. 9, 2022.
Leia também:
  • 151.30

    Torcidas organizadas, para além da criminalização e da infantilização

    Francisco Galvão do Amaral Pinto Barciela
  • 151.29

    Infância, esporte e masculinidade

    Wagner Xavier de Camargo
  • 151.28

    Robinho, a cultura do estupro, Pelé

    Alexandre Fernandez Vaz